11 de Outubro de 2009 - Domingo XXVIII do Tempo Comum

Reaprender Deus

A 1ª leitura de hoje fala-nos de um homem, que, na sua oração, teria podido pedir a Deus muitas coisas, mas optou por pedir a Deus uma única coisa.

O texto identifica este homem com o rei Salomão. E o seu pedido foi um só: a sabedoria que vem de Deus. Achou que a sabedoria valia mais do que as riquezas, mais do que o ouro, mais até do que a saúde. E o seu pedido foi escutado: "Orei e foi-me dada a prudência; implorei, e veio a mim o espírito de sabedoria".

A sabedoria que Salomão pediu, não consiste em saber muitas coisas, mas sim em captar o sentido de todas as coisas. Hoje, as coisas 'fazem - se', mas não se pensa muito sobre o sentido que as coisas têm.


H. Hofmann, Cristo e o jovem rico (1889)

A nossa sociedade é evoluída mas é um pouco irracional. Por que é que as drogas não desaparecem? Por que é que aumenta a delinquência juvenil? Porque se vive sem se conhecer o sentido da vida. A sabedoria desapareceu de muitas mentes. Só existe a ambição que muitas vezes leva à morte.

Que pode fazer a Igreja, que podem fazer os cristãos? Há dias, quando Bento XVI foi à República Checa, um jornalista fez-lhe uma pergunta muito interessante: Santo Padre, a República Checa é um país muito secularizado no qual a Igreja Católica é uma minoria. Em tal situação, como pode contribuir efectivamente a Igreja para o bem comum do país?

Na resposta, o Santo Padre apontou para as "minorias criativas", deixando um grande desafio para todos: "Diria que normalmente são as minorias criativas que determinam o futuro, e neste sentido a Igreja Católica deve compreender-se como minoria criativa que tem uma herança de valores que não são coisas do passado, mas uma realidade muito viva e actual. A Igreja deve actualizar-se, estar presente no debate público, na luta por um conceito verdadeiro de liberdade e de paz. Assim, pode contribuir para os diversos sectores".

E quais são esses sectores? Responde ainda Bento XVI: "Diria que o primeiro é precisamente o diálogo intelectual entre agnósticos e crentes. Uns precisam dos outros: o agnóstico não pode estar contente por não saber se Deus existe ou não, mas deve buscar e sentir a grande herança da fé; o católico não se pode satisfazer pelo facto de ter fé, mas deve procurar Deus ainda mais, e, no diálogo com os outros, reaprender Deus de modo mais profundo".

"Reaprender Deus": com a sabedoria que Salomão pediu, perceberemos que Deus é vital para nós. A amizade de Deus, o conhecimento de Jesus Cristo, a comunhão com os outros na Igreja é a riqueza mais preciosa que algum dia poderíamos possuir. Não a trocamos por nada.

No Evangelho, vemos que, um dia, Jesus chamou um homem a segui-Lo, a abandonar todas as seguranças, a confiar inteiramente n'Ele, para a sua vida ter pleno sentido, para "alcançar a vida eterna". Este homem, porém, era muito rico, e não se quis desprender dos seus bens, e por isso voltou costas, e foi­se embora, muito triste.

Apesar desta resposta negativa, Jesus não desiste de chamar. Todos os cristãos são chamados a seguir Jesus, partilhando com generosidade os seus bens e o seu tempo. Mas, além disso, é necessário que haja alguns cristãos dedicados ao serviço do Evangelho, em especial na missão do sacerdócio.

O seu trabalho não será matar a fome ou curar as doenças, embora, se for necessário, os sacerdotes também o façam, mas sobretudo transmitir a "sabedoria", isto é, revelar o sentido da vida à luz da Palavra de Deus, essa Palavra viva e eficaz de que nos falava a 2ª leitura.

Continua a existir no coração das pessoas de hoje essa necessidade de uma Palavra que ilumina. Como disse também Bento XVI noutra ocasião, no íntimo de muitas pessoas continua a existir "a expectativa de Deus; a expectativa de uma directiva que seja luz, que mostre o caminho. A expectativa de uma palavra que seja mais que uma simples palavra humana. A esperança, a expectativa do amor que, para além do instante presente, eternamente nos apoia e acolhe".

Todas as pessoas precisam de quem lhes revele o segredo da vida, que é a amizade com Deus, de quem lhes fale de Jesus Cristo, de quem lhes dê o seu perdão e o Pão da Eucaristia, de quem os reuna na unidade de uma família sobrenatural, que é a Igreja. Os sacerdotes são necessários para que as comunidades se fortaleçam, e todos descubram o olhar de Jesus, que chama a cada um pelo seu nome.

A partir de hoje, temos de rezar mais para que os convites de Jesus não fiquem sem resposta, como aconteceu naquele dia. Que haja mais entusiasmo em seguir Jesus, mesmo deixando muitas coisas, para ficarmos só com o que é importante.

E que haja na Igreja mais sacerdotes, anunciadores do Evangelho e ministros da graça de Cristo, para que todos descubram a sabedoria de Deus que dá sentido à nossa vida e a torna bela e feliz, mesmo na dor, porque nos revela o amor, que é o fundamento de todas as coisas, e a verdade, que o nosso coração deseja e só consegue encontrar no rosto de Jesus Cristo e na luz do seu o1har.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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