4 de Outubro de 2009 - Domingo XXVII do Tempo Comum

Aprender com as crianças

Depois de ler o Evangelho de hoje, apetece-nos dizer: Como é bom Jesus! Começando pelo fim, impressiona-nos o seu carinho pelas crianças, que se aproximaram de Jesus "para que Ele lhes tocasse".

Os discípulos acharam que possivelmente Jesus não queria ser incomodado, e por isso, "afastavam-nas". Mas Jesus, "ao ver isto, indignou-Se, e disse-lhes: "Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis, dos que são como elas e o reino de Deus»".


Lucas Cranach, o jovem. Jesus abençoa as crianças (1540-41)

Jesus procedeu assim porque tinha muito amor pelas crianças, era muito sensível à sua inocência e à sua fragilidade, e achava, além disso, que os adultos podiam aprender muito com as crianças.

Podiam aprender com elas a serem mais humildes, a não se sentirem 'importantes', a não se julgarem 'poderosos'. Há muitas pessoas adultas que se consideram muito importantes, pensam que, por terem dinheiro ou um trabalho influente, dominam o mundo, e por isso, bastantes vezes, desprezam os outros ou fecham o seu coração a Deus.

Por isso, Jesus ensina que "«quem não acolher o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele»". Entrar no Reino de Deus é entrar na amizade e na intimidade de Deus, que é o nosso Criador, o nosso Pai, o nosso supremo bem, a nossa alegria perfeita, a nossa plena felicidade.

Que pena que tantos O desprezem! Poder entrar na intimidade de Deus é a maior graça que alguém pode receber. Mas é preciso ser humilde para viver em união com Deus e entrar na sua intimidade. A mensagem de Jesus é esta: as crianças são um modelo para os adultos, para que se tornem mais simples, e aceitem com humildade e gratidão todo o amor que Deus lhes tem.

Na parte central do Evangelho, vemos ainda o grande carinho que Jesus tem pelos esposos, homem e mulher, unidos um ao outro para a vida inteira.

Já a 1ª leitura, do segundo capítulo do Génesis, com uma linguagem de aparência ingénua mas muito profunda, ensinava que a mulher e o homem têm a mesma dignidade. Nos outros povos e culturas daquele tempo a mulher era quase sempre tratada como um objecto, como ainda hoje, infelizmente, acontece muitas vezes.

Mas Deus quis que o homem e a mulher tivessem inteligência, liberdade e vontade, que lhes permite darem-se totalmente um ao outro, com todo o seu ser, para sempre.

Esta doação é muito bela e abençoada, mas, ao longo da vida, o casal está sujeito a muitas provas e dificuldades, e às vezes o perigo é dizer que já não há nada a fazer, e que aquilo que disseram um dia, já não tem valor um tempo depois.

Mas Jesus, pelo muito amor que tem pelos casais, quis defendê-los deste perigo, dando-lhes a certeza de que não foram só os dois que se uniram, foi o próprio Deus que os uniu. E por isso, exorta-os com grande clareza: "«Não separe o homem o que Deus uniu»".

Jesus Cristo, através da sua Igreja, continua a pedir a todos os seus discípulos pessoas casadas, solteiras ou viúvas, bem como pessoas entregues a Deus ou consagradas ao seu serviço que acreditem no amor humano, e em particular no amor matrimonial, de que Deus é o autor e o fundamento. A vocação matrimonial, fiel e indissolúvel, é querida e abençoada por Deus.

Aqueles que foram chamados por outro caminho, em especial no sacerdócio ou na vida religiosa, têm por ela grande consideração, respeito e apreço, que tem de se reflectir no modo como falamos, como intervimos na sociedade ou como apoiamos um casal ou uma família em dificuldade.

E também os casais têm naturalmente grande apreço pelas vocações sacerdotais, pelas vocações religiosas e por outras vocações de entrega a Deus no meio do mundo. E estão abertos a que Deus chame no seio da sua família e entre os seus filhos.

A partir de hoje, convido a todos a rezar mais pelos sacerdotes e pelas vocações sacerdotais, no espírito do Ano Sacerdotal que estamos a viver.

Que pelo coração de todos nós passe o caudal do amor de Deus e da caridade de Jesus Cristo, que "experimentou a morte em proveito detodos", como dizia a 2ª leitura, da Epístola aos Hebreus.

Em Jesus, diz ainda o mesmo texto, "Deus quer conduzir muitos filhos para a sua glória".

Deixemo-nos conduzir, com a confiança das crianças, aceitando com alegria dar a vida, para um dia vermos Jesus na sua glória, Ele a Quem já hoje, pela fé, vemos "coroado de glória e de honra, por causa da morte que sofreu".

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

Arquivo