13 de Setembro de 2009 - Domingo XXIV do Tempo Comum

O caminho da fé

Percebe-se pelo Evangelho de hoje que havia muitas pessoas que tinham admiração por Jesus, e O consideravam já como um grande profeta.

Esta admiração era positiva, mas era apenas um primeiro passo. Seriam essas pessoas capazes de dar o passo seguinte, que as levaria a conhecer Jesus como Ele é?

Não sabemos. Mas a verdade é que, no mundo inteiro, este passo continua hoje a ser dado por muitas pessoas, que começam por se interessar por Jesus, por admirar a força das suas palavras, a sua coerência, a sua coragem.

E um dia, tocadas pela graça de Deus dão esse novo passo, a que se chama fé: já não têm só uma boa opinião sobre Jesus, já não acham só que as suas palavras e as suas atitudes fazem sentido, mas é o próprio Jesus que as ilumina e passa a dar sentido a toda a sua vida.

Peço a Deus que todos tenham a coragem de dar esse passo, e não fiquem só nessa opinião simpática, nessa vaga admiração. É evidente que já é bom ter uma boa opinião sobre Jesus! É melhor ter uma boa opinião do que um juízo distorcido ou falso.


El Greco, S. Pedro (1610-13)

Mas uma boa opinião não chega, e naquele dia, em Cesareia de Filipe, numa zona muito bela, perto das nascentes do Jordão, os discípulos foram convidados a ir mais longe, e a dar esse passo decisivo, que os faria conhecer o segredo mais íntimo de Jesus e os levaria a entregar-Lhe toda a sua vida.

Depois de ouvir o resumo das opiniões mais comuns à sua volta, Jesus pergunta-lhes frontalmente: "«E vós, quem dizeis que Eu sou? Nessa altura, "Pedro tomou a palavra e respondeu: "«Tu és o Messias»".

S. Pedro, com a firmeza humilde da verdade, reconhece que Jesus é Aquele que o seu povo esperava. Tantas gerações tinham passado ê espera do Messias! E o Messias tão longamente desejado era Jesus, Ele era o Cristo, o Ungido de Deus, o Salvador do Povo.

Mas depois acontece uma coisa surpreendente: Jesus "ordenou-lhes severamente que não falassem d'Ele a ninguém". Porquê esta imposição de silêncio, depois do verdadeiro acto defé de S. Pedro?

Porque ainda lhes falta saber o mais importante. Pedro e os outros discípulos precisam ainda de saber de que modo é que o Ungido de Deus vai salvar o seu povo e todos os homens.

Vai tentar derrubar os romanos, como alguns esperavam? Vai desencadear uma revolução?

Mas Jesus dissipa essa incerteza, e mostra-lhes que não salvará os homens pela revolução nem pela violência. Porque o pior mal que afecta a humanidade não é a opressão política, é a negação de Deus e a falta de amor. E por isso, o Messias só nos salvará pela fidelidade ao Pai e pelo amor levado até ao fim.

Naquele momento, Jesus revela-lhes até onde o amor O levará. Jesus sabe que O espera a incompreensão, a rejeição e a morte. E "dizia-lhes claramente estas coisas", observa S. Marcos. E, apesar disso, não mostra nenhuma intenção de se desviar do seu caminho. Sabe o que o espera, e não fugirá.

Jesus é o Servo de Deus anunciado por Isaías, que não resistiu, não recuou um passo, como ouvimos na la leitura. Assim fez Jesus: na hora da Paixão, não Se esquivou nem Se defendeu pela violência, mas, como diz um texto litúrgico, "estendeu os braços e morreu na cruz".

No entanto, quando S. Pedro percebeu o alcance das palavras de Jesus, manifestou-Lhe com toda a amizade que não achava bem, que não podia ser! Como é que o Messias pOderia sofrer daquela forma? Mas Jesus não podia aceitar ser desviado, nem por Pedro nem por ninguém, e "repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás, porque não compreendes as coisas de Deus, mas as dos homens»".

Esse era o seu caminho, ninguém O poderia afastar, mas também aqui Jesus não queria caminhar sozinho. Por isso, rodeado pelos discípulos, chamou a multidão e convidou cada um a tomar a sua cruz e a segui-Lo.

E para que todos percebessem o que isso queria dizer, explicou: "«Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a vida por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á»".

Mas o que é perder a vida por causa de Jesus? É não viver em função de si mesmo e não querer ser o centro do mundo. É ser fiel, custe o que custar: fiel a Deus, fiel aos compromissos, fiel ao amor, fiel à vocação.

É esquecer-se de si muitas vezes para que os outros sejam mais felizes. Nessas alturas, pode parecer que nos perdemos, mas não: encontramo­nos. Pelo contrário, quando alguém só se busca sóa si mesmo, ao seu prazer, ao seu interesse egoísta. é então que facilmente se perde e fica só.

Esta é a grande escolha a que não podemos fugir nos dias de hoje. Como vamos viver? «Guardando« a vida, ou aceitando perdê-la, isto é, dá-la, como Jesus?

Também a nós Jesus nos diz hoje: "«E vós, quem dizeis que Eu sou?»" E nós respondemos: "«Tu és o Messias»". Mas não basta responder com os lábios. É preciso responder com a vida, abraçando a cruz, entregando-nos, como Jesus.

S. Tiago, na 2ª leitura, fala das obras da fé. Mas a primeira das obras da fé é esta orientação de fundo de toda a nossa vida. Daqui vem tudo o mais: a caridade, a amizade, a partilha, a atenção aos outros.

Seguir Jesus e viver como Ele, não é só para alguns, é para todos, não é só para o pequeno grupo, é para a multidão. Peçamos por intercessão de Maria que aumente no mundo o olhar de admiração por Jesus, e que este olhar que dê lugar à fé e ao desejo de O imitar e de viver como Ele.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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