6 de Junho de 2010 - Domingo X do Tempo Comum

O começo da vitória

O Evangelho de hoje é um relato próprio de S. Lucas, e manifesta até onde chega a acção de Deus, em Jesus Cristo, seu Filho.

A vida humana está sujeita a muitos perigos e males, e alguns parecem sem remédio nem solução. O mais grave desses males que se abatem sobre os homens é a morte, para a qual, humanamente, não vemos remédio nem solução, mas também ela é vencida já hoje, de muitos modos, e sê-lo-á um dia, definitivamente, por Deus, em Jesus Cristo.

Este e outros milagres de Jesus são, por assim dizer, vitórias parciais e iniciais sobre esses irredutíveis inimigos do homem, entre os quais avulta a morte.

Mas já anunciam a vitória final da própria ressurreição de Jesus, e já permitem a Jesus, pouco depois. responder nestes termos aos enviados de João Baptista: "«Ide dizer a João o que vistes e ouvistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho»".

No seu livro Jesus de Nazaré, (de que aguardamos em breve o 2° volume), o Santo Padre Bento XVI observa que não é suficiente traduzir "evangelho" por: "boa nova". O «Evangelho» não é uma simples mensagem, "não é simples comunicação, mas acção, força eficaz que entra no mundo, para o salvar e transformar"


Jerome Nadal, Jesus ressuscita o filho da viúva de Naim (1593)

Com Jesus, os mortos ressuscitam, e o Evangelho é anunciado aos homens, levando a todos uma nova alegria e uma nova esperança!

No texto de hoje, S. Lucas mostra-nos também a profunda humanidade e delicadeza de Jesus. O seu Coração é sensível até aos mais pequenos pormenores. e não lhe podia passar despercebido que aquele jovem, cujo corpo ia ser sepultado, era o "filho único de sua mãe, que era viúva".

A situação da viúva de Naim - pequena aldeia a 10 quilómetros de Nazaré - era muito grave. Para uma mulher. já viúva, perder o seu único filho, numa sociedade como a do antigo Israel, significava não ter ninguém a protegê-la, e mergulhar numa situação de extrema dependência e fragilidade.

A compaixão de Jesus por alguém sujeito a um estado de abandono tão profundo leva-o a ir para além das leis de pureza ritual, que não permitiam que se tocasse nos que já tinham morrido (como se lê no livro dos Números, cap. 19, 11 e 16). Mas "Jesus aproximou-Se e tocou no caixão" (que era um simples esquife), e depois disse: "«Jovem, eu te ordeno, levanta-te»". E a seguir "entregou-o à sua mãe".

Estas palavras lembram-nos as que disse o profeta Elias depois de obter de Deus, pela sua oração, o regresso à vida do filho da viúva de Sarepta, ainda menino: "«Aqui tens o teu filho vivo»". E então aquela mulher, que tinha acolhido Elias numa hora de grande provação para o profeta (1 Reis 9,16), reconheceu que estava diante de "um homem de Deus", e que nos seus lábios se encontrava verdadeiramente "a palavra do Senhor".

Também os que testemunharam a compaixão de Jesus, começaram a reconhecer o segredo que Jesus levava dentro de Si. E exprimindo-se como eram capazes, lembrando-se talvez de Elias e dos outros profetas, viam em Jesus "um grande profeta", e exclamavam com emoção: "«Deus visitou o seu povo»".

Em Jesus sentimos esta definitiva «proximidade» de Deus, que não é apenas física, é um estar perto de nós. nas nossas provas e dores, e também nas alegrias e êxitos, uma proximidade íntima, uma solidariedade total. que nunca nos deixa sós, que nunca nos deixa abandonados ou desamparados.

Mas Jesus não se limita a estar ao nosso lado, não Se contenta com visitar-nos e exercer em nosso favor o seu poder. Também nos desafia, nos chama e interpela, e nos convida a mudar de rumo com a nossa decisão livre, com a nossa vontade convertida.

É este desafio que também nós desejamos levar a muitas pessoas, para que passem do "cortejo triste" dos que choram a morte para o "grupo em festa" dos que seguem Jesus.

Para o conseguirmos fazer, não são precisas técnicas complicadas. Mas duas coisas são necessárias.

Em primeiro lugar, que cada um de nós viva, pessoalmente, uma verdadeira intimidade com Jesus Cristo, e que já tenha sentido a sua proximidade, a força da sua palavra, a suavidade da sua graça que cura, perdoa e dá a vida.

E, em segundo lugar, que saibamos mostrar aos outros onde podemos encontrar Jesus: na leitura atenta da Sagrada Escritura e na oração pessoal e comunitária; na participação activa na celebração da Eucaristia, a Santa Missa; no encontro com o Sacerdote no sacramento da Reconciliação; na vida da Igreja, que nos acolhe nos grupos paroquiais e em tantas outras expressões da sua comunhão e missão; e no rosto do que sofre, do que está em necessidade, do que é estrangeiro, do que procura a verdade ou do que parece já ter desistido de a procurar.

E assim encontraremos Jesus não só como o "grande profeta" que surpreende e ultrapassa as nossas expectativas, mas como verdadeiro Deus, que, sendo também verdadeiro homem, nos «diviniza», e assim realiza plenamente e enche de alegria a nossa humanidade.

Que saibamos encontrar e anunciar Jesus, para que todos n'Ele encontrem o começo da vitória e um dia a vida eterna.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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