31 de Janeiro de 2010 - Domingo IV do Tempo Comum

Se não tiver caridade...

No Evangelho de hoje, vemos que os habitantes de Nazaré reagiram mal às palavras de Jesus.

Pouco tempo antes, parecia que tinham gostado muito de O ouvir. A certa altura, porém, os seus sentimentos mudaram. Primeiro, ficaram com inveja dos milagres que Jesus já tinha feito numa outra cidade. E depois, sentiram-se chocados e até enfurecidos, quando Jesus lhes disse que a sua vida era falsa, não dava frutos.

Jesus falou-lhes com grande firmeza, mas não foi para os condenar, mas sim para os corrigir, para os ajudar a melhorar.

No entanto, como já O conheciam desde criança, não reconheceram autoridade a Jesus. Não perceberam que Jesus era diferente, e que essa diferença vinha de Deus.


Anónimo ilustrador das «Evangelicae Historiae Imagines» de Jerome Nadal, Jesus é expulso da sinagoga de Nazaré (1593)

É verdade que estes homens não sabiam ainda, nem podiam saber, que Jesus era o Filho de Deus. Mas, pelo menos, podiam ter sido sensíveis à força das palavras de Jesus, podiam ter sido tocados pela sua bondade e serenidade, podiam ter sido humildes, e reconhecer que Jesus, evidentemente, tinha razão.

Em vez disso, porém, foram obstinados, soberbos e arrogantes, e mais ainda violentos, a ponto de levarem Jesus "até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo".

Mas Jesus, com a sua simplicidade irresistível e o seu poder divino, como refere S. Lucas, "passando pelo meio deles, seguiu o Seu caminho". Jesus passou pela sua vida, e não O receberam. A vida daqueles homens continuou estéril, triste e injusta, como antes.

Como é que nos situamos diante de Jesus? Quem é Jesus para nós? É importante colocar esta questão, porque dela depende que a nossa vida mude, ou fique na mesma. Reconhecemos autoridade a Jesus para intervir na nossa vida?

Pela graça da fé, acreditamos e sabemos que Jesus não é apenas mais um, entre tantos homens que fizeram ou disseram coisas extraordinárias. Os profetas da Antiga Aliança, como Jeremias, de quem falava a 1ª leitura, foram objecto de uma escolha especial, e dirigiram-se aos homens em nome de Deus, apesar da sua fragilidade e imperfeição pessoal.

Mas Jesus é único! Jesus traz em Si todo o mistério de Deus e toda a experiência do homem. Por ser Deus como o Pai e homem como nós, Jesus tem "autoridade" para nos corrigir, para nos emendar, para nos converter, e tem poder para renovar radicalmente a nossa vida.

Mas esta vida nova só existirá verdadeiramente, se em nós houver a caridade, como ensina S. Paulo, na 1ª Carta aos Coríntios. É costume definir a caridade como o amor gratuito, que busca o bem do outro. A caridade é "amor do próximo, radicado no amor de Deus": esta é uma bela definição da caridade, apresentada por Bento XVI (Deus Caritas est, n. 19).

S. Paulo, porém, não procura definir a caridade, mas, através de 15 verbos, ilustra os seus efeitos, que se traduzem em outras tantas virtudes, que os Coríntios provavelmente desprezavam:

A caridade "é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva [isto é, não se vangloria] nem é orgulhosa [isto é, não se ensoberbece]; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta".S. Paulo conhecia com certeza cristãos em Corinto que eram fortes, mas não eram "pacientes" nem benignos"; ou que pareciam 'extraordinários', mas afinal tendiam a "buscar o seu próprio interesse".

Muitos alegravam-se com a injustiça, ou guardavam ressentimento, não suportavam a menor imperfeição. não perdoavam, desistiam dos outros.

Em face disso, S. Paulo vai ao ponto de dizer: "se não tiver caridade, nada sou". Posso ter muitos dons, muitos bens, muita ciência, ser muito competente em muitas matérias, mas, "se não tiver caridade, nada sou", "de nada me aproveita".

Finalmente, S. Paulo põe em antítese o presente ("agora"), e o futuro ("depois"): "Agora", sempre que nos falta a caridade, e também a fé e a esperança, "vemos como num espelho, de maneira confusa".

Mas, "depois", [isto é, então] quando vivermos de verdade estas três virtudes essenciais, "veremos face a face".

Esta expressão: "face a face" costuma referir-se ao Céu, à vida eterna, e de facto é no Céu que adquire o seu pleno sentido, mas aqui S. Paulo parece estar ainda a referir-se apenas ao plano deste mundo.

"Agora", sem caridade, "conheço de modo imperfeito". Mas "depois, conhecerei como sou conhecido". A caridade é que nos permite conhecer os outros, e nesse conhecimento autêntico dos outros encontramo-nos a nós mesmos.

A fé e a esperança não existirão no Céu, mas, juntamente com a caridade, são essenciais para a vida cristã.

E como sem elas a nossa vida humana seria sempre limitada e pobre, vamos agradecer a Deus estes supremos dons, que recebemos desde o nosso Baptismo, e pedir que, pela misericórdia de Deus, todos os homens e mulheres do mundo os possam receber, para conhecerem, esperarem e amarem de verdade.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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