7 de Novembro de 2010 - Domingo XXXII do Tempo Comum

Também há muita fidelidade !

A 1ª leitura fala-nos de sete irmãos que viviam no Egipto, no séc. II a. C., e foram tentados a desobedecer frontalmente a uma lei do seu povo. Mas nem sequer era uma lei divina, era apenas uma lei humana. Por isso, podiam ter cedido, porque as leis «positivas» não obrigam, quando há um grave incómodo. Mas não puseram a hipótese de desobedecer, e disseram: " «Estamos prontos para morrer, antes que violar a lei dos nossos pais» ". E os sete foram mortos com grande violência e crueldade, como nos descreve o capítulo VII do 2º Livro dos Macabeus.

O que estava em jogo não era comer ou não um determinado alimento, era o dever de não renegar a fé. E para não renegar a fé, temos que estar dispostos a ir até onde for preciso, até ao sacrifício da própria vida.


Julius Schnorr von Carolsfeld, O martírio dos sete irmãos (1826)

Neste caso concreto, a imposição do rei egípcio visava a destruição da religião verdadeira. Os sete irmãos não podiam ceder de maneira nenhumá. Antes morrer, do que atraiçoar a fé. Foi esta a sua decisão, e tomaram-na com perfeita consciência e lucidez.

Também nós acreditamos que Deus que não permite que o nosso «eu» se extinga e mergulhe no nada. E um dia - no "último dia" (João 6, 39-40) - "Deus, na sua omnipotência, restituirá definitivamente a vida incorruptível aos nossos corpos, unindo-os às nossas almas pela virtude da ressurreição de Jesus" (Catecismo da Igreja Católica, n. 997).

É esta a nossa profunda esperança, é esta a fé segura e firme dos que crêem em Jesus ressuscitado. E, por seu amor, procuramos também não ceder, mesmo em coisas que parece que não têm importância nenhuma, ou que muita gente acha normal.

Com os sete irmãos e sua mãe, renovamos hoje o nosso desejo de plena fidelidade aos nossos compromissos cristãos. Mas o fundamento da nossa fidelidade não é apenas a nossa boa vontade, é a própria fidelidade de Deus. Como nos ensina Jesus no Evangelho, o Deus em quem acreditamos "não é um Deus de mortos, mas de vivos".

Jesus refere-Se expressamente a Abraão, Isaac e Jacob, para ensinar que, embora estes Patriarcas tenham morrido, permanece uma relação pessoal entre Deus e eles, pois vivem em Deus. Podemos concluir com verdade que as suas almas são imortais, e que eles hão-de ressuscitar com o seu próprio corpo.

No Evangelho de hoje, Jesus ensina-nos ainda que na vida futura não existirá o matrimónio entre o homem e a mulher, que é tão importante na vida presente. Mas, na vida eterna, o ser humano viverá o dom total de si mesmo e uma perfeita comunhão com os outros, graças à sua plena união com Deus, sem a união exclusiva a uma outra pessoa, e sem a geração de novos seres. quejá não é necessária.

Na Igreja há alguns fiéis - sacerdotes, religiosos e também cristãos leigos - que, por amor do Reino dos Céus, não se casam, isto é, abraçam o celibato apostólico ou a virgindade consagrada, e esta opção de vida não tem apenas uma utilidade «funcional», uma vez que lhes permitirá estar mais plenamente disponíveis para o trabalho do Reino.

Essa situação de vida, idêntica à que viveu o próprio Jesus, é também um testemunho do que será a vida futura para além da morte. "Neste sentido, o celibato é uma antecipação", é um sinal e um anúncio do futuro a que Deus chama a todos, na eternidade. Assim o apresentou Bento XVI, na grande vignia do encerramento do Ano Sacerdotal, no passado dia 10 de Junho.

O Santo Padre chamou a atenção para um grande problema do mundo de hoje: "Já não se pensa no futuro de Deus: só o presente deste mundo parece suficiente. Queremos ter só este mundo, viver só neste mundo". Mas assim "fechamos as portas à verdadeira grandeza da nossa existência". Percebe-se então que "o sentido do celibato como antecipação do futuro é precisamente o abrir estas portas, tornar o mundo maior. mostrar a realidade do futuro que deve ser vivido por nós como presente".

Hoje há muita gente que não se casa só para não assumir compromissos, mas o celibato não tem nada a ver com "a mentalidade egoísta daqueles que não se querem casar para não terem de aceitar um vínculo definitivo, aquela mentalidade que significa "um «não» ao vínculo, um «não» à definitividade, um ter a vida só para si mesmos"...

O "celibato é precisamente o contrário: é um «sim» definitivo, é um deixar-se guiar pela mão de Deus, entregar-se nas mãos do Senhor, e portanto é um acto de fidelidade e de confiança", e, nesse sentido, é "um acto que supõe também a fidelidade do matrimónio".

"O celibato - acentuou o Santo Padre - confirma o «sim» do matrimónio com o seu «sim» ao mundo futuro, e assim queremos ir em frente e tornar presente este «escândalo» que surpreende a muitos, que é uma fé que baseia toda a existência em Deus".

Às vezes há falhas e infelizmente até existem, como notou Bento XVI, "os escândalos secundários das nossas insuficiências, dos nossos pecados, que obscurecem o verdadeiro e grande escândalo, e fazem pensar: «Mas eles não vivem realmente no fundamento de Deus!»".

Mas, graças a Deus, "também há muita fidelidade!" Com esta consoladora certeza, o Santo Padre quis deixar a todos este convite: "Rezemos ao Senhor para que nos ajude a tornar-nos livres dos escândalos secundários, para que torne presente o grande «escândalo» da nossa fé: a confiança, a força da nossa vida, que se funda em Deus e em Jesus Cristo!"

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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