7 de Março de 2010 - Domingo III da Quaresma

Dons super-preciosos

Hoje acompanhámos Moisés na sua subida ao "monte de Deus, o Horeb". Aqui Moisés experimentou a santidade de Deus e ao mesmo tempo a sua proximidade, a sua preocupação paternal, e daqui desceu depois para essa grandiosa e árdua tarefa que foi a libertação do seu povo da terra da escravidão.

Esse caminho de libertação, a que chamamos Êxodo, foi uma longa aventura, cheia de grandezas e misérias, a que S. Paulo se refere no capítulo 10 da lª Carta aos Coríntios, numa admirável passagem que hoje lemos.

Começa assim: "Irmãos: Não quero que ignoreis..." Como nota S. João Crisóstomo, vê-se que eram pouco instruídos sobre este assunto. O que era então que eles não deviam ignorar?


Didron, A Arvore de Jessé. Pormenor: Moisés, Vitral de Notre Dame de Paris (1864)

Não deviam ignorar "que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, passaram todos através do mar e na nuvem e no mar, receberam todos o baptismo de Moisés. Todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual. Bebiam de um rochedo espiritual que os acompanhava: esse rochedo era Cristo".

E por que é que S. Paulo tem tanto empenho em que os Coríntios conheçam estes acontecimentos? Segundo o mesmo grande bispo de Constantinopla, de seu nome João, mais tarde chamado "Crisóstomo", que significa «boca de ouro», e que faleceu, em 407, a caminho do segundo exílio a que fora injustamente condenado, S. Paulo recorda estes acontecimentos do Êxodo para mostrar aos Coríntios que, assim como não tinha servido de nada ao Judeus receber tantos benefícios, também a eles será inútil "ter recebido o baptismo e ter participado nos mistérios espirituais, se não viverem uma vida digna da graça".

S. Paulo quer que os Coríntios saibam que Deus libertou os Judeus do Egipto e da escravidão que ali suportavam, abriu-lhes o mar, deu-lhes o maná do céu, fez jorrar fontes de uma maneira surpreendente, e acompanhou-os portoda a parte comoseu defensor.

Todas estas acções de Deus eram sinais de amor. Mas tudo isso acabou por lhes ser inútil, porque não pagaram amor com amor. E quando não souberam responder com amor a toda a bondade de Deus, acabaram por perder tudo. "A maioria deles - escreve S. Paulo - não agradou a Deus, pois caíram mortos no deserto".

Mas talvez os Coríntios pudessem perguntar: «E que tem isso a ver connosco?» E S. Paulo responderia, como escreveu nesta Carta: "Esses factos aconteceram para nos servir de exemplo". Não se tratava só de recordar a história passada, tratava-se de avaliar o modo como eles estavam - ou nós próprios estamos - a viver no presente, em resposta aos dons de Deus.

S. Paulo vê na passagem do Mar Vermelho um símbolo do Baptismo, e no dom do maná um símbolo da Mesa santa onde recebemos o Corpo de Cristo. Por sua vez, a água do rochedo simboliza o seu Sangue, que também recebemos sacramentalmente na Eucaristia. São estes os dons super-preciosos, de que os dons recebidos pelos Judeus eram figura e símbolo.

E o próprio castigo dos Judeus no Êxodo nos adverte em relação à enorme frustração que se daria na nossa vida, se não correspondêssemos ao amor de Deus, e nos alerta para o perigo da eterna condenação em que pOderíamos incorrer, se fôssemos definitivamente insensíveis e ingratos as seus dons.

Daí as cinco advertências, fortes e salutares, que S. Paulo dirige aos Coríntios: a primeira, para não cobiçarem o mal, "como eles cobiçaram"; a segunda, (omitida na leitura litúrgica), para não serem idólatras, isto é não adorarem falsos deuses (que hoje continuam a ser os mesmos de sempre: o ter, o prazer, o poder); a terceira, (também omitida), para não se entregarem à impureza (à letra: "à prostituição"), que levou um grande número à morte num só dia; a quarta, (também omitida), para não tentarem o Senhor, como fizeram os israelitas, quando se queixaram de não lhes dar outro alimento além do maná; e finalmente, a última, para não murmurarem, queixando-se das dificuldades e provas que iam encontrando ao longo da sua caminhada.

E S. Paulo termina com este conselho: "Portanto, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair". E que acontece, se alguém tiver caído? Não deve desesperar: quem caiu, pode sempre levantar-se. Mas não demore, não perca tempo: o nosso tempo é breve e precioso!

S. Paulo tinha dito um pouco antes que "chegámos ao fim dos tempos", o que quer dizer, não que o mundo vai acabar em breve, mas sim que nos tocou viver na última fase dos tempos, isto é, na plenitude dos tempos messiânicos, que são «a última idade do mundo».

Portanto, não podemos desperdiçar o tempo, e, neste tempo tão precioso, que é o tempo de salvação, temos de render mais, temos de dar mais fruto, como ensina Jesus, no Evangelho de hoje.

Para que esta maior fecundidade espiritual possa acontecer, a Igreja pede-nos que sejamos mais generosos no jejum, na oração e na esmola. O jejum, que abrange diversas privações voluntárias de alimentos, tem que se «sentir»; a oração tem que se «exprimir», por exemplo na Missa diária, na visita ao Santíssimo Sacramento e na leitura espiritual; e a esmola ou partilha fraterna - em benefício dos mais necessitados - tem que se «notar», e é bom que até possa «custar» e até «pesar», para não ser apenas o que sobra, mas até, por vezes, o que nos faz falta.

O jejum, a oração e a esmola podem ser aquele «adubo» de que falava o dono da figueira na parábola que Jesus contou.

Como são praticados exclusivamente por amor de Jesus e, no caso da partilha, também para ajudar os outros, e não para nossa exaltação pessoal, podem tornar-nos mais dóceis à acção de Deus, e assim a nossa vida, regada pela água do céu que é o Espírito Santo, poderá dar muitos frutos, mesmo no sofrimento, mesmo na dor, justificando assim a nossa existência na Terra, onde como se lê no primeiro ponto de Caminho - não pode haver vidas estéreis, mas apenas vidas úteis, que deixam rasto, e iluminam com o resplendor da sua fé e do seu amor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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