20 de Junho de 2010 - Domingo XII do Tempo Comum

A Eucaristia: os factos (I)

A fé não existe por acaso no mundo. A fé existe no coração das pessoas, não por acaso, nem por inércia, nem por tradição, mas como resposta a um anúncio.

O Santo Padre Bento XVI tem insistido muito nesta ideia. Aqui mesmo em Lisboa, no dia 11 de Maio, disse na sua homilia no Terreiro do Paço: "Muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista".


Rafael, A disputa sobre o Santíssimo Sacramento (ou: O Triunfo da Religião) (1508-1511)

Há poucos dias ainda, em 15 de Junho, num discurso durante o Convénio da Diocese de Roma, na Basílica de S. João de Latrão, que é a catedral do Papa, Bento XVI voltou a dizer: "A fé não pode nunca ser pressuposta, porque cada geração tem necessidade de receber este dom mediante o anúncio do Evangelho, e de conhecer a verdade que Cristo nos revelou".

As consequências que resultam daqui são muito claras. A Igreja tem o dever de propor a todos "o depósito da fé", o conteúdo da fé cristã. Muitas pessoas ainda não o conhecem ou não o vivem. Portanto, é preciso transmiti-lo, anunciá-lo!

Nesse "depósito da fé", que é um verdadeiro tesouro, está contida também, acentua o Santo Padre. "a doutrina da Eucaristia - mistério central no qual «se encerra todo o bem espiritual da Igreja, isto é. o próprio Cristo, nossa Páscoa" (Conc. Ecum. Vat.II. Decr. Presbyterorum ordinis, 5); doutrina que hoje, infelizmente - sublinha Bento XVI não é suficientemente compreendida no seu valor profundo, e na sua importância para a vida dos crentes".

Animados pelo exemplo e pelos ensinamentos do Santo Padre, iniciamos hoje um conjunto de reflexões sobre a Eucaristia, que nos poderão ajudar a contemplar e «saborear» os próprios mistérios que celebramos.

Sobre a Eucaristia gostaria de falar em primeiro lugar, dos «factos», e depois dos «efeitos», uns e outros evidentemente entendidos e aprofundados à luz da fé.

Comecemos pelos «factos»: que acontece quando a Eucaristia é celebrada? Vamos ouvir Bento XVI, na homilia da Missa do encerramento do Ano Sacerdotal, no passado dia 11: "O sacerdote faz algo que nenhum ser humano, por si mesmo, pode fazer: (n.) Pronuncia sobre as ofertas do pão e do vinho as palavras de agradecimento de Cristo. que são palavras de transubstanciação palavras que O tornam presente a Ele mesmo, o Ressuscitado, o seu Corpo e o seu Sangue, e assim transformam os elementos do mundo: palavras que abrem de par em par o mundo a Deus e o unem a Ele".

No discurso de 15 de Junho, o Papa Bento XVI voltou a usar. pela segunda vez em pouco tempo, esta palavra "transubstanciação", que parecia esquecida, mas é doutrinalmente muito forte.

Vamos também ler tranquilamente as suas palavras: "Na oferta que Jesus faz de Si mesmo, encontramos toda a novidade do culto cristão. Na antiguidade, os homens ofereciam em sacrifício às divindades os animais ou primícias da terra. Jesus, pelo contrário, ofereceu-Se a Si mesmo, o seu corpo e toda a sua existência. Ele mesmo em pessoa Se torna naquele sacrifício que a liturgia oferece na Santa Missa".

E continua o Santo Padre: "Na verdade, com a consagração, o pão e o vinho tomam-se o seu verdadeiro Corpo e Sangue. Santo Agostinho convidava os seus fiéis a não se deterem naquilo que aparecia aos seus olhos, mas a irem mais longe: «Reconhecei no pão aquele mesmo corpo que foi suspenso na cruz, e no cálice aquele mesmo sangue que jorrou do seu lado» (Serm, 228B. 2) ".

Mas como pode acontecer esta identificação do pão e do vinho com o corpo crucificado e hoje ressuscitado de Cristo, e com o seu Sangue derramado?

Responde o Santo Padre: "Para explicar esta transformação, a teologia forjou a palavra «transubstanciação". palavra que ressoou pela primeira vez nesta Basílica [de S. João de Latrão], durante o IV Concílio Lateranense. cujo VIII centenário ocorrerá dentro de cinco anos","Naquela altura foram inseridas na profissão de fé as seguintes expressões: «o seu corpo e o seu sangue estão contidos verdadeiramente no sacramento do altar, sob as espécies do pão e do vinho, pois o pão é transubstanciado no corpo, e o vinho no sangue pelo poder divino".

Três séculos depois, o Concílio de Trento confirmou esta doutrina, num texto retomado já no séc. XX pelo Catecismo da Igreja Católica:

"Porque Cristo, nosso Redentor, disse que o que Ele oferecia sob a espécie do pão era verdadeiramente o seu corpo. sempre na Igreja se teve esta convicção que o sagrado Concílio de novo declara: pela consagração do pão e do vinho opera­se a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue; a esta mudança, a Igreja católica chama, de modo conveniente e apropriado, transubstanciação».

E o Papa Bento XVI retira destas verdades da fé a seguinte consequência: "É fundamental, portanto, que nos itinerários de educação para a fé das crianças, dos adolescentes e dos jovens, bem como nos «centros de escuta da Palavra de Deus, se sublinhe que. no sacramento da Eucaristia, Cristo está verdadeiramente, realmente e substancialmente presente".

Que o olhar da nossa fé reconheça esta presença de Jesus Cristo na Eucaristia. que não é «virtual. nem apenas simbólica. mas real e «substancial».

E que deste reconhecimento e da sua recepção em nós pela comunhão retiremos todos os frutos e todos os efeitos, quer no âmbito da nossa intimidade com Deus, quer da efectiva caridade para com os que estão mais perto de nós e para com todos os que mais precisam de nós.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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