17 de Outubro de 2010 - Domingo XXIX do Tempo Comum

A Criação e a oração

O Evangelho de hoje termina com uma pergunta de Jesus: " «Mas quando voltar o Filho do Homem, encontrará fé sobre a terra?» " Jesus não Se está a referir àqueles que, por alguma razão, ainda não têm fé, mas sim àqueles que, tendo tido fé, a vieram a perder. Que poderá estar na origem dessa perda da fé, desse abandono da fé ?

Pode haver muitas causas, muitas explicações, mas, em alguns casos, sobretudo no nosso tempo, isso pode dever-se à convicção, naturalmente errada, de que existe oposição entre a ciência e a fé. Se a ciência diz (ou parece dizer) algo que se opõe à fé, então opta-se pela ciência e abandona­se a fé.

Recentemente, um conhecido físico e cosmólogo inglês, Stephen Hawking, publicou um novo livro em que afirma que a criação de um universo (ou de muitos universos) "não requer a intervenção de um ser sobrenatural ou Deus". Mais ainda, estes universos "surgem naturalmente a partir de leis físicas" .

Diante destas afirmações, algumas pessoas poderiam pensar: «Então, se a ciência explica tudo, a fé já não é necessária!»


John Everett Millais, Aarão e Hur sustentam os braços de Moisés (1871)

E não só a fé, também a própria reflexão filosófica parece já ultrapassada e inútil. As grandes interrogaçoes sobre o mundo e da vida, que apaixonaram e absorveram pensadores e filósofos durante milénios, pertenceriam agora ao domínio da ciência, o que significaria, segundo afirma expressamente este autor, que "a filosofia está morta"! Mesmo sem sermos especialistas, começamos logo a «desconfiar» se não haverá aqui algum exagero ou alguma imprecisão: será que a ciência já consegue mesmo explicar por que existe o universo (ou os possíveis muitos universos)?

Este livro de Stephen Hawking já foi comentado por outros autores, e um deles, Stephen Barr, professor de Física numa universidade norte-americana, escreveu, entre outras coisas, o seguinte: "As ideias propostas no livro de Hawking não constituem qualquer ameaça para a doutrina bíblica da criação".

E não constituem ameaça, por uma razão muito simples: porque ele não está a falar da criação a «partir do nada», que só Deus pode realizar, mas sim de uma mudança ou transformação a partir de «algo».

A tese de Hawking é que o universo actual pode ter vindo de um estado de «não-universo», que, por efeito de determinadas leis físicas, teria passado a um estado de «universo».

"Seria isto - pergunta Barr - uma criação no sentido bíblico?" A resposta é «não», porque não começa do nada. "O estado de «não-universo» nestas teorias, não é o «nada», mas sim algo muito definido: é um particular estado científico entre muitos outros, com as suas propriedades e características bem definidas.

Um exemplo que nos pode ajudar a compreender melhor esta questão é o que dá este professor americano: uma conta bancária, que a dado momento pode estar a zeros (ou até negativa), mas que depois, ao ser feito um depósito ou uma transferência, já fica com saldo, eventualmente até de milhões de euros...

Assim é o universo de Hawking: a sua teoria é que, hipoteticamente, tendo estado a «zeros», pelas suas próprias leis «algo» aconteceu (uma "flutuação quântica"), e assim começou este imenso universo em que vivemos.

Mas isso não é criação: é transformação, é mudança, é mudança de estado. As transformações e mudanças acontecem segundo as leis físicas, que a ciência procura conhecer. Mas a criação, tal como a Bíblia a apresenta e a teologia cristã a entende, é outra coisa, é chamar algo do nada ao ser, e isso só aquele Ser omnipotente e bom, a que chamamos Deus, o pode realizar.

Deus chama do nada ao ser a sua criação, e dota-a de leis, que comandam no tempo as suas transformações. Deus não precisa de intervir nas mudanças que vão acontecendo, estas funcionam por si - de resto admiravelmente - mas Deus tudo sustenta no ser e, sem o seu poder criador, tudo recairia no nada...

Deus intervém, sim, na história, suscitando profetas, e sobretudo enviando o seu próprio Filho, e intervém nas nossas vidas e também, coisa assombrosa, permite-nos intervir, não só pela acção, mas também pela oração, como nos ensinam as leituras de hoje.

Moisés mantinha as mãos erguidas. e o povo levava a melhor sobre os seus inimigos. Mas também Moisés, apesar de ser mediador entre Deus e os Hebreus. precisava do apoio do povo (o que mostra a nossa responsabilidade em apoiar o nosso Papa. os bispos e os sacerdotes).

No Evangelho, aquela viúva pedia justiça ao juiz iníquo: 'Faz-me justiça contra o meu adversário'. E, apesar de ser um juiz injusto, ele ouviu-a.

E nós, que coisas pedimos ao Juiz divino, que é sumamente bom e omnipotente? Com plena confiança, também nós suplicamos a Deus Pai, por Jesus Cristo, no Espírito Santo, que faça justiça contra o nosso Adversário, isto é, que o mal não vença no mundo, e que o Maligno não leve a melhor no coração dos homens. Pedimos que não vença a violência, que não vença a indiferença, que não vença a ambição desordenada, mas que a misericórdia de Deus se revele mais forte, que a vontade de Deus seja feita, e em todos brilhe e prevaleça a luz da fé e do amor verdadeiro.

Seremos ouvidos? Sim, se pedirmos "sem desanimar", mesmo quando parece que já não há nada a fazer, e mesmo quando tivermos a tentação de pensar que Deus não nos ouve.

Mesmo quando tudo parece perdido, continuamos a pedir, e temos a certeza de que Deus nos ouvirá sempre, e muito para além do que possamos pedir ou imaginar.

E também pedimos que o passar do tempo não diminua a nossa fé, mas a fortaleça cada vez mais! E que, por intercessão da Virgem Maria, o correr da vida não afrouxe o amor, mas o purifique e intensifique cada vez mais!

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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