03 de Janeiro de 2010 - Epifania do Senhor

Um convite para todos

O Evangelho de hoje não é só uma história muito bonita, com o inesquecível relato da vinda dos Magos ou Sábios do Oriente para adorar Jesus recém-nascido em Belém.

É também um convite a todos os homens para que venham ao encontro de Jesus: não importa o ponto de partida, podem vir de onde quiserem; a única coisa que interessa é que O encontrem, que O conheçam e O amem, e lhe entreguem com fé toda a sua vida.

S. Mateus diz-nos que os Magos, logo que chegaram a Belém, "entraram na casa, viram o Menino, com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d'Ele, adoraram-No". Que profundo sentimento os moveu a este gesto tão extraordinário?

Terá sido a emoção e a alegria que todos sentimos diante de um bebé ou de uma criança pequenina? Sim, a beleza, a inocência e a fragilidade das crianças encanta toda a gente! Uma criança recém-nascida é um imenso potencial de esperança: tem um caminho à sua frente que nunca ninguém percorreu!


Giotto, A adoração dos Magos (1304-06)

Mas, em relação a Jesus, há ainda outro motivo, de natureza sobrenatural, que só a fé descobre. Diante de Jesus recém-nascido, ou mais tarde, durante a sua vida pública, o olhar da fé descobre um segredo escondido. Quando alguém o descobre, fica fascinado.

A atitude dos Magos do Oriente simboliza precisamente este fascínio que, na luz da fé, todos nós sentimos diante de Jesus, Filho de Deus, nascido em Belém, da Virgem Santa Maria.

E a causa deste fascínio é esta: Jesus traz em Si a grandeza e a fragilidade de ser homem, com todas as suas potencialidades e limitações, e ao mesmo tempoa perfeição infinita e ilimitada de ser Deus.

A sua natureza humana é como a nossa, com o seu enorme potencial, com as suas imensas capacidades, e ao mesmo tempo frágil, mortal, limitada, circunscrita a um tempo e a um espaço.

Em nós, além disso, esta natureza está inclinada para o mal, está sujeita, infelizmente, ao erro e ao pecado.

Mas a natureza divina de Jesus, que possui em comum com o Pai e o Espírito Santo, é imortal, eterna, infinitamente perfeita, infinitamente sábia e poderosa, envolve todos os tempos e abraça todos os homens.

E Jesus não é a soma ou a fusão destas duas naturezas, não é em parte Deus e em parte homem, não é o resultado da mistura confusa entre o divino e o humano (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 464).

Jesus Cristo é uma única pessoa, o Filho de Deus, que une em Si as duas naturezas, humana e divina, "sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação", como disse, no ano 451, com grande rigor, o Concilio de Calcedónia, que foi o IV Concilio Ecuménico da Igreja.

Jesus, Filho de Deus, aceitou sujeitar-se às nossas limitações e fragilidades humanas, mas não renunciou a ser Deus eterno e imortal.

Jesus não deixa de ser o Filho de Deus, mesmo quando está na manjedoura do presépio de Belém, ou na casa onde a Sagrada Familia se abrigou alguns dias depois, ou ainda no Santíssimo Sacramento da Eucaristia com que nos alimenta e fortalece, e por isso pode ser adorado pelos pastores de Belém, pelos Magos do Oriente e por todos os povos da Terra.

Jesus é Deus mesmo na morte, por isso, morre como um homem, mas retoma a vida pelo seu poder divino, pelo seu próprio e exclusivo direito pessoal, que lhe foi comunicado pelo Pai.

O Filho de Deus assumiu plenamente a nossa condição humana, sujeitou-Se à fome, ao frio, à pobreza, à traição e à morte, mas a existência de Jesus "enquanto pessoa divina é indestrutível".

Como é que cada um de nós experimenta em seu favor este "carácter único" de Jesus Cristo? De muitos modos, mas, em todos eles, é uma «experiência» que tem de ser feita por cada um de nós.

É natural que, como crentes, possamos encontrar por vezes interrogações e dificuldades. Mas, ao mesmo tempo, podemos experimentar também um gradual aprofundamento e um sensível crescimento da nossa intimidade com Deus e da nossa união a Jesus.

A fé é uma «experiência» ou vivência que está a acontecer. Não é uma teoria distante, nem um saber antigo, quase esquecido: o meu encontro com Jesus está a acontecer neste momento, é uma experiência viva, que me ilumina e interpela em cada momento da vida.

E podemos terminar com algumas perguntas: A minha fé tem crescido ao longo dos anos, e hoje é mais intensa do que era há um ano? Se não, porquê?

Entrego a Jesus as minhas fragilidades, para que Ele as transforme com o poder da sua divindade? Ofereço-Lhe também em cada manhã todas as obras do dia? Procuro fazer todos os dias um tempo de oração?

Visito Jesus no sacrário, onde O posso adorar, como os Sábios do Oriente? Confesso-me com frequência, deixo-me aperfeiçoar e purificar por Jesus, procuro o seu perdão e a reconciliação com a Igreja?

Descubro modos de provocar nos outros o interesse e o desejo de conhecer melhor Jesus e as verdades da fé?

Que a Santa Mãe de Jesus, a Virgem Maria, que viu com surpresa a chegada dos Magos e se alegrou com o enorme fascínio que eles manifestavam por Jesus, conduza os passos de todos para junto do seu Filho, e obtenha para todos os homens de hoje, pela sua intercessão, a graça da fé, da esperança e da verdadeira caridade.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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