3 de Outubro de 2010 - Domingo XXVII do Tempo Comum

O bom combate

Houve um dia em que os Apóstolos pediram a Jesus: " «Aumenta a nossa fé» ". E o mesmo pedido fazemos nós hoje: "«Aumenta a nossa fé»". Jesus, que Te conheçamos cada vez melhor, aceitando sem reservas tudo o que nos ensinas, e cumprindo sempre com alegria a Tua vontade.

Algumas pessoas julgam que se rebaixam, quando acreditam em Deus, mas, se pensarem bem, perceberão que é uma honra para a liberdade e para a inteligência do homem "confiar em Deus e aderir às verdades por Ele reveladas" (Catecismo da Igreja Católica, n. 154).

Como é que 'conseguimos' ter fé? Não será um desafio demasiado exigente para as nossas capacidades? Na verdade, a Igreja ensina que "o acto de fé só é possível pela graça e pelos auxílios interiores do Espírito Santo" (Catecismo da Igreja Católica, n.154).

Para que sejamos capazes de dizer: «Eu creio», precisamos da ajuda da graça de Deus. Precisamos dos auxnios interiores do Espírito Santo, que move o nosso coração e o converte para Deus, e ao mesmo tempo abre os olhos do nosso entendimento, dando-nos essa leveza, essa facilidade em aceitar e aderir à verdade que é própria da fé (cf. Concílio Vaticano II, Constituição Dei Verbum, n. 5).


B. E. Murillo, Santo Agostinho lavando os pés a Cristo (1650-1655)

Quando o Espírito Santo nos toca, é tão fácil acreditar! S. Tomás de Aquino explica muito bem este dinamismo da fé: "Crer é um acto da inteligência, que presta o seu assentimento à verdade divina, por determinação da vontade, movida pela graça de Deus" (Summa Theologiae 11-11. q. 2. a. 9).

O primeiro passo é a conversão do coração: a graça de Deus converte-nos, nessa altura passamos a querer o que Deus quer, a amar o que Deus ama, e então a nossa inteligência eleva-se acima de si própria, e adere ao mistério de Deus, que nos ultrapassa infinitamente, mas que desde então passa a encher de luz todo o nosso ser. Pela fé, olhamos para Jesus Cristo, e reconhecemos o fascínio da sua Pessoa, a verdade das suas palavras, o poder dos seus milagres e a força da sua morte e ressurreição.

Aonde nos leva a fé? Depois do pedido que os Apóstolos Lhe fizeram, Jesus disse-lhes: "«Se tivésseis fé comparável a um grão de mostarda, diríeis a essa amoreira: 'arranca-te e vai plantar-te no mar', e ela havia de obedecer-vos» ".

Que significa isto, na prática, para cada um de nós? Significa, em primeiro lugar, que, por amor e fidelidade a Jesus, podemos lutar por ser melhores, podemos lutar por sermos santos. A fé leva-nos a querer agradar a Jesus, e, portanto, a desejar não O ofender, a desejar vivamente não O desgostar em nada. É isso que fazem as pessoas que se amam!

Em segundo lugar, a fé leva-nos a ter uma enorme ambição de levar Jesus aos que não O conhecem ainda ou que se esqueceram d'Ele. Pela fé, é grande em nós o desejo de que muitas outras pessoas ­gostaríamos que fossem todas- se encontrem intimamente com Jesus na comunhão da sua Igreja.

Na 2ª leitura, S. Paulo, que está na prisão, desafia Timóteo a continuar a anunciar Jesus, sem ter medo de nada: «Não te envergonhes de dar testemunho de Nosso Senhor, nem te envergonhes de mim, seu prisioneiro. Mas sofre comigo pelo Evangelho, confiando no poder de Deus». E já antes tinha dito: «Deus não nos deu um espírito de timidez, mas de fortaleza, de caridade e moderação».

É preciso que também o nosso testemunho não seja tímido, mas corajoso, e saiba aproveitar todas as oportunidades para ajudar os outros a aproximar-se de Deus.

Finalmente, a fé leva-nos a querer conhecer e a entender cada vez melhor toda a riqueza das verdades reveladas por Deus, a que damos o nome de «mistérios da fé».

De uma forma muito expressiva, Santo Agostinho dizia: "Compreende, para acreditares; acredita, para compreenderes" (" Intellige ut credas: crede, ut intelligas").

Isto aplica-se em particular à catequese que damos ou aos ensinamentos que transmitimos, como explica logo depois o próprio Santo Agostinho: "Compreende a minha palavra, para que possas acreditar; e acredita na Palavra de Deus, para que possas compreendê-la" (Sermão 43, 9). A acentuação de Santo Agostinho é posta na fé: Quem acredita, compreende!

Aos jovens, escreveu recentemente Bento XVI: "Só a Palavra de Deus nos indica o caminho autêntico, só a fé que nos foi transmitida é a luz que ilumina o caminho' (Mensagem para a Jornada Mundial da Juventude de 2011, n. 2).

S. Paulo dizia a Timóteo: «Guarda a boa doutrina, que nos foi confiada, com o auxílio do Espírito Santo, que habita em nós».

Precisamos de guardar a fé como um tesouro precioso. E se temos dúvidas ou dificuldades, devemos apresentá-las a quem nos possa ajudar, em particular na Confissão ou na Direcção Espiritual, para que a nossa fé seja cada vez mais plena e profunda, e um dia possa dar lugar à contemplação da Santíssima Trindade, na luz e na glória do Céu.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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