11 de Abril de 2010 - Domingo II da Páscoa
Domingo da Divina Misericórdia

Alegria e esperança

Estamos no 2° Domingo da Páscoa, em que se salientam, nas leituras da Missa, dois temas principais. O primeiro é o crescimento da fé. Como sempre, na 1ª leitura da Missa durante o Tempo Pascal, abrimos os Actos dos Apóstolos e lançamos um olhar fascinado para a vida da primitiva Igreja. É um tempo de milagres, de intensa caridade e também de grande expansão.

E hoje, continua a ser assim? E será que no futuro o número de cristãos continuará a aumentar? Esta pergunta é muito actual, mas a resposta não nos pertence a nós, pertence a Deus...

No entanto, já hoje podemos registar significativos sinais de esperança. Em algumas dioceses da Ásia, em particular em Hong Kong (na China) e em Mumbai (na índia), registaram-se números excepcionais de baptismos durante a Vigília Pascal. De realçar, a diocese chinesa, que ainda goza de liberdade num país de regime comunista, e que recebeu três mil novos católicos. O bispo de Hong Kong, D. John Tong, exortou todos os neófitos a um dinamismo constante de missão, trazendo novos irmãos para a fé em Cristo.


Jerome Nadal, A apariçao de Jesus aos discípulos e a Tomé (1593) (porm.)

Já o seu colega indiano, o Cardeal Oswald Gracias, acentuou que "à luz dos falsos ataques ao Santo Padre, estes novos baptizados trazem esperança à Igreja, porque estes adultos que foram baptizados não se abalaram pelas distorções e inverdades publicadas sobre o nosso Santo Padre".

E também num país como a França, que é um dos mais secularizados de toda a Europa, três mil adultos receberam o Baptismo e os outros sacramentos da Iniciação Cristã, o Crisma e a Eucaristia, na Vigília Pascal e no Domingo de Páscoa. O número de novos católicos recebidos em França nas celebrações da Páscoa tem aumentado constantemente desde há mais de 10 anos. Desde o início do 3° milénio, o aumento foi de 20%. Desde 2001, mais de 25.000 adultos foram baptizados.

O segundo grande tema das leituras de hoje é a alegria. O grande dom da Páscoa é a alegria, fruto da ressurreição de Jesus, que a Igreja nos convida a viver, a exemplo dos Apóstolos, que, como diz o Evangelho de S. João, "ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor".

Da cultura dominante no mundo actual e do relativismo que nela se instalou, não nos vêm grandes motivos de alegria ou de esperança, mas apenas grandes decepções e preocupações.

Mas há outra fonte de alegria, que não está dependente dos ciclos políticos ou económicos, e que nos é oferecida por Deus, como pura graça, em Jesus, seu Filho, que suportou a morte, mas que a morte não venceu, e que regressou da morte, vivo, para nunca mais morrer.

Jesus regressa da morte como vencedor, para fazer os seus discípulos e todos os homens participar na vitória da sua ressurreição.

Por isso, a Oitava Pascal que hoje termina, e o conjunto das setes semanas do Tempo Pascal, que culminam no 50° dia, o Domingo de Pentecostes, têm um sabor único de alegria e de esperança.

Alegria, porque Jesus, que suportou a mais dolorosa Paixão, e cujo corpo santíssimo foi encerrado na escuridão do túmulo, Se manifestou vivo, e muitos se encontraram, numa absoluta surpresa, com o Ressuscitado, que os inundou com a sua paz e a sua misericórdia.

Hoje, 2° Domingo da Páscoa, é o Domingo da Divina Misericórdia, como o Papa João Paulo II lhe quis chamar. Se nos encontramos com Jesus, mergulhamos na misericórdia de Deus, para sermos purificados e iluminados.

Como conta S. João, o apóstolo S. Tomé foi convidado a «tocar» Jesus, a experimentar, quase fisicamente, o mistério da sua vida nova, e também nós, por um puro dom da sua misericórdia, podemos conhecê-Lo intimamente, receber o seu perdão, e até, na Eucaristia, acolhê-Lo no na nossa alma e nosso coração.

Mas o Tempo Pascal é também tempo de esperança, porque nos abre as portas da vida eterna, para a qual todos fomos feitos, para a qual somo chamados.

O Domingo de Páscoa - e até cada Domingo ­ apresenta-se, não só como o primeiro dia da semana, mas como um dia novo, o «Oitavo Dia», que está para além da medida do tempo.

Não podemos viver sem este dia, que anuncia e antecipa "o dia da eternidade, dia em que a luz já não será intermitente, nem dada com medida, mas em que se estenderá sem fim e sem limite" (Dom Guéranger).

As nuvens e as sombras que há no mundo, e que por vezes até pode haver em nós, não nos tiram a paz que Jesus nos veio dar, essa paz que vemos reflectida no Santo Padre Bento XVI, recentemente objecto de críticas profundamente injustas, mas que percebemos sereno, cheio de paz, nada intimidado, e capaz de olhar para o futuro com um olhar de profunda fé e de esperança.

A 2ª leitura levava-nos a escutar estas palavras reconfortantes de Jesus. ouvidas um dia pelo autor do Apocalipse:"«Não temas»". Estas palavras convidam-nos a dirigir o olhar para Jesus Cristo, para experimentarmos a sua presença, que nos enche de paz. em todas as circunstâncias. Mesmo nos momentos mais difíceis, Jesus diz-nos: "«Não temas!»". E acrescenta: "«Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Estive morto, mas eis-me vivo pelos séculos dos séculos»".

Continuemos a celebrar com alegria a Páscoa do Senhor, não nos angustiando com o presente, mas sabendo também nós olhar com esperança para o futuro, porque Jesus continua presente e a actuar na história, e um dia, como diz, num outro passo, o Apocalipse, até aqueles que O trespassaram O verão na sua glória (cf. 1, 7), e a todos será definitivamente anunciada e manifestada a vitória da sua ressurreição.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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