13 de Dezembro de 2009 - Domingo III do Advento

A alegria não aparece de repente

A 1ª leitura de hoje é um convite à alegria. Numa mensagem poética, o profeta Sofonias diz ao seu povo: "Clama jubilosamente, filha de Sião; solta brados de alegria, Israel. Exulta, rejubila de todo o coração, filha de Jerusalém".

É um convite muito belo e caloroso, mas é bom notar que, na pregação de Sofonias, este convite não aparece de repente, nem a alegria aparece de repente: é um dom de Deus, e ao mesmo tempo é fruto da conversão dos homens.

Para compreendermos melhor esta mensagem, vamos situar o profeta Sofonias no seu tempo. No trono de Judá estava um rei chamado Josias, que é dos poucos reis de quem a Bíblia diz que fez o que agradava ao Senhor (2 Reis 22, 1). Reinou 31 anos, até 609 a. C, e sucedeu a um rei muito mau e ímpio, que foi seu avô, chamado Manassés, que espalhou o culto dos falsos deuses por todo o território.

Josias promoveu uma profunda reforma religiosa. Foi durante o seu reinado que se descobriu no Templo de Jerusalém, já esquecido, o "Livro da Lei, também chamado "Livro da Aliança". Um dia foi solenemente lido diante de todos, e "todo o povo aderiu à Aliança" (2 Reis 23, 1-3). Esta alegre redescoberta da Lei deve ter acontecido no ano 621 a. C., e constituiu uma grande viragem espiritual.

Mas a pregação de Sofonias já tinha começado alguns anos antes, talvez mesmo antes de Jeremias, que iniciou a sua missão em 625 a. C.


Clement Pierre Marillier, Sofonias prega diante de Josias (1789-1804)

Olhando para o povo, Sofonias vê com toda a clareza que este terá de ser profundamente purificado, sobretudo pela sua idolatria, e também pelo seu materialismo e ambição desmedida, e ainda pela sua indiferença religiosa, pelo seu desprezo de Deus (cf. Sofonias 1, 2). Sofonias vai então anunciar em tom severo o grande "dia do Senhor", em que seria feita justiça de todos os pecados dos homens.

Ao mesmo tempo, olhando para o exterior, para os outros povos, percebe que a arrogância de alguns, em especial da Assíria, sempre ameaçadora, não vai durar muito, e o seu fim está próximo, como de facto não demorou muito a acontecer. Em 612 a. C., após um cerco combinado de vários povos, a capital da Assíria, Nínive, caiu com surpreendente rapidez, e foi destruída.

Quanto ao seu próprio povo, Sofonias acredita que vai surgir um núcleo fiel, que confiará totalmente em Deus (Sofonias 3, 12).

Um sinal claro dessa mudança é este: "O resto de Israel não cometerá mais a iniquidade, nem proferirá mentiras, nem se achará mais em sua boca uma língua enganadora" (3,13). São sinais inequívocos de uma renovação moral profunda. Se ela acontecer, vai surgir finalmente uma nação renovada e santificada.

E é então que surge o convite à alegria, na passagem que hoje lemos (3, 14-18). Aalegria é possível, porque Deus está com oseu povo. Diz o profeta: "O Senhor teu Deus está no meio de ti, como poderoso salvador. Por causa de ti, Ele enche-Se de júbilo, renova-te com o seu amor".

É esta a fonte e o fundamento da alegria, que desejamos para nós e para todos: a presença de Deus que, vindo ao nosso encontro, habitando no meio de nós, nos renova com o seu amor.

É esta renovação que o Natal nos poderá trazer: se o vivermos em toda a sua verdade, se nos deixarmos renovar, teremos alegria; se nos mantivermos como dantes, a alegria só poderá ser passageira, se não mesmo totalmente ilusória.

No Evangelho, vemos que vários grupos de pessoas, que tinham ouvido a pregação de João Baptista, lhe perguntam: "Que devemos fazer?" Ficamos impressionados pela sinceridade e pela coragem que esta pergunta revela. Mas é importante perceber que esta pergunta não nasceu de repente no espírito daqueles homens, a maior parte deles habituados a uma vida de dureza e violência.

O que os levou a fazer esta pergunta, foi terem ouvido João anunciar a vinda do Messias. Foi isso que os levou a querer mudar.

João não anunciou uma ideia, anunciou uma presença: "Está a chegar...". E as multidões perceberam que era preciso abandonar o egoísmo e a violência, para receber Aquele que estava a chegar, e que trazia consigo uma nova forma de ser, uma nova forma de viver.

Aquele que João anunciava, ainda sem O conhecer, era Jesus, e, ao contrário do que João pensava, Jesus não trouxe o fogo, mas a misericórdia.

Mas esta profunda alteração no modo de ser do Messias, não representa para os homens uma menor exigência de conversão, pelo contrário, torna-a ainda mais urgente. Se o Messias é misericordioso, e não me impõe pela força a sua lei, tenho de ser eu a aceitá-la, tenho de ser eu abrirocoração!

Com Jesus vem também o dom da alegria, que o nosso coração convertido é capaz de acolher. É a alegria que nos vem, como dizia o profeta Sofonias, de estar no meio de nós o próprio Deus!

Preparemo-nos nos próximos dias, com mais oração, com a Confissão sacramental, e também com a partilha generosa, para acolher a alegria que acompanha o santo nascimento de Jesus. E, com a simplicidade do nosso testemunho, levemo-la também aos outros, mesmo aos que ainda não conhecem Jesus, porque foi também para eles que, no seu Natal, o Filho de Deus nasceu e veio ao mundo.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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