5 de Dezembro de 2010 - Domingo II da Advento

A grande urgência do Advento

João Baptista tinha o sentido da urgência. Sabia que estava a chegar a hora decisiva do mundo.

E por isso pregava a todos a grande urgência da conversão: "«Arrependei-vos, porque está perto o Reino dos Céus»".

Era como se lhes dissesse: Está na hora, chegou o tempo, Deus vem ao mundo, e sem conversão é impossível recebê-Lo!


William Blake, A parábola das virgens sensatas e das virgens néscias (c. 1803-1805) (pormenor)

Nós acreditamos que o Reino dos Céus chegou, quando veio ao mundo, Jesus, Filho de Deus. Ele é o Messias anunciado pelo profeta Isaías, o "rebento" que brotou "do tronco de Jessé" (pai de David). A sua vinda é um acontecimento absolutamente decisivo para a história dos homens e para a vida de cada um. E o Advento lembra-nos que Jesus vem, e quer entrar na nossa vida e nos nossos corações.

Mas, como João Baptista percebeu, é impossível recebê-Lo sem conversão. A conversão, porém, tem vários níveis, ou várias dimensões, e a primeira é esta: passar de uma vida em circuito fechado, a uma vida aberta a um sentido novo, dado por Deus.

Todos sabemos bem que a vida humana é muito absorvente. O trabalho, a vida de família e a educação dos filhos (ou dos netos), no caso das pessoas casadas, o cuidado dos doentes e dos idosos, as doenças, os sonhos e os projectos e ainda as muitas dificuldades e as preocupações que é preciso enfrentar: tudo isto são realidades que absorvem a vida e a podem fechar sobre si própria.

Algumas destas realidades têm uma enorme densidade humana, e todas fazem parte da vida, mas não basta vivê-las, é preciso santificá-las, é preciso vivê-las em união com Deus, e como via de união com Deus, com os mesmos sentimentos de Jesus. Esta é a primeira dimensão da conversão que a Palavra de Deus nos pede.

A segunda dimensão da conversão passa pelo arrependimento dos nossos pecados e por um sincero propósito de emenda e de mudança. Ninguém se pode habituar aos seus defeitos ou aos seus pecados, como se já não houvesse nada a fazer. Temos de ter esperança de que também esta conversão é possível!

S. Paulo dizia na 2ª leitura que tudo o que foi escrito na Sagrada Escritura, foi escrito para que "tenhamos esperança". Temos que acreditar no poder da graça de Deus, e dizer com verdade: «Sim, com a ajuda de Deus, vou ser capaz...»

Confiados na ajuda de Deus, podemos alimentar a esperança de chegar ao Natal convertidos de tudo o que em nós não for digno de receber Jesus, para termos a alegria de O convidar a nascer no presépio do nosso coração.

João Baptista dizia: " «Praticai acções que se conformem ao arrependimento que manifestais» ". Hoje, a voz do Precursor continua a ressoar na Igreja, aos ouvidos de todos aqueles que receberam o Baptismo no Espírito Santo, como se nos dissesse: 'Que se note, na prática, a vossa conversão, que se sinta, que se veja a vossa caridade, a vossa justiça, a vossa misericórdia, o vosso perdão, a vossa solidariedade, o vosso amor pela paz, a vossa pureza, a vossa alegria'.

Por fim, a terceira dimensão da conversão leva-nos ainda a sentir como nosso o destino do mundo e a não nos conformarmos que continue a fugir de Deus, a afastar-se de Deus.

No mundo de hoje há coisas (ainda) mais graves do que a crise económica e financeira. Uma das áreas mais decisivas é a da educação da afectividade e da sexualidade das crianças e jovens, porque, se for baseada em princípios falsos, pode ter as mais graves consequências nas suas vidas.

Há dias li num «blog» escrito por uma pessoa de um outro país europeu o seguinte comentário (pouco lisonjeiro para com os governantes do seu país): "Deixar o aconselhamento sexual nas mãos deste governo é como confiar a política anti-terrorista a Bin Laden".

Os pais e as famílias precisam de estar conscientes do que está em questão, e pelo menos exercer a sua autoridade, não autorizando quaisquer aulas, acções ou aconselhamentos sem o seu conhecimento prévio e a sua autorização, e usando, por exemplo, o texto seguinte:

"Não autorizamos que o nosso filho (a nossa filha) assista a qualquer aula, acção ou aconselhamento relativo a «educação sexual» sem o nosso acordo por escrito, antecipadamente solicitado pela escola".

Para além deste e de outros temas «éticos», é de esperar que os católicos normais e correntes não fiquem passivos, mas intervenham sobre as grandes questões que interferem na compreensão da vida e do mundo e na própria escolha de um modo de viver e de ser.

E é de esperar que estes mesmos católicos normais e correntes assumam também a sua missão de apóstolos junto dos outros, sobretudo colegas e amigos. Não se trata de impor nada, nem de «vender» nada; trata-se de propor, testemunhar e desafiar.

Um bom instrumento pode ser o livro de entrevistas do Papa: Luz no mundo. Julgo que será muito bom lê-lo e oferecê-lo a alguns amigos, pelo menos para os fazer pensar...

Mas sem esquecer que a primeira dimensão do apostolado é falar de Jesus. Falem de Jesus, anunciem o mistério de Cristo, convidem a entrar na Igreja, onde se vive o mistério de Jesus Cristo!

A Virgem Santa Maria, Nossa Senhora, cuja Imaculada Conceição vamos celebrar no próximo dia 8, teve como ninguém o sentido da urgência de Deus.

O seu «sim» foi reflectido mas foi pronto, imediato, e a sua caridade não teve adiamentos. Que a sua intercessão nos torne mais conscientes da urgência de preparar a vinda de Jesus Cristo ao mundo e da graça que é recebê­Lo com amor e com fé nos nossos corações.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Nota: o «blog» atrás referido pode ser lido em:
http://infocatolica.com/blog/coradcor.php/1010181124-los-jovenes-fornicadores-de-h

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