18 de Outubro de 2009 - Domingo XXIX do Tempo Comum

Voltados para o Senhor

Quando conhecemos Jesus, queremos conhecê-Lo sempre melhor, e assim aconteceu desde o princípio. Depois dos Evangelhos, apareceram outros textos que nos ajudam a aprofundar o conhecimento do mistério de Cristo.

É o caso da Carta aos Hebreus, que já estamos a ler há alguma semanas, e que no texto de hoje apresenta Jesus como "um grande sumo­sacerdote".


A Última Ceia, mosaico da Igreja de Santo Apolinário Novo, Ravena (séc. V)

É uma expressão que só aparece nesta passagem, e que significa que Jesus é muito superior a todos os sacerdotes do Antigo Testamento, incluindo o próprio sumo-sacerdote.

Só Jesus, e mais ninguém, merece este título. Ele é o verdadeiro e perfeito sacerdote, porque ofereceu a Deus o sacrifício perfeito e imaculado, o dom precioso e infinitamente valioso da sua própria vida. Mas, além disso, Jesus é diferente, porque está dentro dos nossos dramas, conhece as nossas dificuldades.

Os sacerdotes do Antigo Testamento viviam um pouco à margem da vida das outras pessoas, eram apenas sacerdotes para Deus (Êxodo 28, 1). O Levítico proibia até o sumo-sacerdote de manifestar sinais de luto por qualquer familiar falecido, mesmo pelo pai ou pela mãe (21,11).

Mas Jesus, diz a Carta aos Hebreus, é completamente diferente. Ele não é "incapaz de se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado".

Jesus experimentou os sofrimentos que nos afectam, embora estivesse totalmente livre do pecado. Esta perfeita experiência, por parte de Jesus, das nossas provas e fraquezas, é extremamente consoladora. Uma vez que conhece tão bem as nossas fraquezas, pode dar-nos a ajuda de que precisamos, E quando vier para nos julgar, terá em conta as nossas fraquezas.

E como podemos nós responder a esta perfeita solidariedade de Jesus? Acima de tudo, permanecendo "firmes na profissão da fé". Esta profissão ou confissão de fé, consiste, na sua expressão mais simples e mais directa, em dizer: "Jesus é Senhor" (Romanos lO, 9; 1 Coríntios 12, 3).

É importante vencer o relativismo, que dissolve a novidade de Jesus e O equipara a outras figuras religiosas. Mas, recolhendo o ensinamento desta carta, poderíamos dizer que Jesus, "o grande sumo-sacerdote", não tem nada a ver com outros nomes, quaisquer que eles sejam. É o Filho de Deus e ao mesmo tempo totalmente próximo. Nunca conheceu o pecado, mas é totalmente solidário connosco e sabe-se compadecer das nossas fraquezas.

O relativismo só poderá fazer-nos mal, se a nossa fé for superficial e pouco contemplativa. Uma fé contemplativa fixa-nos no mistério de Cristo e ao mesmo tempo leva-nos à acção, ao serviço dos outros. Só para dar um exemplo, as Missionárias da Caridade, fundadas pela Beata Teresa de Calcutá, que atendem os mais pobres entre os pobres, têm diariamente várias horas de oração e adoração.

Nem todos poderemos dedicar um tempo idêntico à oração, mas, mesmo que seja menos, todos precisamos de ter diariamente algum tempo de oração, Precisamos de cultivar uma oração contemplativa, e também, mais do que nunca, de celebrar uma liturgia contemplativa.

Um dos fundadores, (juntamente com Frêre Roger), da Comunidade de Taizé, Max Thurian, que mais tarde se tornou católico e foi ordenado sacerdote, escreveu um dia que o problema fundamental da liturgia que se celebra actualmente, é que muitas vezes está privada do seu carácter de mistério.

Às vezes, toda a celebração "é conduzida como se fosse uma conversa e um diálogo, onde não há lugar para a adoração, a contemplação e o silêncio".

Mas a liturgla eucarística convida os sacerdotes celebrantes e os fiéis a voltar-se para altar do Senhor, numa atitude de adoração e contemplação. Tudo isto se deve tornar visível na forma da celebração.

Como escreve Max Thurian, "uma celebração cuidada, que tenha presente a proeminência do altar, a discrição do ministério do celebrante, a orientação de todos para o Senhor e a adoração da sua presença, significada nos símbolos e tornada real no sacramento, confere à liturgia aquela atmosfera contemplativa, sem a qual corre o risco de ser (...) uma vã agitação comunitária".

O que define a liturgia da Eucaristia é que, estando unidos pela mesma fé e também por muitos laços humanos e fraternos, o ponto focal do nosso olhar é Cristo, todos estamos "voltados para o Senhor".

É esta orientação, este olhar fixo no Senhor, sem que ninguém ocupe o seu lugar, sem que ninguém preencha o espaço que lhe pertence, que depois nos permitirá olhar os outros, e sermos, sinceramente, servidores de todos como o próprio Jesus.

É este mesmo olhar fixo no Senhor e contemplativo do seu mistério, que nos permitirá abraçar com entusiasmo todo o trabalho que é preciso fazer, para que este mundo se torne mais justo e ao mesmo tempo mais aberto à presença de Deus, fonte de esperança e de alegria.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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