9 de Maio de 2010 - Domingo VI da Páscoa

O esplendor da verdade

Hoje gostaria principalmente de vos citar dois textos: um de um famoso filósofo da Antiguidade, e o outro do Santo Padre o Papa Bento XVI, que, com imensa alegria, nos preparamos para acolher entre nós.

O primeiro é um passo da Apologia de Sócrates, escrita por Platão (428-347 a,C.) em defesa do seu estimado mestre. Sócrates, que nasceu em Atenas, em 469 a. C., foi um dos maiores mestres de todos os tempos na arte de pensar. Mas, no ano 399 a. C., foi condenado à morte, injustamente acusado de impiedade e corrupção da juventude.

Platão conta que os juízes de Atenas, quando ainda não tinham confirmado a condenação à morte, tentaram que Sócrates escolhesse a pena a que deveria ser condenado. E Sócrates respondeu:

"Que pena deverei escolher para mim, atenienses? A que mereço, é claro. E que pena devo sofrer ou pagar eu, que em toda a minha vida jamais deixei de procurar ensinar, visto que, negligenciando aquilo pelo qual os outros se interessam (dinheiro, governo da casa, cargos públicos), andei por onde pudesse fazer a cada um o maior bem; tentando persuadir cada um de vós a não cuidar das suas coisas antes que de si mesmo; a que se tornasse tão bom e sábio, quanto lhe fosse possível; que não cuidasse das coisas da cidade antes que da sua propria alma, e assim por diante" (c. 36).


Apocalipse flamengo, A nova Jerusalem (c. 1400-1410)
(iluminura)

Sócrates, por uma inspiração considerada «divina», tinha-se sentido chamado a esta missão: incitar os homens a preocupar-se antes de mais nada com "os interesses da sua própria alma", procurando adquirir a sabedoria e a virtude.

Queria livrar os seus concidadãos da influência nefasta dos sofistas, que punham em dúvida o conhecimento de uma verdade suprema e de uma lei moral absoluta, e estimulá-los à procura da verdade e da virtude. É justo dizer que, com a sua vida e com a sua morte, Sócrates deu um efectivo testemunho desses va lores eternos.

Os problemas económicos são hoje a grande preocupação dos governantes e dos cidadãos comuns, e é natural que assim seja, mas quem se preocupa, ainda mais e prioritariamente, com "os interesses da sua própria alma"?

Num tempo em que predominam, ainda muito mais do que na Atenas de Sócrates, os «sofistas", que não acreditam que exista a verdade nem uma lei moral universal, é preciso desafiar muita gente a cuidar de si mesmo e da salvação da sua alma, ou, dito por outras palavras, a buscar um sentido mais definitivo para a vida, uma verdade que dê resposta às nossas perguntas inadiáveis, um amor definitivo que nos envolva não só na vida mas também na morte.

No Evangelho de hoje, Jesus diz-nos: " «Quem Me ama, guardará a minha palavra» ". A palavra de Jesus não pertence ao passado. O Espírito Santo torna-a sempre viva ao longo dos tempos e nos nossos corações. Pouco depois, Jesus diz também: " «O Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas, e vos recordará tudo o que eu vos disse» ", Que o Espírito Santo nos ensine sempre a verdade de Jesus! Que nos mostre sempre a força e a beleza da palavra de Jesus! Porque a palavra de Jesus é a verdade. A palavra de Jesus é viva. A palavra de Jesus é a luz da nossa vida.

O segundo texto que gostaria de citar é do Santo Padre Bento XVI, e foi-me sugerido pela 2ª leitura, do Apocalipse, Depois de nos ter feito contemplar a nova Jerusalém, que descia do céu. "bela como noiva adornada para o seu esposo", S. João mostra-nos hoje de novo a Cidade Santa, "que descia do Céu, da presença de Deus, resplandecente da glória de Deus".

Este texto convida-nos a reflectir sobre a relação entre beleza e liturgia, A liturgia que celebramos, pode ser simples, mas tem de ser bela!

Escreveu o Santo Padre Bento XVI: "A relação entre mistério acreditado e mistério celebrado manifesta-se, de modo peculiar, no valor teológico e litúrgico da beleza. De facto, a liturgia, como aliás a revelação cristã, tem uma ligação intrínseca com a beleza: é esplendor da verdade (veritatis splendor). Na liturgia, brilha o mistério pascal, pelo qual o próprio Cristo nos atrai a Si e chama à comunhão. (...).

"A beleza da liturgia pertence a este mistério; é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o céu que desce à terra. (...) Concluindo, a beleza não é um factor decorativo da acção litúrgica, mas um elemento constitutivo desta, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação. Tudo isto nos há-de tornar conscientes da atenção que se deve prestar à acção litúrgica para que brilhe segundo a sua própria natureza" (Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, n. 35).

A beleza é o esplendor da verdade, é o brilho da verdade!

É importante que na nossa vida não nos contentemos só com os resultados práticos, com os problemas imediatos. É inquestionável que é preciso resolver os problemas imediatos, mas ainda mais necessário é saciar a nossa alma com a verdade e a beleza que é o próprio Cristo, cuja palavra nos ilumina, cujo rosto nos atrai e nos fascina.

E mesmo quando -lembra ainda Bento XVI- pela sua Paixão nos aparece "como alguém «sem distinção nem beleza que atraia o nosso olhar»(Isaías 53, 2). Jesus Cristo mostra-nos como a verdade do amor sabe transfigurar até mesmo o mistério sombrio da morte na luz radiante da ressurreição. Aqui o esplendor da glória de Deus supera toda a beleza do mundo. A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal" (ibid.).

Ofereço estes dois textos, sobretudo o segundo, de Bento XVI, à reflexão de todos.

No mundo de hoje sente-se pesada mente a falta a verdade de Jesus Cristo e da beleza que dele irradia.

Possa a nossa vida ser um reflexo dessa verdade que dá luz e sentido à vida inteira. e que em nós irradie um pouco dessa beleza que nos envolve e desse amor que nos abraça, de modo particular sempre que celebramos os mistérios de Cristo na Divina Liturgia e sobretudo na Sagrada Eucaristia.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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