6 de Dezembro de 2009 - Domingo II do Advento

Mudanças radicais

Na 1ª leitura lemos hoje um belo texto poético do Antigo Testamento, extraído do livro de Baruc, que foi um profeta colaborador de Jeremias e seu «secretário».

É o próprio Jeremias que conta que ele mesmo e Baruc foram arrastados à força por judeus rebeldes para o Egipto, quando estava iminente a destruição de Jerusalém pelos caldeus, que já dominavam a cidade desde 597 a. C.

Nessa altura, o Templo de Jerusalém foi parcialmente saqueado e uma grande parte da nobreza, os oficiais militares, os artífices, e até o próprio rei, Joaquim, foram levados para o exílio em Babilónia. Entretanto, Sedequias, tio do rei Joaquim, foi nomeado por Nabucodonosor como rei vassalo. Mas, 10 anos depois, em resultado de nova revolta de Judá, ocorreu a segunda deportação, em 587 a. C, e a consequente destruição de Jerusalém e o incêndio e a total destruição do Templo. Foi uma uma catástrofe nacional.


BRUEGEL o Velho, Pieter, A pregação de S. João Baptista (porm. )(1566)

Pouco tempo antes, Jeremias e Baruc foram integrados num grande grupo que, "desobedecendo à voz, do Senhor" (Jeremias 43,7), fugiu para o Egipto. Jeremias nunca mais voltou do Egipto, e ali morreu, mas Baruc terá regressado à Judeia, de onde pôde ir a Babilónia consolar os exilados.

O actual livro de Baruc parece ter sido redigido bastante mais tarde, talvez no séc. II a. C., mas conserva certamente fontes e episódios que se reportam ao exílio, e contém preciosas reflexões e uma bela mensagem de esperança.

Começa por uma oração em prosa poética (1, 1- 3, 8): a nação em peso reconhece ter merecido tantas desgraças e o próprio exílio, por causa dos pecados pessoais e dos seus antepassados. E pede misericórdia a Deus e o fim de tantos males.

Depois vem o elogio da sabedoria, em belo estilo poético (3, 9 - 4,4). A verdadeira glória e felicidade de Israel está na lei de Deus, que encerra a mais elevada sabedoria. Se Israel está no exílio, isso deve-se ao seu abandono da lei de Deus. É preciso voltar a Deus e à observância da sua lei.

Este ensinamento de Baruc fez-me lembrar uma das respostas que deu o Patriarca Ortodoxo de Moscovo, Kirill I, (que admite uma próxima viagem de Bento XVI à Rússia), numa entrevista recente.

A pergunta referia-se às terríveis provas que enfrenta a humanidade actual: desde a crise global até ao aumento do flagelo da fome. Face a isso, que é necessário fazer para unir as forças dos cristãos e afrontar estes problemas?

E na resposta o Patriarca Kirill contou que, quando era adolescente, perguntou ao seu pároco, numa igreja de Leninegrado, (actualmente São Petersburgo), por que é que as pessoas viviam tão mal.

E o pároco, (que era também o seu próprio pai), pareceu surpreendido de que ele não tivesse encontrado sozinho a resposta, e por sua vez respondeu com uma pergunta: «Como é que, na tua opinião, poderiam viver de outra maneira pessoas que rejeitaram Deus ou O apagaram do seu coração?»

E depois o Patriarca Kirill continua, afirmando com grande lucidez que a causa mais profunda dos males de hoje é de natureza espiritual:

«É minha convicção que todos os males, as crises aparentemente sem solução do mundo, têm como causa profunda a degeneração da natureza espiritual da humanidade. E não só: estas desgraças que afligem os homens estão destinadas a agravar-se à medida que eles se afastem da verdade constituída por Deus. E os remédios paliativos de tipo económico, político, social, não ajudarão o género humano a sair deste círculo vicioso» (Fonte: Papa Ratzinger Blog).

Voltando de novo a Baruc, há ainda uma terceira parte, que corresponde ao capítulo 5, que hoje lemos, onde o profeta convida o povo no exílio a abandonar as vestes de luto e aflição. Exorta-o a olhar para Oriente, onde nasce o sol, e ver os seus filhos, todos reunidos, "felizes por Deus seter lembrado deles".

E finalmente anuncia que Deus vai preparar um amplo caminho, desimpedido e seguro, para o regresso do povo à sua pátria: "Deus decidiu abater todos os altos montes e as colinas seculares e encher os vales, para se aplanar a terra, a fim de que Israel possa caminhar em segurança, na glória de Deus". É uma mensagem portadora de grande esperança e profunda consolação.

Um anúncio semelhante foi feito por Isaías (40, 3-4), que é citado por João Baptista, na sua primeira pregação, como relata S. Lucas, no Evangelho de hoje: «Uma voz clama no deserto: 'Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas; e toda a criatura verá a salvação de Deus'".

Mas aqui, diferentemente de Baruc, há uma maior insistência na responsabilidade e. na actuação dos seres humanos. Somos nós que temos de endireitar "os caminhos tortuosos", e aplanar "as veredas escarpadas".

Na verdade, estamos diante de uma referência poética ou metafórica àquelas mudanças radicais que tem de haver no estilo de vida das pessoas. Esse era, com certeza, o objectivo de João Baptista: para receber o Messias, tem de haver uma profunda mudança no coração dos homens e na sua forma de vida.

Sejamos nós, cristãos, os primeiros a levar a sério a exortação de João Baptista e a ter a coragem da mudança, naquilo que em nós for preciso mudar para receber o Senhor no próximo Natal. Quer sejam mudanças radicais ou apenas mudanças em pequenas coisas, não deixemos de as fazer, movidos por um sincero desejo de conversão, porque, ao mesmo tempo, o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo, abre um caminho amplo para vir Ele próprio ao nosso encontro, com a infinita grandeza e a força do seu amor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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