14 de Novembro de 2010 - Domingo XXXIII do Tempo Comum

O sol de justiça

Por termos fé em Deus e em Jesus ressuscitado, acreditamos que o mundo não está fechado em si mesmo, mas aberto à vinda de Deus. Esta vinda acontece já hoje de muitos modos, a maior parte dos quais para nós invisíveis, mas acontecerá também um dia diante do olhar de todos, bons e maus. A esse dia a Sagrada Escritura chama-lhe «o Dia do Senhor».

O Profeta Malaquias fala-nos hoje desse "Dia do Senhor", em que a arrogância, a soberba e toda a maldade arderão como a palha ao fogo. Para os justos, porém, "nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação".

Não nos devemos admirar de que o profeta Malaquias, (cujo nome significa: «o mensageiro do Senhor»), recorra à imagem do sol para falar de Deus. Podíamos estranhar que um profeta recorresse a uma imagem muito cara a outros povos, que não conheciam o verdadeiro Deus, e que adoravam o sol como se fosse um deus.

Mas é evidente que o sol não é Deus, nem sequer é divino, mas o que o profeta anuncia é que, assim como o sol, ao brilhar na Terra, alegra todas as coisas, assim também Deus vai trazer ao seu povo, e em especial aos mais débeis e oprimidos, luz, alegria,justiça, salvação.


Pe. Marco Ivan Rupnik, Cristo ressuscitado, mosaico
Capela Redemptoris Mater, Palacio Apostólico, Vaticano

A imagem do sol foi retomada já no Novo Testamento, e aplicada ao futuro nascimento de Jesus. Quando o pai de João Baptista, Zacarias, no seu cântico a que chamamos o «Benedictus», quis agradecer a Deus pelo dom desse menino que seria chamado "Profeta do Altíssimo", agradeceu a salvação que muito em breve iria ter lugar, "graças ao coração misericordioso do nosso Deus, que das alturas nos visita como sol nascente, (em latim: «oriens ex alto») para iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz" (Lucas 1, 78).

Os cristãos dos primeiros tempos gostavam de ver em Jesus o verdadeiro sol, que veio dissipar as trevas e vencer a morte. Mas Jesus não éapenas o sol que nasceu um dia humildemente, por entre as brumas da manhã, que só lentamente se dissiparam, e que por vezes fica oculto pelas densas nuvens dos pecados dos homens; Ele é também o sol que brilhará um dia, em todo o seu esplendor, quando vier na sua glória.

E foi por estarem à espera desse dia, que os cristãos passaram a fazer a sua oração - sobretudo na sua forma comunitária voltados para Oriente, na direcção doSol nascente.

Sabemos que, na Antiguidade, também aquelas pessoas que prestavam culto ao Sol, realizavam as suas práticas religiosas voltadas para o Oriente (ou Leste), onde «nasce» o Sol.

Mas o cristianismo transforma este gesto e dá-lhe um novo sentido: o verdadeiro sol é Jesus Cristo. O nascer do sol evoca a vinda gloriosa de Cristo. E assim, os cristãos, que esperam em oração a segunda vinda do Senhor, voltam-se para o oriente, na ardente expectativa dessa vinda.

Esta «orientação» estendeu-se desde a mais remota antiguidade à liturgia, e em especial à celebração da Missa. Daqui resultaram determinadas consequências, que não iremos agora comentar

O que gostaria hoje de sublinhar é que, quando celebramos a Missa, não somos um grupo de amigos que se reúne para festejar algo, nem somos uma simples assembleia, preparada para uma grande celebração, mas uma comunidade orante, voltada em atitude de adoração para o seu Senhor e na expectativa do seu retorno definitivo.

É importante que aqueles que se reúnem para celebrar a Missa não se voltem para si próprios, nem celebrem em circuito fechado, mas permaneçam sempre «voltados para o Senhor» (segundo o título de um interessante livro de um sacerdote inglês, do Oratório de S. Filipe de Neri, de Londres, de o Pe. Uwe Michael Lang).

E é importante que os sacerdotes não se sintam como animadores de um espectáculo, mas assumam o seu papel de "servos humildes e discretos do mistério celebrado", segundo a expressão de Max Thurian, (monge de Taizé, depois convertido ao catolicismo), ou simplesmente, de «servidores do altar», (como diria o Sr. Pe. Horácio Neto), além de, evidentemente, anunciadores de uma palavra que não é sua, a Palavra de Deus, e promotores da unidade e da comunhão entre todos e de todos com Cristo.

O Evangelho de hoje ensina-nos também que, no meio da agitação ou das confusões desta vida, é essencial que o nosso coração esteja sempre em Deus.

Pode haver grandes dificuldades, lutas, incompreensões, perseguições, mas o que importa é que o nosso olhar se dirija sempre para Jesus, que virá ao nosso encontro em todas as circunstãncias.

E há sempre pelo menos um lado bom nessas dificuldades, como diz Jesus: "Assim tereis ocasião de dar testemunho". Todos devemos estar preparados, até as próprias crianças, para que alguém troce de nós ou nos critique por causa de Jesus e da fé. O Evangelho diz-nos hoje que essas troças ou críticas são ocasião de dartestemunho.

Como podemos defender-nos? Pedindo ao Espírito Santo (também chamado Defensor} que nos inspire as palavras certas. "A espada com que se bate o cristão é a espada da palavra". Esta pode ser uma palavra inspirada por Deus, mas também, por vezes, a Palavra de Deus. O próprio Jesus, para Se defender, cita muitas vezes a Palavra de Deus.

Segundo uma sugestão que li um dia, gostaria também de sugerir hoje que cada um, a começar pelas crianças, prepare uma pequena espada no seu bolso, quer dizer, uma pequena palavra na sua cabeça, que chamará o Espírito Santo em sua ajuda, para se apoiar nela, se o atacarem por causa do nome de Jesus (M.N. Thabut, L'intelligence des Ecritures).

Pode ser uma das palavras do Evangelho de hoje: "Tende cuidado; não vos deixeis enganar" / "Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa" / "Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. / "Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas. / Ou ainda: "Tende confiança. Eu venci o mundo. (João 16, 33) "Nada poderá separar­nos do amor de Deus. (cf. Romanos 8, 39).

Cada um pode escolher uma palavra e dizê-la muitas vezes no seu coração, quando estiver a ser questionado. O Espírito Santo ensinar-lhe-á como se defender. com doçura, e ao mesmo tempo com firmeza e inteligência

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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