13 de Junho de 2010 - Domingo XI do Tempo Comum

Uma vida de entrega

Hoje gostaria de vos convidar a sintonizar com os preciosos ensinamentos do Santo Padre Bento XVI, na homilia da Missa de encerramento do Ano Sacerdotal, que concelebrou com mais de 15.000 sacerdotes do mundo inteiro.

Mas, por ser dia de Santo António, desejaria antes referir alguns aspecto da vida deste grande santo nosso compatriota, nascido em Lisboa à volta do ano 1190, e chamado para o Céu na tarde do dia 13 de Junho de 1231, nos arredores de Pádua, onde depois foi sepultado.

Poucos dias antes, tinha ido para o campo, para descansar um pouco. Mas, nesse dia 13 de Junho, sentiu-se mal, e pediu que o levassem para Pádua. Já muito perto, um outro religioso franciscano viu que António estava gravemente doente, e mandou que fosse para um convento que ficava às portas da cidade. Ali recebeu os últimos sacramentos: confessou-se e recebeu a Santa Unção, depois cantou o hino mariano «O gloriosa Domina» e os sete salmos penitenciais, e já vendo Jesus - como disse ao irmão que o assistia: «Vejo o meu Senhor!», ­entregou a sua alma a Deus. E apareceram logo crianças, que souberam da notícia, e foram dizer a toda a gente: «Morreu o padre santo! Morreu Santo António!»


Benozzo Gozzoli, Santo António (1459)

Mas agora voltemos dez anos atrás. Em 1221, quando já estava em Itália, Santo António tinha passado inesperadamente de uma vida de silêncio e oração e de humildes tarefas comunitárias, para um intenso trabalho de pregação.

Quando um dia teve de pregar numa ordenação sacerdotal, foi a surpresa total! Ninguém imaginava que fosse tão bom pregador e conhecesse tão bem a Sagrada Escritura! E o resultado foi este, como conta um antigo biógrafo: "António foi obrigado a abandonar o silêncio e sair a público. Encarregado, pois, do ofício de pregador, (...) andava por cidades e castelos, por aldeias e casais, espalhando a semente da vida com tanta abundância como fervor".

Santo António, com a sua grande sabedoria e caridade, conseguiu que muitos voltassem à unidade da Igreja e abandonassem os erros em que tinham caído. Pregou no norte de Itália e também no sul de França, diante do povo simples e de auditórios mais exigentes, influenciados por certos erros e heresias, a ponto de o chamarem «martelo de hereges».

Esta expressão deve ter aparecido em Toulouse, na França, onde estava muito difundida a heresia albigense, e onde a sua missão e a sua pregação quase assumiram a característica de um debate público.

"De qualquer modo - escreve um estudioso de Santo António, o sacerdote franciscano Pe. Henrique Rema - Santo António não aparece como orador polémico nos seus sermões. Cita os hereges poucas vezes e de fugida. Não teme a heresia, que de resto a Igreja sempre tinha vencido só com a força de verdade e da sua doutrina. António definiu-se mais como martelo de maus prelados e maus religiosos e leigos, do que como «martelo infatigável dos hereges»".

Às vezes é preciso alertar para os erros, com caridade mas também com firmeza e com verdade, Este foi um dos pontos que mais chamou a atenção na homilia do Papa Bento XVI, no passado dia 11, Festa do Sagrado Coração de Jesus e encerramento do Ano Sacerdotal. O Papa usou uma outra comparação a vara e o cajado do pastor - imagens tiradas do salmo 23 (22) e explicou que ambos são necessários, e que o pastor na Igreja deve usar os dois, para melhor servir os seus irmãos.

"A Vossa vara e o Vosso cajado me enchem de confiança", diz o salmo. E explicou o Santo Padre: "O pastor necessita da vara contra os animais selvagens que querem atacar o rebanho; contra os salteadores que procuram a sua presa. Junto da vara, está o cajado, que dá apoio e ajuda a atravessar os lugares difíceis".

Também a Igreja, continuou o Papa, "deve usar a vara do pastor, a vara com a qual protege a fé contra os falsificadores, contra as orientações que são, na realidade, desorientações. Com efeito, o uso da vara pode ser um serviço de amor. Hoje vemos que não se trata de amor, quando se toleram comportamentos indignos da vida sacerdotal"

"Como também não se trata de amor, quando se deixa proliferar a heresia, os desvios e a destruição da fé, como se nós inventássemos a fé autonomamente. Como se já não 'fosse um dom de Deus a pérola preciosa que não deixamos que nos arranquem. Ao mesmo tempo, entretanto, a vara deve continuamente transformar-se no cajado do pastor, cajado que deve ajudar os homens a poder caminhar por atalhos difíceis e seguir a Cristo".

Assim fez sempre Santo António, com incansável caridade e grande amor pela verdade.

O exemplo deste grande santo, que Deus chamou a uma entrega total e depois ao ao sacerdócio e a um intenso trabalho evangelizador, lembra-nos ainda que todos somos chamados a uma vida de entrega, e não a uma vida medíocre; a um verdadeiro seguimento de Jesus, e não a uma prática religiosa rotineira; a um constante interesse pelos outros, para lhes propor avançar na fé, e não à indiferença pelo seu destino e pela sua salvação.

Celebrar Santo António, religioso «radical- e sacerdote que viveu sempre em função dos outros é uma graça e também um desafio: para nos sentirmos mais responsáveis pelo mundo e desejarmos ardentemente que se torne mais cristão.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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