12 de Setembro de 2010 - Domingo XXIV do Tempo Comum

O amor que transforma o mundo

Quem se encontra com Jesus, experimenta uma proximidade que não encontra em mais ninguém, mas que não é simples tolerância, não é cumplicidade, é amor que acolhe, perdoa, purifica, e renova.

Hoje, no Evangelho, S. Lucas diz-nos que "os publicanos e os pecadores se aproximavam todos de Jesus, para O ouvirem". Eram pessoas que, por diversas razões, todos os outros desprezavam. Alguns tinham enriquecido ilicitamente. Outros, provavelmente, não cumpriam os principais deveres da Lei de Moisés.

Mas vinham todos ouvir Jesus! A sua palavra era diferente. Era uma palavra amiga, calorosa, não era fria, nem distante, nem formal; quando ouviam Jesus, sentiam-se acolhidos, compreendidos, e ao mesmo tempo sentiam-se desafiados a mudar. Jesus falava-lhes de Deus, e da possibilidade de uma vida diferente. À mesa de uma refeição ou num diálogo mais íntimo, poderiam reconhecer com sinceridade e arrependimento os erros da sua vida. E muitos, de certeza, partiriam desses encontros com Jesus, purificados e decididos a começar de novo.


Jerome Nadal Jesus conta a parábola da ovelha perdida e da dracma (1593)

S. Paulo dizia, na 2ª leitura: "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, e eu sou o primeiro deles. Mas alcancei misericórdia, para que em mim, primeiramente, Jesus Cristo manifestasse a sua magnanimidade". S. Paulo reconhece que foi "blasfemo, perseguidor e violento," mas alcançou misericórdia! E quem não necessita de alcançar misericórdia? E quem nos pode oferecer esta misericórdia, a não ser Jesus Cristo, Filho e Deus? Só Ele a pode dar aos homens da parte do Pai. Só d'Ele nos pode vir uma graça mais poderosa do que todo o mal, uma graça superabundante, como diz S. Paulo, "com a fé e a caridade que temos em Cristo Jesus".

Certos escritores que periodicamente deformam a imagem de Jesus, escrevem romances que vendem milhões, ganham muito dinheiro com isso, mas deixam os homens na sua miséria e na sua solidão. Não precisamos para nada do «Código Da Vinci», que é uma fraude, nem do «Evangelho segundo Jesus Cristo», de José Saramago, que é uma ficção indigna e sem fundamento.

Nós precisamos do verdadeiro Jesus, tal como O apresentam, nos Evangelhos, aqueles que O viram e ouviram, ou que recolheram zelosamente os seus testemunhos. Precisamos de Jesus, Filho de Deus, que se aniquilou a Si mesmo, para nos revelar o infinito valor que cada ser humano, mesmo quando é frágil e pecador, tem aos olhos de Deus Pai.

Para nos confirmar nesta certeza, e também para responder aos seus adversários, Jesus contou três parábolas muito belas: a ovelha perdida, a dracma perdida e o filho perdido. Nas duas primeiras parábolas, que hoje lemos, Deus é representado na atitude de vir à procura do pecador. Foi isto, precisamente, que o Filho de Deus veio fazer ao mundo: veio à nossa procura. e não desiste de nos procurar, a cada um e a todos, e é grande a sua alegria quando nos encontra, e correspondemos ao seu amor.

Moisés, como ouvimos na lª leitura, intercedeu confiadamente pelo seu povo, e foi escutado por Deus. Foi uma hora muito intensa e dramática. Mas Jesus, Filho de Deus, foi mais longe que Moisés: fez-Se homem como nós, e ofereceu a sua vida por nós. Com toda a justiça e com profunda gratidão fazemos nossa esta aclamação de S. Paulo dirigida ao nosso Redentor: "Ao Rei dos séculos. Deus imortal, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amen".

Quando o próprio Deus vem à nossa procura, precisamos de nos deixar encontrar, e depois temos de mudar, para sermos aquilo que verdadeiramente somos chamados a ser.

Mas hoje há a ideia de que ninguém tem de mudar nada, os defeitos são vistos como qualidades, e por vezes até comportamentos a berrantes são vistos como sem fossem motivo de orgulho.

No próximo domingo, Bento XVI vai beatificar John Henry Newman, um sacerdote anglicano que, no termo de um exigente processo de reflexão, se converteu ao catolicismo, e mais tarde foi nomeado Cardeal pelo Papa Leão XIII, em 1879. Faleceu em 11 de Agosto de 1890.

Newman sentiu-se sempre chamado a continuar a caminhar, a nunca parar no caminho da conversão a Deus e à verdade. Numa das suas obras, escreveu: "Aqui na terra viver é mudar, e a perfeição é o resultado de muitas transformações". E o então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, escreveu num estudo sobre Newman: "Ao longo de toda a sua vida, Newman foi alguém que se converteu, alguém que se transformou, e deste modo continuou a ser sempre ele mesmo, e chegou a ser cada vez mais ele mesmo".

Para sermos nós mesmos, precisamos de nos deixar transformar e converter pela misericórdia de Deus, revelada em Jesus Cristo. É o que queremos pedir hoje confiadamente por Intercessão de Maria, refúgio dos pecadores e Mãe de misericórdia.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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