6 de Setembro de 2009 - Domingo XXIII do Tempo Comum

Um leitor apaixonado da Bíblia

Como este homem de que fala hoje o Evangelho e que Jesus curou, também nós somos surdos que passámos a ouvir, e mudos que aprendemos a falar.

Como se vê pelo relato de S. Marcos, Jesus revela uma atenção extrema a este homem, e ajuda-o a perceber que está a ser curado e salvo.

Precisamos de acreditar e saber que Deus está ao nosso lado nas dificuldades. A vida não tem só bons momentos, horas de alegria ou grandes vitórias. Ainda bem que existem muitas alegrias e momentos felizes! Mas a vida também tem dificuldades, lutas e desgostos, como bem sabemos.

O mundo sem Deus só funciona quando tudo corre bem. Quando alguma coisa corre mal, a única saída que tem é tentar disfarçar, se possível divertir-se, e esquecer.

O mundo sem Deus é arrogante, mas não tem nada para dizer quando sentimos a nossa fragilidade.

Mas Deus tem para nos dizer aquela palavra verdadeira, apropriada, certa e luminosa, que nos faz ver a beleza de todas as coisas boas, e que ilumina a escuridão, quando ela desce sobre nós.


Francisco de Goya, S. Gregório (c. 1797)

O profeta Isaías mandava os seus mensageiros dizer ao povo de Deus, num momento difícil: "Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos".

"Aí está o vosso Deus", aí está o teu Deus: está aí, ao teu lado. Já não estás só. Não é um espectador distante, está contigo, está por dentro, está mais por dentro que tu mesmo nas tuas dores ou nas tuas lutas, ou nas tuas alegrias.

Este texto de Isaías tem imagens muito belas e uma mensagem muito forte: "O coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água".

Também a 2ª leitura, da Carta de S. Tiago, transmite uma advertência sempre actual: não devemos classificar as pessoas segundo a sua aparência exterior, porque a qualidade de uma pessoa deriva da sua união com Deus. Quanto mais alguém é humilde e necessitado, mais atenção nos deve merecer.

Muita gente precisava de ouvir estas mensagens da Palavra de Deus. Mas talvez os seus ouvidos ainda estejam fechados. Mas será que não somos nós que esta mos ainda um pouco mudos, e não sabemos falar, não sabemos contaro que Deus faz, quando entra na nossa vida?

Verificamos no mundo de hoje que têm muito impacto sobre muita gente palavras sem sentido, ou puramente sensuais, ou violentas, ou que apelam ao absurdo e à falta de esperança.

Por vezes as pessoas que as dizem ou que as cantam, como o conhecido «rei da pop" recentemente falecido, vêm a terminar os seus dias de uma forma trágica, como já aconteceu há alguns anos, a um grande ídolo da música rock, o que nos faz pensar se uma coisa não leva necessariamente à outra.

Em muitos ambientes, devido a outras vozes que soam mais forte, há uma forte pressão para não se ouvir a Palavra de Deus. É uma surdez quase total.

Que poderemos fazer? O primeiro passo terá que ser este: começarmos por ser, nós próprios, melhores ouvintes, etambém, necessariamente, melhores leitores.

Deveríamos ter mais familiaridade com a Sagrada Escritura, mergulhar mais à vontade nesse «Oceano de mistério" que são o Antigo e o Novo Testamento.

Muitas pessoas têm pouco à vontade para mergulhar nesse oceano, o que é compreensível, porque alguns textos não são fáceis, e nem sempre se consegue captar imediatamente qual é a mensagem contida num determinado texto.

No novo ano pastoral, gostaria de retomar o Curso Bíblico, e ler convosco alguns textos «difíceis», a começar pelo Génesis.

Na passada 5ª feira, dia 3 de Setembro, celebrámos a memória de S. Gregório Magno, (que foi eleito Papa, precisamente nesse dia, em 580 e faleceu em 604). Foi uma figura verdadeiramente extraordinária, e dedicou-se, entre muitos outros aspectos da sua missão, a comentar diversos livros da Sagrada Escritura.

Numa das catequeses que consagrou, em 2008, a S. Gregório Magno, o Santo Padre Bento XVI apresentou-o como "um leitor apaixonado da Bíblia".

Mas S. Gregório Magno não lia a Bíblia como um romance ou um livro de história. Ele mesmo ensina, nota Bento XVI, que, "da Sagrada Escritura, o cristão deve tirar não tanto conhecimentos teóricos, quanto, e sobretudo, o alimento quotidiano para a sua alma, para a sua vida de homem neste mundo"

Por outro lado, quando lemos a Bíblia, é evidente que queremos compreender o que lemos. Mas, nota ainda Bento XVI, "quando se trata da Palavra de Deus, compreender nada significa, se a compreensão não levar à acção".

Qual é então a acção concreta a que nos convidam as leituras de hoje?

Para além das resoluções pessoais de cada um, peçamos que as leituras que ouvimos nos conduzam a desejar receber ainda com mais amor o Pão Vivo, o próprio Jesus Cristo, na Eucaristia, e nos tornem mais atentos àqueles com Quem somos chamados a partilhar os bens materiais e os tesouros da fé.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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