29 de Agosto de 2010 - Domingo XXII do Tempo Comum

Sabe quem foi Beethoven?

Pensei dar este título à homilia de hoje, e já vou explicar porquê. Mas primeiro vamos começar pelo Evangelho, que, ao falar-nos de um banquete em que Jesus participou, nos leva a dar graças a Deus, por termos sido convidados a tomar parte num outro banquete: este banquete tão especial que é a Eucaristia, a Santa Missa.

Aqui nos é servido o Pão da Palavra de Deus e depois o próprio Corpo e Sangue de Cristo, na Comunhão sacramental.

E se já agradecemos pela Palavra que ouvimos, o nosso agradecimento ainda será maior pela comunhão que recebemos, alimento para a viagem da vida e penhor de vida eterna.

Sempre que O recebemos em estado de graça, Jesus une-nos ao seu sacrifício, à sua "auto-doação", e transforma-nos segundo a sua imagem, dá-nos os seus sentimentos.

E mesmo que alguém, num determinado momento ou até habitualmente não possa comungar, nem por isso está privado de participar na grande Acção eucarística, que acontece no Altar, nem de ver as humildes espécies sacramentais do pão e do vinho, na Hóstia e no Cálice, em que se torna presente, por nosso amor, o próprio Jesus vivo.

No tempo em que fiz a Primeira Comunhão, e ainda nos anos seguintes, o sacerdote dizia aos comungantes: "O Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde a tua alma para a vida eterna". Hoje diz-se apenas: "O Corpo de Cristo", mas este alimento sagrado tem o mesmo fim: unir-nos a Jesus hoje, para um dia O podermos contemplar na glória eterna.

Avançando um pouco no Evangelho, vemos que Jesus, quebrando o círculo das amizades egoístas, desafiou o seu anfitrião a convidar para a sua mesa "os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos".

Aqui está um preceito do Senhor que possivelmente nós próprios nunca cumprimos, ou só muito raramente. Essa omissão envergonha-nos e pedimos perdão a Jesus.

Mas talvez, pelo menos, procuremos ajudar a matar a fome a pessoas necessitadas, por intermédio de instituições ou serviços, como a Mesa de Nossa Senhora, que, na nossa Paróquia, há já quase quinze anos, serve um almoço a algumas dezenas de pessoas, todos os dias. Devemos continuar a rodear do nosso carinho e do nosso apoio a Mesa de Nossa Senhora, para que alguns dos mais pobres vejam um pouco minoradas as suas carências.

Mas há outros pobres, além dos que têm fome, e que são o produto, para não dizer as vítimas, da pseudo-cultura que nos domina.

E volto agora ao título desta homilia. Há dias, um conhecido escultor português, numa entrevista na televisão, manifestou a sua grande preocupação por haver cada vez mais pessoas que não sabem, por exemplo, quem foi Beethoven, ou que seriam muito capazes de responder, se lhes perguntassem, que foi um jogador de um clube de futebol alemão…

Eu partilho esta preocupação pela falta de cultura da nossa sociedade, mas não escondo que há outra ignorância que me aflige ainda mais: a ignorância dos que nunca aprenderam a rezar, nem sequer o Pai Nosso, dos que não querem saber de religião para nada, dos que só conhecem a Igreja por ser contra o aborto, etc., etc.

Mas ainda pior do que isto, ainda pior do que a ignorância religiosa, é o não querer saber mesmo, o não querer pensar, o não querer procurar o sentido, o não querer saber absolutamente nada da verdade.

Não se pode renunciar à procura da verdade. A primeira leitura dizia: "O coração do sábio compreende as máximas do sábio e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria".

Há poucos dias, o Santo Padre Bento XVI, falando de novo de Santo Agostinho, que ontem celebrámos, disse que "há uma espécie de medo do silêncio, do recolhimento, do pensar as próprias acções, do sentido profundo da própria vida; frequentemente prefere-se viver o momento fugaz, iludindo-se com a ideia de que traz felicidade duradoura, prefere-se viver assim pois parece mais fácil, com superficialidade, sem pensar; há medo de buscar a Verdade ou talvez haja medo de que a Verdade seja encontrada, que agarre e mude a vida, como aconteceu com Santo Agostinho".

Aos que estejam a viver assim, "como se Deus não existisse", o Papa pediu "que não tenham medo da Verdade, não interrompam o caminho para ela, não deixem de buscar a verdade profunda sobre si e sobre as coisas, com os olhos interiores do coração. Deus não falhará em oferecer a Luz para fazer ver e Calor para fazer sentir, ao coração que ama e que deseja ser amado".

E nós, uma vez mais, temos de ser instrumentos, pelo menos temos de saber mostrar o caminho, Temos de ser amigos de todos, na esperança de os tornar amigos de Jesus. Também dos que parecem muito distantes, para que um dia possam experimentar como nós a alegria da mesma fé e da mesma comunhão, neste banquete sagrado da terra e no banquete eterno do Céu.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

Arquivo