11 de Julho de 2010 - Domingo XV do Tempo Comum

Fazer mais, fazer melhor

A parábola do bom samaritano, que também se poderia chamar a história do homem que "caiu nas mãos dos salteadores", é uma das mais elaboradas e belas de todo o Evangelho. Jesus contou-a em resposta a uma pergunta de um doutor da lei: "«E quem é o meu próximo?»"

Nesta parábola. além do homem que foi assaltado, aparecem um sacerdote e um levita, que deviam ser pessoas cumpridoras da lei. E aparece também um samaritano, que não pertencia ao povo Judeu, e por isso era olhado com um certo desprezo.

O sacerdote e o levita, com medo de se contaminarem com um homem que parecia morto, passaram adiante.

Mas foi o samaritano que tratou do homem ferido, com todo o cuidado e carinho, sem olhar a despesas. E estava disposto a continuar a ajudar, se fosse preciso. As suas últimas palavras, dirigidas ao estalajadeiro, são estas: "«Trata bem dele; e o que gastares a mais, eu to pagarei, quando voltar»". Assim termina a parábola contada por Jesus.


Jerome Nadal, S. J., (Ed.) Evangelicae Historiae Imagines (1595)

E nessa altura, aparece uma segunda pergunta, feita agora por Jesus ao doutor da lei: "«Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?»" E a resposta não oferece dúvidas: é evidente! O doutor da lei deve ter ficado um instante em silêncio, pensou um pouco..., e não foi capaz de dizer: «o samaritano». Custava-lhe pronunciar essa palavra. Mas, pelo menos, respondeu claramente: "«O que teve compaixão dele»". Jesus aceitou esta resposta, e acrescentou: "«Então vai tu e faz o mesmo»".

Continuando a pensar, o doutor da lei deve ter concluído um pouco depois: «Na verdade, há pessoas que não pertencem ao meu povo, e também são boas, também fazem coisas boas...» E é natural que tenha decidido passar a olhar os outros com olhos novos, e a agir de um modo novo, com mais justiça e mais caridade, mais eficazmente.

A parábola do bom samaritano representa, portanto, um desafio feito por Jesus aos membros do Povo eleito, que hoje somos nós, a sua Igreja a rever o que faz em favor dos outros, sejam eles quem forem. Se há pessoas, fora da Igreja, que fazem coisas boas. quanto mais e melhor não deveremos fazer nós, que somos cristãos!

É este o grande desafio do Evangelho: fazer mais, fazer melhor. Muitas vezes este «fazer mais, fazer melhor» significa dar de comer a quem tem fome, mas outras vezes também significa ajudar a pensar melhor. S. Tomás diz que o que nos distingue como homens, o que faz de nós imagens de Deus, tal como Deus nos criou, segundo se lê em Génesis 1. 27, é o intelecto e a mente. Muitas vezes, porém, os piores erros e confusões que os seres humanos cometem, situam-se ao nível do pensamento, do exercício da sua inteligência e das suas capacidades espirituais.

Por isso, o "bom samaritano» de hoje também tem de ajudar a pensar! Em vez do pensamento erróneo de que somos filhos do caos ou do acaso, produto de uma evolução cega, é preciso ajudar a descobrir os sinais da presença de Deus, Criador do universo e amigo dos homens.

Em vez de uma vida egoísta e materialista, é preciso ajudar as mentes a abrir-se à justiça e à solidariedade, e à verdadeira caridade. E ajudar também a abrir os horizontes da esperança. Para além desta vida e até para além da morte, é preciso ajudar a descobrir e a desejar a vida eterna, que não nos tira deste mundo, mas nos impele a torná-lo mais justo e mais humano.

S. Paulo dizia, na 2ª leitura, que Jesus Cristo é "a imagem de Deus invisível". Enquanto homem, Jesus é aquela imagem perfeita que o primeiro homem, segundo o Génesis, devia ter sido, mas que, pelo pecado, não conseguiu ser. Agora, porém, na sua humanidade, unida à sua divindade, Jesus, o Homem novo, mostra-nos Deus de modo perfeito e transparente. O Deus invisível torna-se visível na humanidade de Jesus Cristo.

Por outro lado, Cristo é "o Primogénito de toda a criatura", no sentido de que está antes de toda a criação. "N'Ele foram criadas todas as coisas", diz S. Paulo. Tudo foi pensado n'Ele e em função d'Ele.

E Jesus Cristo é também "o Primogénito de entre os mortos". Foi o primeiro que se levantou vivo de entre os mortos, e não quer guardar para Si esta vitória, mas partilhá-la com todos. "Em tudo Ele tem o primeiro lugar", conclui S. Paulo.

Jesus foi também o primeiro no amor do próximo, e até no amor dos inimigos. Jesus, Filho de Deus, é o Bom Samaritano da humanidade.

Peçamos-Lhe que nos ajude, diante do próximo, a não passar adiante. Peçamos-Lhe que nos ajude a ver, a escutar, a avaliar cada situação, e a fazer o que for preciso: desde tratar as feridas do corpo às feridas da alma e da mente.

Peçamos-Lhe que nos ajude a olhar o outro e a tratá-lo como próximo, já que Ele próprio não excluiu ninguém, e a nada Se poupou, até ao ponto de, na Cruz, derramar o seu Sangue e dar a sua vida por todos os homens.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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