15 de Agosto de 2010 - Solenidade da Assunção de Nossa Senhora

Maravilhoso intercâmbio

Celebramos hoje a grande festa da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, a sua entrada, com todo o seu ser, corpo e alma, no mundo de Deus.

A "lógica" da Assunção de Nossa Senhora foi muito bem definida pelo Santo Padre Bento XVI, nestes termos: "Maria foi "elevada" para o lugar do qual o seu Filho tinha "descido" " (Angelus de 16.08.2010).

E evidente que falar de "elevação" ou de "lugar" é usar imagens espaciais para falar de realidades que não são de natureza espacial. A Assunção de Nossa Senhora não é como o levantar voo de uma ave ou de um avião, não é como o subir a um monte ou chegar à lua… É uma realidade de natureza completamente diferente.

Mas a nossa linguagem é limitada, e, como nota o Santo Padre, "esta linguagem, que é bíblica, exprime, em termos figurados, algo que nunca entra completamente no mundo dos nossos conceitos e das nossas imagens".

Qual é então a realidade teológica da Assunção, para além das imagens e dos símbolos?

Para a entender, o Santo Padre convida-nos a começar muito antes: na "Encarnação" do Filho de Deus. Quando veio ao mundo e Se fez homem, o Filho de Deus não apareceu na Terra "como por encanto", mas tornou-Se verdadeiro homem. "O Verbo fez-Se carne", diz S. João (João 1, 14). E um dia Jesus dirá: "Se alguém comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a minha carne pela vida do mundo" (João 6, 51) "Pois bem, - pergunta Bento XVI - de quem assumiu o Filho de Deus esta sua "carne", a sua humanidade concreta e terrena?" Porque - poderíamos acrescentar - a humanidade de Cristo não foi uma humanidade "a fingir", nem apenas aparente: Jesus foi verdadeiro homem. De quem recebeu, de quem assumiu Jesus esta sua humanidade?

E o Santo Padre responde: "Assumiu-a da Virgem Maria. Deus assumiu dela o corpo humano para entrar na nossa condição mortal".

E se foi assim, não nos custa a entender o que aconteceu, quando chegou ao fim a vida humana de Maria neste mundo. Assim o descreve o Papa: "Por sua vez, no final da existência terrena, o corpo da Virgem foi assumido no Céu por Deus e feito entrar na condição celeste. É uma espécie de intercâmbio (…)".

Na salvação dos homens, tudo é iniciativa de Deus, mas, ao mesmo tempo, Deus, diz Bento XVI, "num certo sentido, tem também necessidade de Maria, do "sim" da criatura, da sua carne, da sua existência concreta, para preparar a matéria do seu sacrifício: o corpo e o sangue, para oferecer na Cruz como instrumento de vida eterna e, no sacramento da Eucaristia, como alimento e bebida espirituais".

O que acontece, portanto, é que Maria dá ao Filho de Deus a sua humanidade, e em troca, nessa "espécie de intercâmbio", Jesus Cristo ressuscitado e glorificado oferece a sua Mãe uma glória e uma vitória semelhante à sua, e portanto não só espiritual mas também corporal. Maria entra no Céu não só com a sua alma, mas também com o seu corpo, esse corpo no qual foi gerado o Filho de Deus, para que, sem deixar de ser Deus, Se tornasse também verdadeiro homem.

Deus gosta destes "intercâmbios"… Pede um pouco, e dá tudo… Será que hoje anda continuam?

Voltemos a escutar o Santo Padre: "Queridos irmãos e irmãs, o que aconteceu em Maria, é realmente válido, de outros modos, também para cada homem e mulher, porque a cada um de nós Deus pede para O acolher, para pôr à sua disposição o nosso coração e o nosso corpo, toda a nossa existência, a nossa carne - como diz a Bíblia - para que Ele possa habitar no mundo".

E se é isso que nos pede, que nos dá em troca? Responde Santo Padre: "Se dizemos sim, como Maria, aliás, na própria medida deste nosso "sim", realiza-se também para nós e em nós este maravilhoso intercâmbio: somos assumidos na divindade d'Aquele que assumiu a nossa humanidade".

Quando participamos na Eucaristia, quando comungamos, isso é muito claro: "A Eucaristia é o meio, o instrumento deste recíproco transformar-se, que tem sempre Deus como fim e como actor principal. (…) Quem come deste Pão e vive em comunhão com Jesus, deixando-se transformar por Ele e n'Ele, é salvo da morte eterna: certamente morre como todos, participando também no mistério da paixão e da cruz de Cristo, mas já não é escravo da morte, e ressurgirá no último dia, para gozar da festa eterna com Maria e com todos os Santos".

A Virgem Santa Maria ofereceu a Deus todo o seu ser, para que Jesus pudesse estar connosco e dar a vida por nós. A sua oferta, uma vez que não tinha pecado, foi perfeita e total, e por isso a sua participação na vitória de Cristo também foi plena e total: não experimentou a corrupção da morte, e o Filho de Deus elevou-a consigo na dupla dimensão do seu ser, corpo e alma.

A nossa entrega, infelizmente, é limitada, mas pode ser mais perfeita, e o nosso "sim" pode tornar-se sempre mais parecido com o de Maria.

Peçamos à Virgem Santa, que nos ajude a ser generosos, para começarmos a saborear já na Terra a alegria do Céu. E sobretudo peçamos-lhe que não deixe ninguém desistir de alcançar depois desta vida essa alegria plena, que Ela própria já recebeu de Deus, mas que, como mãe, deseja ardentemente poder partilhar, e por isso a pede incessantemente a Deus, com todos os seus filhos.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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