28 de Novembro de 2010 - Domingo I da Advento

O início de um tempo novo

Hoje começa o Advento, e com ele começa um novo Ano Litúrgico. Um novo ano não é uma repetição do passado, é uma nova visita de Deus à sua Igreja e às nossas a I mas, e por isso começamos este novo ano cheios de entusiasmo ealegria.

Começar o Advento significa que daqui a poucas semanas será Natal. Daí o encanto deste tempo, que nos vai levar de novo à celebração do nascimento de Jesus. "O Advento está sempre impregnado pelo sabor de uma expectativa doce e misteriosa" (Dom Guéranger).


Beato Angélico, O Juízo final (porm.) (c. 1431)

Mas, porque é expectativa, o Advento não é ainda tempo de festa: é tempo de preparação para a festa. Na Missa os paramentos são roxos, não se reza o Glória, embora se cante o Aleluia, ao contrário do que acontece na Quaresma.

Actualmente, há muitas festas de Natal antes do Dia de Natal, e é importante que, quando participarmos nelas, não nos esqueçamos de que a verdadeira festa ainda não chegou, e só chegará na noite do dia 24 de Dezembro, ou no dia 25, e por isso, até lá, temos de continuar a preparar-nos, construindo em nós mesmos uma morada em que Jesus possa nascer.

No tempo do Advento, a Igreja quer também lembrar-nos que um dia Jesus virá de novo, cheio de glória. Quem estará preparado para O receber nessa hora?

No Evangelho de hoje, o próprio Jesus nos diz: "Vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor". Mas esta vigilância não é só para o futuro, é também para hoje. Jesus vem a cada instante, e está connosco. Podemos ouvi-Lo, na sua Palavra. Podemos segui-Lo, nos caminhos da vida, "acompanhá-Lo tão de perto, que vivamos com Ele, como os primeiros doze; tão de perto, que com Ele nos identifiquemos" (S. Josemaría Escrivá, Cristo que passa, n. 299).

E podemos também recebê-Lo em alimento na Santíssima Eucaristia. Bento XVI lembrou um dia que, na Eucaristia, "a Pessoa que vem ao nosso encontro e deseja unir-se a nós é o Filho de Deus". Por isso, não O podemos receber de qualquer maneira: "Tal unificação somente pode realizar-se segundo o modo da adoração. Receber a Eucaristia significa adorar Aquele que recebemos".

Bento XVI citou a este propósito um vibrante ensinamento de Santo Agostinho: "Ninguém come esta carne, sem antes a adorar; pecaríamos, se não a adorássemos" (cf. Bento XVI, Discurso aos Cardeais e Prelados da Cúria Romana, em 22-XII-05).

Já antes de ser Papa, o então Cardeal Ratzinger tinha afirmado que "a Comunhão alcança a sua profundidade somente quando é sustentada e compreendida pela adoração" (Introdução ao Espírito da Liturgia).

Por isso, considerava que a "prática de ajoelhar-se para a sagrada Comunhão tem a seu favor séculos de tradição e é um sinal de adoração particularmente expressivo, totalmente apropriado à luz da verdadeira, real e substancial presença de Nosso Senhor Jesus Cristo sob as espécies consagradas".

Peço a Deus que neste Advento aumente em todos o desejo de participar na celebração da Eucaristia, a Santa Missa, em cada domingo e, se possível, noutros dias da semana, e que também cresça em todos o desejo e a disponibilidade de O vir adorar, numa oração recolhida, silenciosa mas vibrante, no Sacrário, ou na adoração solene e comunitária do Santíssimo Sacramento.

Na 2ª leitura da Missa, lemos um texto de S. Paulo, que a Igreja nos propõe neste início de Advento, para nos preparamos dignamente para o Natal. Primeiro, S. Paulo diz-nos: "Chegou a hora de nos levantarmos do sono". Há demasiados cristãos a dormir: é tempo de acordar! Depois, S. Paulo apela a um estilo de vida sóbrio e limpo, que nos traz uma alegria diferente:

"Andemos dignamente, como em pleno dia, evitando as comezainas e excessos de bebida, as devassidões e libertinagens, as discórdias e os ciúmes; não vos preocupeis com a natureza carnal, para satisfazer os seus apetites, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo".

Foi a leitura deste texto, quando abriu ao acaso o livro das epístolas de S. Paulo, inspirado por uma criança, que, num jardim vizinho, ouvia repetidamente dizer-lhe: «Toma e lê...», que converteu definitivamente Santo Agostinho!

A vida de todos os cristãos deve reflectir a sobriedade e o desprendimento, que não nos deixam escravizar pelos bens materiais, e também a pureza e castidade, sem as quais é impossível amar de verdade.

Este autodomínio ajuda-nos também a estarmos mais atentos aos outros e a partilhar de um modo efectivo com aqueles que precisam mais da nossa ajuda, como nos tempos em que vivemos, mais que nunca, nos é pedido.

Apesar de todas as crises, somos convidados a viver um Advento de alegria e de esperança. Houve um tempo em que o Advento chegou a ter 40 dias, como a Quaresma; em alguns lugares teve 6 semanas, noutros 5 semanas, e agora, na Igreja latina, são apenas 4 semanas, que passam muito depressa.

Um bom modo de o aproveitar bem é a celebração do sacramento da Confissão ou Reconciliação, que nos devolve a paz e a amizade com Deus, e nos reintegra na plena comunhão da Igreja. A Confissão é fonte de alegria e de paz, é sempre o início de um tempo novo!

E que o sabor de serena expectativa deste novo Advento nos conduza às alegrias incomparáveis do nascimento de Jesus, que, porém, para serem verdadeiras, têm de ser vividas por dentro, no íntimo dos nossos corações, fascinados pela entrada no mundo, como verdadeiro homem, do eterno Filho de Deus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

 

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