21 de Fevereiro de 2010 - Domingo I da Quaresma

Ser livres e viver como filhos

Após o seu baptismo, "conduzido pelo Espírito", Jesus entrou no deserto, onde permaneceu durante quarenta dias, renunciando à companhia dos amigos e até ao alimento, como diz S. Lucas: "Nesses dias não comeu nada, e, passado esse tempo, sentiu fome".

O jejum de Jesus, longo e exigente, é um sinal da sua plena confiança no Pai, é uma expressão do seu sentimento de absoluta dependência filial.

Temos de apreender a jejuar, ou a privar-nos de certos alimentos, de certos gostos, não a título de dieta, ou por motivos de saúde, ou por simples poupança (que também são motivos legítimos, mas de outra natureza), mas como sinal de que pomos em Deus toda a nossa confiança.

Quando precisamos de pedir a Deus uma graça extraordinária, como a conversão de uma pessoa, a cura de um doente, a reconciliação de um casal, a paz no meio da guerra ou a resolução de um problema grave, o nosso jejum ou a privação de um alimento de que gostamos mais, de uma sobremesa, de uma bebida é um sinal de fé e confiança, um gesto de entrega filial nas mãos de Deus. O «jejum» não nos dispensa de trabaihar, mas fundamenta a nossa acção e o nosso trabalho no poder de Deus, que generosamente nos dá a vida e a sustenta.


Juan de Flandres, A tentação de Cristo (1500)

Depois, Jesus enfrenta o tentador, e sai vencedor.

No Evangelho de S. Lucas, o tentador é chamado «diabo» (em grego: «diábolos»), que significa acusador, caluniador, o que semeia a mentira e a divisão.

As tentações são uma «tentativa» de desviar Jesus do seu caminho. Primeiro, o diabo começa por tentar Jesus, a Quem chama «Filho de Deus», a desconfiar de Deus, a pretexto de obter alimento.

Talvez o tentador pense no primeiro «filho de Deus», Adão, que, no início da história, desconfiou de Deus e Lhe desobedeceu. Mas Jesus, apesar de enfraquecido por um longo jejum, confia na palavra poderosa do Pai, de Quem recebe a vida e o sustento necessário, e permanece fiel.

Depois, o diabo procura seduzi-Lo com o fascínio do poder político e da glória humana. Mas Jesus não cede a essa ilusória tentação, e relativiza todos os poderes e todas as honras: só a Deus - e não aos homens - é devida toda a honra, toda a glória etodo oculto.

Por fim, diante da visão de Jerusalém, Jesus confirma a sua disposição incondicional de obedecer ao plano do Pai. É este plano que O levará um dia - precisamente em Jerusalém, onde termina o seu êxodo-ao dom da sua vida na cruz e, por meio dela, à ressurreição e gloriosa ascensão.

À luz da fé, a leitura do relato das tentações é muito clara: na mente e no coração de Cristo, o plano e a vontade de Deus são decisivos, são a única coisa que importa. Mesmo que este plano venha a implicar uma condenação injusta e uma dolorosa paixão e morte, Jesus empenha-se inteiramente no seu cumprimento. Não põe sequer a hipótese de duvidar de Deus. Não admite a hipótese de deixar de agir como Filho.

Com Jesus, também nós podemos ser livres, e viver como filhos de Deus. S. Paulo dizia na 2ª leitura: "Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor, e se acreditares no teu coração que Deus ° ressuscitou dos mortos, serás salvo".

Ao acreditarmos, não o fazemos só com a "boca", mas também com o "coração", e assim todo o nosso ser estará unido ao mistério de Cristo e aberto ao dom da salvação.

E agora queria deixar-vos algumas sugestões práticas para viver bem a Quaresma e chegarmos à Páscoa como vencedores.

Todos estamos familiarizados com a tradição de fazer alguma penitência durante a Quaresma, isto é, de renunciarmos a alguma coisa de que gostamos especialmente. Mas não pode ser apenas um belo costume, tem de ser mesmo uma prática efectiva.

Os dias de jejum em sentido mais estrito que a Igreja nos propõe são apenas dois: Quarta-Feira de Cinzas e Sexta-Feira Santa. Todas as sextas-feiras da Quaresma são também dias de abstinência, em que nos é recomendado não comer carne. Esta prática pode parecer irrelevante a alguns, mas não deixa de ser um Sinal, que não deve ser desprezado com ligeireza.

Outra boa prática é a de ler diariamente durante alguns minutos algum livro de leitura espiritual, além de ler, também diariamente, e numa leitura contínua, o Evangelho ou outro livro do Novo Testamento.

Também já está muito divulgado o hábito de ler as Leituras da Missa ao longo da semana. Um dos modos de o fazer é através do site Evangelho Quotidiano, ou encontrando-as em algumas publicações, nomeadamente A Liturgia diária da Editora Paulus, que é muito útil.

Muitas pessoas, na Quaresma, sentem particular devoção em rezar a Coroa da Divina Misericórdia, que está muito focada na Paixão de Cristo.

Também é muito adequado ao tempo da Quaresma fazer as Via-Sacra, que iremos fazer na Igreja dos Jerónimos, todas as sextas-feiras, às seis e meia da tarde.

Simultaneamente, seria bom um recurso mais frequente ao Sacramento da Confissão ou Reconciliação, que pode ser recebido mais do que uma vez daqui até à Páscoa, como sinal de um sincero desejo de conversão e purificação que queremos cultivar para celebrar intensamente a morte e a ressurreição de Cristo.

Peçamos a graça de seremos mais generosos nestas (ou noutras) concretizações do nosso caminho quaresmal, sobretudo naquelas privações voluntárias que nos tornam mais ágeis para servir e amar.

Assim chegaremos à Páscoa mais convertidos, mais livres por dentro, mais disponíveis para participar no grande mistério da morte de Cristo e na imensa alegria da sua ressurreição.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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