7 de Fevereiro de 2010 - Domingo V do Tempo Comum

Deus Santo e os seus enviados

Na 1ª leitura de hoje, o profeta Isaías, no Templo, tem uma experiência extraordinária da transcendência de Deus.

Diante de Deus, que Isaías vê "sentado num trono alto e sublime", os Anjos - chamados "Serafins", palavra que indica o seu amor "ardente" - cantam: "«Santo, santo, santo é o Senhor do Universo. A sua glória enche toda a terra!»".

Também hoje, na Liturgia Eucarística, tanto católica como ortodoxa, no fim do Prefácio, existe um canto inspirado em Isaías, mas com uma diferença: ao passo que em Isaías os Serafins falam de Deus na terceira pessoa, nós dirigimo-nos a Deus, dizendo: "Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo, o Céu e a Terra estão cheios da Vossa glória".

E quando termina o canto do Sanctus (e do Benedictus, que o completa) começa o Cânon ou Oração Eucarística, proferida apenas pelo sacerdote, em que se invoca a bênção de Deus sobre a oferenda dos fiéis, e o pão e o vinho são consagrados no Corpo e Sangue de Cristo.


Escola Catalã, Um Serafim purifica os lábios de Isaías
(Fresco) (séc. XII)

O canto do Sanctus já nos prepara para a grandeza dos mistérios que vamos celebrar. Estamos na presença de Deus uno e trino: acompanhados pelos Anjos, e no altar vai ser renovado misticamente o sacrifício da Cruz.

É importante que possamos fazer a experiência da santidade de Deus, que nos envolve sempre e em toda a parte, mas que a experimentamos especialmente quando celebramos os santos mistérios na liturgia da Missa.

Isaías sentia-se pequeno e indigno, diante da santidade de Deus. A consciência da sua indignidade leva-o a exclamar: "Ai de mim, que estou perdido, porque sou um homem de lábios impuros..."

Mas houve um "Serafim" que o purificou, tocando-lhe os lábios, simbolicamente, com um carvão ardente, e tornando-o assim apto a vir a falar de Deus.

E foi então que Isaías escutou a voz do Senhor, que perguntava: "«Quem enviarei? Quem irá por nós?»". Nesse momento, Isaías venceu definitivamente o medo, e respondeu com grande confiança: "«Eis­me aqui: podeis enviar-me»".

Se passarmos agora para o Evangelho, encontramos um ambiente totalmente diferente, mas o final é muito semelhante.

Jesus, com muita gente à sua volta, tinha subido para um barco, à beira-mar, a, depois afastou-Se ligeiramente da margem, e daí foi ensinando toda aquelas pessoas, que provavelmente se devem ter sentado na areia da praia.

Quando terminou, Jesus achou que era tempo de os seus amigos irem pescar, apesar do insucesso da noite anterior. Por isso, deu a S. Pedro esta ordem: ""Faz-te ao largo, e lançai as redes para a pesca"".

S. Pedro começa por responder a Jesus: "«Mestre, andámos na faina toda a noite, e não apanhámos nada»" No entanto, acrescenta logo, com grande confiança em Jesus: "«Mas, já que o dizes, lançarei as redes»".

S. Pedro tinha razão em confiar: foi uma pesca verdadeiramente milagrosa. Esta pesca muito abundante simboliza a futura missão da Igreja, e foi para os discípulos um forte sinal do poder de Jesus, mas também levou S. Pedro a sentir-se indigno de estar na presença do Senhor.

Mas Jesus disse-lhe: "«Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens»", isto é, vais cativá-los, para uma vida diferente. E eles, "tendo conduzido os barcos para terra, deixaram tudo e seguiram Jesus".

Também hoje são necessários apóstolos de dedicação exclusiva, sobretudo sacerdotes dispostos a ajudar os outros irmãos a crescer a fé, e também missionários disponíveis para ir até ao fim do mundo.

Mas também os cristãos que se santificam no trabalho e na vida de família têm de ser mais ousados no seu apostolado, «inventando» modos de transmitir aos outras a alegria de conhecer Jesus Cristo, a certeza da sua presença, a força da sua amizade, que transforma a vida e lhe dá sentido.

S. Paulo transmite-nos, na 2ª leitura, um precioso testemunho da ressurreição de Jesus:

"Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi seputtado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Pedro, e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maior parte ainda vive, enquanto alguns já faleceram. Posteriormente apareceu a Tiago e depois a todos os Apóstolos. Em último lugar, apareceu-me também a mim, como o abortivo."

Esta última expressão é um pouco chocante, mas talvez fosse assim que alguns falavam de Paulo, traçando do seu aspecto físico ou negando a sua qualidade de apóstolo.

Mas S. Paulo viu Jesus vivo, não como era antes, mas com essa vida radicalmente nova, fruto dessa «explosão» de vida divina a que chamamos ressurreição.

Porque Jesus está vivo, podemos ouvi-Lo, na sua palavra; podemos falar com Ele, na oração; podemos experimentar o seu perdão; podemos recebê-Lo a adorá-Lo, na Eucaristia.

Proponho a cada um que tenha todos os dias um tempo de oração, sem pressa, para ouvir Jesuse falar com Ele.

A oração é muito importante para a vida. Muita gente pensa que a oração só serve para fazermos pedidos a Deus. Mas a oração também serve para Deus nos fazer «pedidos» a nós!

E serve para nós Lhe respondermos, como S. Pedro, primeiro com a consciência da nossa imperfeição, mas também com total confiança, e por isso voltamos a lançar as nossas redes mar adentro, e, se Deus quiser, virão de novo cheias, não de peixes, mas de homens e mulheres, dispostos a fazer a experiência da santidade, do poder e do amor de Deus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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