9 de Agosto de 2009 - Domingo XIX do Tempo Comum

Receber o Pão do Céu

O Evangelho de S. João apresenta-nos hoje esta espantosa afirmação de Jesus: "«Eu sou o pão que desceu do Céu»". Jesus é o alimento celeste dado aos homens, é o Pão com que Deus nos alimenta.

Agradecemos a Deus a graça de ter conhecido e aceite o mistério da vinda do Pão do Céu, Jesus Cristo, a este mundo. Mas o Evangelho descreve-nos também a recusa da fé por parte daqueles que, por julgarem conhecer as origens humanas de Jesus, recusavam a sua origem divina.


Igreja de Nª. Srª. do Santíssimo Sacramento, O Pão partido (2007)

À semelhança do que já os seus antepassados tinham feito no deserto, durante o êxodo, «murmurando» contra Deus, também agora "os judeus murmuravam de Jesus, por Ele ter dito: "Eu sou o pão que desceu do Céu»". "E diziam: «Não é Ele Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua mãe? Como é que ele diz agora: 'Eu desci do Céu'?»".

A estes, Jesus responde serenamente que a fé é um dom do Pai: "«Ninguém pode vir a Mim, se o Pai que Me enviou O não trouxer»". Para ir até Jesus e aderir ao seu mistério, é preciso ser atraído pelo Pai. Hoje, agradecemos esta atracção interior que nos trouxe até Jesus. Agradecemos reconhecidamente o dom da fé.

Que seria de nós sem a fé? Nas próximas semanas, começaremos a aprofundar um pouco mais a virtude da fé. Mas já hoje percebemos claramente que, sem fé, seríamos caminhantes sem rumo, navegadores sem bússola, peregrinos sem meta. Mais cedo ou mais tarde venceria em nós a tristeza e o desânimo.

Seríamos como Elias, naquele momento difícil de que falava a 1ª leitura: esmagado pela prova, só se dispunha a esperar a morte. Mas, "fortalecido por aquele alimento" que lhe veio de Deus, "caminhou durante quarenta dias e quarenta noites, até ao monte de Deus, o Horeb". A fé vence a angústia e permite­nos voltar a caminhar.

No entanto, a fé é uma atracção que não se impõe, que não nos arrasta contra nossa vontade. A fé é luminosa e cativante, mas não é uma evidência irrefutável. A fé é um dom que podemos aceitar ou rejeitar. Vemos que Jesus não entra em polémica com aqueles que rejeitavam este dom, mas diz-lhes simplesmente: "«Não murmureis entre vós»".

A quem o aceita, porém, Jesus promete solenemente: "«Eu o ressuscitarei no último dia»". A fé dá sentido à vida e vence a morte. Com autoridade divina, Jesus afirma: "«Em verdade, em verdade vos digo: Quem acredita, tem a vida eterna»".

Mas Jesus vai ainda mais longe, e leva-nos a passar a um outro nível de união com Ele, ainda mais profundo. Do Pão que é Jesus, passa-se ao Pão que o próprio Jesus dará. Do simples acreditar, passa-se ao "comer". Jesus diz: "Quem comer deste pão, viverá eternamente". Que pão é este?

O próprio Jesus responde: "«O pão que Eu hei-de dar, é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo»". Tudo indica que esta expressão corresponde às palavras da instituição da Eucaristia, que encontramos nos outros evangelhos, particularmente em S. Lucas: "«Isto é o meu corpo entregue por vós" (22,19).

S. João, que não descreve a Última Ceia, quis que os seus leitores reconhecessem aqui um anúncio da instituição da Eucaristia. O Verbo feito carne oferece a sua carne "pela vida do mundo".

Com estas palavras, portanto, Jesus ensina-nos que Eucaristia nos põe em contacto directo com o mistério da sua Encarnação, orientada para a sua morte redentora. A Eucaristia dá-nos o Verbo que se fez carne, para se entregar pelos homens. A Eucaristia dá-nos o Pão vivo descido do Céu e oferecido na cruz. A Eucaristia é um mistério assombroso, que nos identifica com Cristo e dá à nossa vida, todos os dias, uma força e um sentido novo.

Peçamos que a nossa vida reflicta a união que já temos com Jesus Cristo. Quem recebe na Eucaristia o Pão do Céu entregue até à morte só pode dar um testemunho de fé profunda e sincera. A nossa vida continua a ser normal, como a de toda a gente, mas ao mesmo tempo é muito especial, sempre cheia de confiança e de alegria.

Peçamos também um amor cada vez maior à celebração da Eucaristia, a Santa Missa. Está a decorrer o Ano Sacerdotal, convocado pelo Papa Bento XVI, na comemoração dos 150 anos da morte do Santo Cura de Ars, S. João Maria Vianney, que se completaram já no passado dia 4 de Agosto.

Falando da Missa, S. João Maria Vianney gostava de dizer: "Todas as boas obras juntas não equivaleriam nunca ao Sacrifício da Missa, porque são obras dos homens; ao passo que a Santa Missa é obra de Deus".

A Missa não é uma celebração humana, embora participemos nela com toda a nossa humanidade, é "obra de Deus". E o sacerdote, em rigor, não «preside», celebra a Missa «in persona Christi», em nome e nas vezes do próprio Jesus.

E quem comunga não recebe um pão terreno, mas o próprio Pão do Céu. E é preciso recebê-lo sempre com profundo amor e reverência.

É preciso receber a Sagrada Comunhão com grande sentido de adoração e gratidão. E também perceber que cada comunhão é ou pode ser também, não só uma graça pessoal, mas uma graça para o mundo inteiro.

Assim ensinava também S. João Maria Vianney: "A sagrada comunhão e o Santo Sacrifício da Missa são os dois actos mais eficazes para conseguir a conversão dos corações".

Peçamos a graça de acreditarmos também nós profundamente nesta eficácia divina da Eucaristia, antes de mais para a nossa conversão, e também para a conversão de muitas pessoas, do mundo inteiro.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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