27 de Setembro de 2009 - Domingo XXVI do Tempo Comum

Ensinar a crescer no amor

No Evangelho, Jesus ensina com grande severidade que não há nada mais grave do que fazer cair um ser indefeso e frágil: " «Se alguém escandalizar algum destes pequeninos que crêem em Mim, melhor seria para eles que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós movidas por um jumento e o lançassem ao mar» ".

Que significa «escândalo» ou «escandalizar»? A palavra «escândalo», na linguagem bíblica, designa um obstáculo que faz cair, algo que leva a pecar.

E os "«pequeninos»" de que fala Jesus, quem são? Há passos do Evangelho em que esta palavra se refere aos discípulos; mas aqui não deve ser o caso, uma vez que Jesus está agora a falar directamente com eles.


Papa Bento XVI abençoa criança na Pç S.Pedro (Março de 2006)

Tudo indica que os "«pequeninos»" serão mesmo os «pequenos mais pequenos», isto é, os mais frágeis e indefesos, os menores de idade, numa palavra, as crianças.

A especial gravidade que há em escandalizar as crianças, não provém apenas da sua inocência, que evidentemente deve ser respeitada, mas sobretudo de elas serem mais vulneráveis e mais indefesas contra o mal.

Estas palavras de Jesus são de uma extrema seriedade e de grande actualidade. Todos temos o dever dedefender as crianças, sobretudo as que estiverem mais em risco, de quem lhes possa quererfazer mal.

Trata-se de as defender, em primeiro lugar, de todo o tipo de violência, de todas as formas de exploração e de toda a espécie de abusos.

Mas hoje muitas crianças sâo vítimas de um outro grande mal: a fragilidade das próprias famílias. Bento XVI, num discurso muito recente a um grupo de bispos do Brasil, fez um retrato extremamente lúcido desta situação no mundo ocidental (que pode ser lido na pág. 2 desta Folha Paroquial).

A situação é esta: como se faz depender tudo apenas dos sentimentos, como já não se tem a noção de que "a família tem o seu fundamento no matrimónio e no plano de Deus", muita gente já não se quer comprometer, e por isso "crescem as uniões de facto e aumentam os divórcios".

Mas o resultado é que "sobre esta fragilidade, consuma-se o drama de tantas crianças privadas de apoio dos pais, vítimas do mal-estar e do abandono, e expande-se a desordem social", que é especialmente nítida em certas zonas do mundo.

Existe uma solução? Sim, a solução - diz Bento XVI- "estará num regresso à solidez da família cristã, lugar de confiança mútua, de dom recíproco, de respeito da liberdade e de educação para a vida social".

Esta é uma das grandes prioridades, se não mesmo a primeira prioridade, da acção pastoral da Igreja no mundo inteiro.

A ela teremos de voltar muitas vezes nos próximos tempos. E teremos também de reflectir seriamente sobre outras questões concretas, que podem influenciar intensamente - a meu ver de modo negativo - a formação dos mais novos, como é caso da obrigatoriedade da chamada educação sexual nas escolas.

Sobre este assunto pronunciaram-se também os Bispos de Portugal, e diversos movimentos de pais e famílias se têm pronunciado com grande clareza, merecendo o nosso reconhecimento e o nosso apoio.

Num outro plano, será preciso ainda defender as crianças de uma visão materialista e egoísta da vida. É preciso ensiná-las a crescer no amor e na amizade, é preciso ensiná-Ias desde muito cedo a ser generosas, a saber partilhar com os que têm menos. E não podemos deixar que lhes roubem o amor de Deus e a fé. O coração das crianças está preparado para conhecer Jesus e para O amar. Que ninguém ceda à tentação de roubar do coração das crianças a semente da fé.

Mas o Evangelho de hoje transmite-nos ainda uma mensagem, que é uma contestação do relativismo e da indiferença em relação ao essencial.

Jesus, com palavras muito fortes, diz-nos que devemos estar dispostos a tudo, para não perdermos o amor de Deus e a sua graça: " «Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a... E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o...»"

Este cortar e deitar fora os membros do corpo tem de se entender, evidentemente, em sentido figurado, mas sem diminuir em nada a força das palavras de Jesus.

O que Jesus nos quer dizer é que temos a grave obrigação de evitar tudo aquilo que nos possa levar a pecar, porque a união com Deus neste mundo e a salvação eterna a que somos chamados é superior a todos os bens materiais, mesmo os mais necessários ou mais apreciados.

Que Jesus nos dê a consciência deste bem precioso, e a graça de o defender e de o fazer crescer ao longo de toda a nossa vida.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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