14 de Junho de 2009 - Domingo XI do Tempo Comum

Entrar no "mistério da fé"

O Evangelho fala-nos de vários tipos de sementes: umas que germinam na terra com um dinamismo surpreendente, e outras que originam uma planta de dimensões inesperadas.

E percebemos que Jesus nos quer falar da acção de Deus em nós e na comunidade dos discípulos, a sua Igreja.


Bento XVI celebra a Missa da Solenidade do Corpus Christi

Mas percebemos também que, para recebermos a semente do Reino de Deus, não podemos ser como o alcatrão ou o empedrado das ruas, onde as sementes nao entram nem germinam, mas como boa terra, que pode ser lavrada e preparada para receber a boa semente.

Ninguém semeia no alcatrão ou nas pedras da calçada, e Deus também não o faz. Só pode receber a semente do Reino de Deus uma inteligência que não se tenha endurecido ou um coração que não se tenha fechado no seu egoísmo.

No mundo de hoje há muitas auto-estradas, que são úteis e necessárias, há muitos quilómetros de asfalto, mas tem de continuar a haver campos de trigo, hortas e pomares, jardins e florestas.

E ficamos felizes porque também hoje, com parábolas muito simples, Jesus nos continua a falar no Evangelho de semeadores e de sementes, ensinando-nos que o mais importante de tudo é que os corações dos homens continuem abertos à acção de Deus e à sua graça.

Ao ler o Evangelho, numa época tão sofisticada e ao mesmo tempo tão pessimista como a nossa, encanta­nos profundamente o modo como Jesus fala da natureza, e como utiliza as imagens da natureza para exprimir o dinamismo do Reino de Deus.

E também nós, como seus discípulos, temos um grande encanto pela natureza, que não é simples sensibilidade ecológica, mas se enraíza na nossa fé em Deus Criador. A primeira afirmação da nossa profissão de fé continua hoje a ser esta: "Creio em um só Deus, Criador do Céu e da Terra".

Poderemos hoje continuar a acreditar na Criação? Voltaremos a esta questão daqui a algum tempo. Mas poderemos continuar a enoantar-nos com a natureza?

É verdade que o mundo não é perfeito, e contém forças que muitas vezes provocam a destruição e a morte. A nossa experiência confronta-se constantemente com limitações, doenças, e até catástrofes naturais. Como explicar o mal que há no mundo, se o seu Criador é um Deus poderoso e bom?

Estas perguntas são muito sérias, e o peso do mal é muito grande, mas isso não nos impede de continuar a admirar as maravilhas do universo e em particular da Terra onde vivemos.

Jesus chama hoje a nossa atenção para duas dessas maravilhas: a semente de trigo que, no silêncio da terra, germina e cresce, sem o semeador saber como; e o pequeno grão de mostarda que, embora seja a mais pequena de todas as sementes, "depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra".

Jesus alude a estes prodígios da natureza como imagens do dinamismo sobrenatural do Reino de Deus. Assim como a semente germina e cresce no silêncio da terra, assim também em nós, se não tivermos um coração de pedra (ou de alcatrão), oseu Reino pode crescer e produzir muitos frutos.

E embora tenha começado muito pequeno, o Reino de Deus destina-se a crescer muitíssimo e a tornar-se muito acolhedor para todos os que nele se quiserem abrigar.

Assim será a Igreja, que Jesus quis que fosse como a planta da mostarda, que cresceu imensamente e onde as aves gostavam de se abrigar, e se tornasse nesta árvore frondosa debaixo de cujos ramos todos os homens podem encontrar descanso e recuperar novas forças.

Nos próximos domingos gostaria de reflectir convosco sobre o mistério da Criação e também sobre a relação entre a Criação e o mal.

Mas hoje gostaria ainda de pensar como deve ser a Igreja para ser verdadeiramente acolhedora dos seres humanos, tantas vezes dispersos e errantes noseu caminho.

Na passada 5ª feira, festa do Corpus Christi, o Corpo de Deus, Bento XVI, durante uma homilia muito bela dedicada à Eucaristia, lembrou que esta festa é uma oportunidade para renovarmos a nossa fé na presença real de Cristo na Eucaristia.

No entanto, acrescentou o Papa, "não se deve ter como um dado adquirido esta fé!"

E acrescentou: "Há hoje o risco de uma secularização rastejante também no interior da Igreja, que se pode traduzir num culto eucarístico formal e vazio, em celebrações destituídas daquela participação do coração que se exprime na veneração e no respeito pela liturgia.

"Continua forte a tentação de reduzir a oração a momentos superficiais e apressados, deixando-se submergir pelas actividades e preocupações terrenas".

Esta advertência do Santo Padre deve-nos fazer pensar seriamente. Por um lado, no meio de uma vida intensa e activa, temos de ser pessoas de oração profunda e tranquila, sem pressa.

Só assim cumpriremos a nossa missão no mundo, e poderemos realizar um trabalho eficaz.

E, por outro lado, as celebrações litúrgicas, em especial a celebração da Eucaristia, a Santa Missa, têm de reflectir sempre a sacralidade dos mistérios que celebramos. E têm de ser vividas por dentro, com profundo amor, respeito e veneração.

Pela liturgia entramos por dentro no "mistério da fé", para nos unirmos a Cristo, no sacramento do seu sacrifício, e partirmos depois com mais presença de Deus, com mais esperança e verdadeira caridade.

Mas, para partir, primeiro é preciso vir, é preciso participar, é preciso comungar. São João Maria Vianney, como lembrou Bento XVI, gostava de dizer aos seus paroquianos: "Venham para a comunhão... É verdade que não somos dignos, mas precisamos".

E quem não estiver preparado, procure preparar­se, venha também ao sacramento da reconciliação e do perdão.

É preciso fugir da indiferença, do formalismo, da «secularização».

O que está em jogo é algo tão grande como isto: recebemos no coração não uma simples semente, mas o próprio Jesus, oculto, é verdade, no Pão consagrado e no Cálice da Eucaristia, mas realmente presente, para dar à nossa vida toda a força e toda a fecundidade do seu sacrifício redentor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

Arquivo