28 de Fevereiro de 2010 - Domingo II da Quaresma

O dom de contemplar

Na história da vida de S. Bento (c. 480 - c. 550), escrita pelo Papa S. Gregório Magno, conta-se o seguinte episódio: Havia um grupo de homens que pretendiam ser monges, mas eram pouco virtuosos. No entanto, tendo conhecido S. Bento, pediram-lhe que os orientasse e dirigisse.

Mas quando S. Bento os quis dirigir por um caminho de maior exigência e mais perfeição, eles revoltaram-se, porque não estavam dispostos a mudar de vida e a libertar-se dos seus hábitos mundanos. E então decidiram matar S. Bento, pondo veneno no vinho que ele iria beber à refeição.

Mas, conta S. Gregório Magno (que foi Papa entre 580 e 604), "quando o recipiente que continha a bebida mortal foi apresentado ao santo homem, sentado à mesa, para que este o benzesse como era costume, Bento, levantando a mão, fez o sinal da cruz, e com esse gesto quebrou o vaso de vidro, que, aliás, se encontrava a certa distância. Aquele vaso de morte despedaçou-se, como se contra ele tivesse sido lançada uma pedra em vez da bênção. O homem de Deus compreendeu que o recipiente continha uma bebida mortal, visto que não resistira ao sinal da vida" (Diálogos, Livro II, Cap. III).


Bento XVI com a cruz processional (Férula)

O sinal da cruz evoca a morte de Jesus, mas não é um sinal de morte, é "o sinal da vida", como diz este grande escritor e Papa que foi S. Gregório Magno.

Devemos ter muito amor pelo sinal da cruz, e ter muito gosto de nos «benzer», isto é, de pedir a bênção de Deus, fazendo sobre nós o sinal da cruz, como acontece muitas vezes ao longo do dia, quando nos levantamos e quando nos deitamos, antes e no fim das orações, antes e no fim das refeições, e em muitos outros momentos, por exemplo, quando nos confessamos, antes de começar uma viagem, ou um exame, ou também diante de um perigo ou de uma tentação.

Diante de uma tentação muitas vezes basta fazer o sinal da cruz, e a tentação desaparece. Outras vezes pode ainda não ser suficiente, e é preciso rezar mais, ou lutar mais, ou simplesmente raciocinar com mais frieza, para fugir daquela ocasião de pecado e daquela tentação, que levaria, se fosse consentida, a ofender a Deus e muitas vezes a magoar os outros.

S. Paulo, porém, na 2ª leitura, diz que havia cristãos em Filipos que procediam "como inimigos da cruz de Cristo", e só de falar nisso sente um enorme sofrimento. Não sabemos ao certo quem eram estes que faziam chorar S. Paulo, mas é provável que fossem os cristãos «moles», egoístas, instalados numa fé rotineira, como diz S. João Crisóstomo no seu comentário a esta carta, ou ainda é mais provável que fossem os chamados "judaizantes", que só eram cristãos de nome, porque queriam continuar apegados aos seus costumes religiosos antigos, e não reconheciam que quem os salvou não foram esses costumes e práticas previstos na Lei judaica, mas sim Jesus, Filho de Deus, ao morrer na Cruz. Eram "inimigos da cruz", porque esvaziavam o valor do sacrifício de Jesus, que Se ofereceu a Si mesmo por todos os homens.

Também hoje, às vezes, os próprios cristãos podem ser tentados a «relativizar» Jesus Cristo, a não o reconhecer como único, mas a olhá-Lo apenas como um entre muitos, a não sentir a força de amor e purificação, de graça e de salvação que nos vêm do seu Sangue precioso derramado na Cruz.

Voltando ainda à história de S. Bento, que aconteceu depois? S. Gregório Magno conta que, depois de advertir e repreender, com grande serenidade e firmeza aqueles falsos monges que o queriam matar, S. Bento afastou-se deles, e, voltando à sua vida de maior recolhimento, "habitou consigo mesmo, sob os olhos d'Aquele que tudo vê".

É muito inspirado e sábio este comentário de S. Gregório Magno. S. Bento não estava ausente de si, como aquelas pessoas que vivem totalmente imersas nas suas preocupações e ambições, mas a sua vida, vivida sempre na presença de Deus, alcançou um grande equilíbrio e uma grande harmonia interior.

Também este deve ser um objectivo para todos nós, e devemos procurar atingi-lo ainda mais nesta Quaresma: habitar connosco mesmos "sob os olhos d'Aquele que tudo vê", sendo pessoas equilibradas, pacificadas, embora tendo pontos de luta, e até podendo ter falhas, mas procurando sempre no perdão de Deus e na orientação espiritual da Igreja aquela ajuda necessária para recuperar esse equilíbrio e harmonia.

Além de pedir, na Confissão, o perdão dos pecados, seria bom pedir também ao sacerdote orientação espiritual, a que se costuma chamar «direcção espiritual», perguntando, pedindo conselho, esclarecendo dúvidas, contando coisas boas ou menos boas que podem acontecer no caminho da fé, para não recuar, nem estagnar, mas sim continuar a correr para a meta, como diz S. Paulo noutro passo desta mesma carta aos Filipenses.

Nós, cristãos, desejamos ser pessoas correctas e fazer coisas boas neste mundo, mas, além disso somos pessoas que se sentem sempre olhadas por Deus, com exigência, com verdade, e sobretudo com amor.

Além de sermos olhados, porém, também nós podemos olhar, também nós podemos contemplar. O que nos distingue é termos recebido, sem nenhum mérito, o dom de contemplar.

Os Apóstolos viram Jesus "transfigurado" no alto monte, e também nós, com o olhar da fé, podemos contemplar Jesus, cuja humanidade deixou de esconder, por um breve momento, a sua divindade, que logo a seguir, no entanto, voltou a ficar oculta, porque era preciso de novo descer do monte e voltar à vida corrente.

Os Apóstolos, hoje, já vêm face a face, no Céu, Jesus glorificado, transbordante de vida divina no seu Corpo ressuscitado, à direita do Pai. E também nós gostaríamos de O ver com esse olhar definitivamente contemplativo!

Mas antes temos de O ver pregado na Cruz. E não só vê-lo: também amá-Lo e segui-Lo, abraçando a sua Cruz, pedindo e avaliando por ela todas as coisas, e vencendo graças a ela o Maligno e todo o mal.

E até apoiando-nos na Santa Cruz, fazendo dela o nosso bordão, (como o Papa, que não tem um báculo de pastor, mas uma Cruz, que segura quando caminha no cortejo litúrgico), para nos levantarmos e continuarmos a caminhar, com a confiança do primeiro momento, no seguimento de Jesus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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