19 de Julho de 2009 - Domingo XVI do Tempo Comum

Urgente voltar a Deus

Há tempos apareceu em alguns países uma publicidade absurda. Apareceu colada nos autocarros e noutros meios de transporte esta frase: «Provavelmente Deus não existe. Deixe de se preocupar e goze a vida».

Uma das cidades onde esta campanha apareceu foi Madrid. Os bispos espanhóis reagiram com grande firmeza.

"Insinuar que Deus provavelmente é uma invenção dos crentes e afirmar também que não os deixa viver em paz nem desfrutar a vida é objectivamente uma blasfémia e uma ofensa aos que crêem», afirma uma nota dos bispos espanhóis.

Eu só acrescentaria que o provavelmente, apesar de ser irónico, não deixa de ser um sinal de fraqueza. Afinal não estão assim tão certos.

Na Inglaterra, onde a campanha foi financiada por mais de 140 mil libras (cerca de 150 mil euros), e apareceu em 800 carreiras de autocarros e no Metro de Londres houve uma associação chamada Christian voice, que a acusou de ser «publicidade enganosa», dado que carece de fundamento ou de bases para aquilo que afirma.

Segundo o porta-voz desta associação, a campanha viola o código publicitário, «a não ser que os anunciantes demonstrem que provavelmente Deus não existe». O que, evidentemente, não fazem.


Paulo Veronese, Fé e religião (1575-1577)

Não é agora o momento de argumentarmos racionalmente, no sentido de demonstrar que Deus existe, (embora um dia o possamos fazer), mas, porque estamos num contexto de fé, este é o momento certo para agradecer a Deus essa fé firme e segura que nos deu, sem nenhum mérito da nossa parte, na sua existência e nas suas infinitas perfeições divinas.

Também não escondemos a ninguém que acreditamos, não provavelmente, mas seguramente, que Deus existe, e que a fé nos ajuda a desfrutar da vida ao máximo, ao mesmo tempo que nos impede de a estragar ou a desbaratar, como muitos fazem.

É urgente voltar a Deus! Veja-se quem é que saboreia mais e melhor a beleza do mundo: é quem acredita que ele reflecte o poder criador de Deus. Sem Deus, o mundo seria uma ilusão, uma enorme frustração.

Veja-se quem é que saboreia mais e melhor a beleza da vida: é quem sabe que ela nos foi dada por Deus. A vida não é apenas para se «gozar», mas é para se viver "em abundância", como diz Jesus no Evangelho de S. João (lO, 10)

Como devemos então proceder para com Deus? Dando-Lhe aquilo a que tem direito da nossa parte. No passado domingo, falámos da justiça, que é a virtude moral que consiste na constante e firme vontade de dar aos outros o que lhes é devido.

Mas também há uma justiça para com Deus. Em relação a Deus também temos deveres, não só em relação aos outros homens. A justiça para com Deus chama-se «virtude da religião». É um acto bom e nobre prestar a Deus a homenagem que lhe é devida.

Não podemos ser frios nem indiferentes em relação a Deus, mas cultivar uma «devoção» e um amor para com Deus calorosos e sinceros. S. Tomás de Aquino diz-nos que, meditar na nossa dependência de Deus e no próprio ser de Deus, cria em nós essa «devoção».

Diz-nos ainda que, quando pensamos sobre a bondade de Deus, ficamos cheios de alegria, embora as nossas falhas e insuficiências possam ser para nós causa de tristeza.

Uma atitude «inteligente» na nossa relação com Deus é a oração. Quando rezamos, o nosso objectivo não é mudar os planos de Deus, mas sim tornar-nos capazes de receber o que Deus nos quer dar, segundo o seus planos de amor. Mas rezar não é só pedir, é também agradecer.

Um dos actos mais importantes da virtude da religião, senão mesmo o primeiro, é a adoração. O Catecismo da Igreja Católica ensina que "adorar a Deus é reconhecê-Lo como tal, Criador e Salvador, Senhor e Dono de tudo quanto existe, Amor infinito e misericordioso" (n. 2097).

E apesar de Deus não necessitar de nada, podemos oferecer-Lhe os nossos dons, a começar pelas obras de cada dia, logo que acordamos e nos levantamos. A esses dons podemos chamar sacrifícios, não por nos custarem a fazer, mas por serem oferecidos "em sinal de adoração e de reconhecimento, de súplica e de comunhão" (n. 2099).

Santo Agostinho diz que "verdadeiro sacrifício é todo o acto realizado para se unir a Deus em santa comunhão e poder ser feliz".

A fé diz-nos que "o único sacrifício perfeito é o que Cristo ofereceu na cruz, em total oblação ao amor do Pai e para nossa salvação. Unindo-nos ao seu sacrifício, podemos fazer da nossa vida um sacrifício a Deus" (n. 2100).

A virtude da religião não é só interior, é também exterior, visível. Na nossa Paróquia vamos ter em breve um sinal expressivo do nosso desejo de adorar a Deus e de Lhe prestar o culto que Lhe é devido, na Liturgia.

No Início do próximo mês de Agosto, chega aos Jerónimos o Órgão de Tubos para o serviço da Liturgia que a nossa Paróquia mandou construir na oficina do organeiro suíço Mathis. A sua construção já terminou neste momento. O Órgão de Tubos vem desmontado, e será montado e afinado durante o mês de Agosto e nas primeiras duas semanas de Setembro. É para nós um grande acontecimento espiritual e cultural.

A sua inauguração será no dia 30 de Setembro, às 21h30. Após a bênção pelo Senhor Cardeal Patriarca, haverá um concerto pelo organista alemão Prof. Wolfgang Seifen e o Coro de Santa Maria de Belém.

Muitos paroquianos, ao longo dos anos, têm colaborado com os seus donativos, e acredito que muitos outros se queiram juntar a estes, mesmo que o façam só a partir de agora.

Abrimos hoje uma nova fase de inscrições para os AMIGOS DO ÓRGÃO, cujo contributo continuará a ser muito importante, porque ainda não temos toda a verba necessária para o pagamento do Órgão. Todas as colaborações são importantes, e são necessárias!

Na Igreja trabalhamos ao mesmo tempo em várias frentes, sobretudo na evangelização, no culto e na caridade. Não são áreas isoladas, mas aspectos de uma única missão e da mesma comunhão.

Peço a Deus, por intercessão de Nossa Senhora, que este acontecimento e tudo o que para ele contribui ou contribuirá, assuma a dimensão de um verdadeiroacto de culto, para que, ao mesmo tempo que se reforça a nossa vida comunitária, possamos dar a Deus, sempre mais, toda a glória.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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