19 de Setembro de 2010 - Domingo XXV do Tempo Comum

Amigos de Deus

Há pessoas que são muito boas a fazer o bem, e outras que também são, não digo boas, mas, aparentemente, muito «espertas», revelando uma grande dose de inteligência a fazer o mal.

Assim aconteceu com este administrador infiel de que Jesus fala no Evangelho, que é elogiado "por ter agido com esperteza".

Que fez ele afinal? Uma operação financeira muito simples: diminuiu o juro que os devedores do seu senhor teriam de pagar, e assim a dívida de cada um deles ficou reduzida a metade.


Jovens com Bento XVI após a Missa na Catedral de Westminster (19.09.10)

Deste modo, pensava arranjar amigos dispostos a ajudá-lo, quando fosse despedido. Com este procedimento, desonesto e imoral, prejudicou gravemente o seu patrão. E apesar disso, não foi criticado, mas elogiado! E quem o elogiou foi o seu próprio patrão, embora este tenha sido prejudicado nos seus interesses financeiros.

Estranho elogio, mas talvez não tão estranho como parece, porque o patrão, provavelmente, tinha a mesma mentalidade do empregado, e achou graça à sua esperteza, o que não o terá impedido de o despedir ou de o denunciar à justiça...

No fundo, a única coisa que lhe interessava era o resultado final. E também para muitas pessoas, o que interessa é que um negócio dê lucro, quaisquer que sejam os meios para lá chegar; ou que uma mentira seja aceite como verdade, desde que a maioria concorde; ou que um determinado comportamento seja aceite como legal, mesmo que seja profundamente imoral. São pessoas para quem a ética não interessa, para quem a consciência não interessa. O que interessa é atingir um determinado objectivo, mesmo que, pelo caminho, seja preciso pisar muitos princípios éticos, se não mesmo muitas pessoas e até muitas vidas.

Nos últimos tempos, a consciência e a prática religiosa têm enfraquecido, sobretudo em alguns dos países mais desenvolvidos e ricos, e o resultado tem sido não só mais violência, mais dureza na relação entre as pessoas, mas também mais desprezo pelos princípios éticos, nomeadamente no mundo dos negócios, o que, concretizando-se em sectores decisivos, foi a grande causa da crise económica que tem afligido o mundo.

Na primeira Missa que celebrou no Reino Unido, no passado dia 16, em Glasgow, na Escócia, Bento XVI sublinhou a importância que pode ter, cada vez mais, a autêntica experiência religiosa para a humanização do mundo.

Disse o Santo Padre: "Hoje em dia, alguns buscam excluir da esfera pública as crenças religiosas, relegá­las para o âmbito privado, objectando que são uma ameaça para a igualdade e a liberdade. No entanto, a religião é, na realidade, garantia de autêntica liberdade e respeito, que nos move a olhar cada pessoa como um irmão ou irmã".

Mas, além disso, quem tem fé, tem uma grande responsabilidade em relação ao mundo. Por isso o Papa convidou todos os cristãos, particularmente os fiéis leigos, em virtude da sua vocação e missão baptismal, a serem, não somente exemplo de fé em público, mas também a desenvolverem, nas diversas instâncias públicas, "os argumentos da sabedoria e da visão de mundo que decorrem da fé".

Os cristãos têm de intervir mais, têm de fazer ouvir a sua voz, têm de tirar as consequências que resultam da fé, sabendo que assim estão a colaborar eficazmente para melhorar o mundo.

Disse-o com palavras fortes o Santo Padre: "A sociedade actual necessita de vozes claras que defendam o nosso direito a viver, não numa selva de liberdades autodestrutivas e arbitrárias, mas numa sociedade que trabalhe pelo verdadeiro bem-estar dos seus cidadãos e lhes ofereça orientação e protecção na sua debilidade e fragilidade". E concluiu, dirigindo-se aos católicos da Escócia: "Não tenhais medo de oferecer este serviço aos vossos irmãos e irmãs, e aofuturo de vossa amada nação".

A verdade é que, para que assim aconteça, temos que ser bons no que fazemos! Se tantos são «espertos» no mal, é preciso que muitos mais sejam «bons- e mesmo muito bons a fazer o que é bem.

E não basta que sejamos bons, é preciso que sejamos santos! Foi este o novo desafio, talvez inesperado, que fez Bento XVI, na manhã de 6s feira, a cerca de 4 mil estudantes católicos britânicos. A todos disse: "Espero que entre os que me escutam hoje esteja algum dos futuros santos do século XXI".

E explicou: "Quando vos convido a ser santos, peço que não vos conformeis em ser de segunda linha, mas que aspireis a um "horizonte maior". "Não vos conformeis em ser medíocres".

Um pouco depois, insistiu: "Não vos contenteis com ser medíocres", e nessa altura acentuou um ponto especialmente caro para os mais jovens: a abertura da ciência à dimensão religiosa e a valorização, por parte da religião, do contributo da ciência. Disse o Santo Padre: "O mundo necessita de bons cientistas, mas uma perspectiva científica torna-se perigosa, se ignorar a dimensão religiosa e ética da vida, da mesma maneira que a religião se torna limitada, se rejeitar a legítima contribuição da ciência na nossa compreensão do mundo".

Mas o grande ênfase do Papa foi posto no seu caloroso convite aos jovens a serem "amigos de Deus": "Quando se começa a ser amigo de Deus, tudo na vida começa a mudar. À medida que O conheceis melhor, experimentais o desejo de reflectir um pouco da Sua infinita bondade na vossa própria vida".

Este desafio é também para nós, é para todos: sermos amigos de Deus, para podermos "evangelizar a cultura" e sermos, no nosso mundo, um reflexo, que será sempre imperfeito, mas que desejamos seja o mais fiel possível, da bondade de Deus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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