12 de Dezembro de 2010 - Domingo III da Advento

Grandes esperanças

Há alegrias fáceis, mas que também passam depressa. É a alegria que se pode ter, por exemplo, quando o nosso clube ganha o campeonato, ou um determinado candidato ganha as eleições.

Mas o vencedor de um ano logo no ano seguinte pode ter dificuldades e começar a perder jogos, e o candidato vitorioso rapidamente se arrisca a ver desaparecer o «estado de graça» (falando em termos políticos) quando tiver de começar a enfrentar os problemas.

Só há verdadeira alegria, quando há uma grande esperança e uma longa procura. É preciso desejar muito para ter a alegria de finalmente receber. Quem deseja pouco, tem uma alegria breve.

Os poderosos que fabricam as ideias que nos dominam, tentam descristianizar totalmente o Natal. Segundo parece não há um único sinal «religioso» ou com conotações religiosas ou cristãs nas iluminações de Natal deste ano.


Jerónimo Nadal, Jesus e os enviados de João Baptista (porm.) (1593)

O resultado, para quem não conseguir ver mais longe, será um «Natal» cansativo e decepcionante.

Se trouxer alguma alegria, será, uma vez mais, uma "alegria breve" - para citar mais uma vez o título de um conhecido romance de um grande escritor português, (que foi meu professor de Latim), Vergílio Ferreira. (Talvez devido à experiência infeliz de Seminário que teve ainda criança - totalmente diferente da minha - não se afirmava crente, mas era alguém que buscava a verdade, que nunca desistiu de procurar, mesmo com alguma angústia).

Este 3º Domingo do Advento é o Domingo da alegria! O Intróito ou Antífona de entrada é o mesmo, com ligeiras variantes, tanto na Forma Ordinária do Rito Romano (Missal de Paulo VI) como na Forma Extraordinária (Missal de S. Pio V - Beato João XXIII). O texto, inspirado na Carta de S. Paulo aos Filipenses (4,4.5), é um insistente convite à alegria: "Alegrai-vos sempre no Senhor. Exultai de alegria: o Senhor está perto." Ou: "Gaudete in Domino semper: iterum dico, gaudete...".

Do texto em latim veio o nome de Domingo Gaudete que se dá ao 3º Domingo do Advento, e esta alegria não é breve, mas é uma alegria muito profunda, e vem de muito longe, vem do mais profundo da nossa alma, quando vê que finalmente se vão realizar, não os caprichos de um momento, ou as ambições egoístas, ou a vontade de domínio, mas os desejos mais profundos e puros que temos dentro de nós, e que o profeta Isaías exprime também, de modo tão belo, na lª leitura de hoje.

Estes desejos são os que Jesus anuncia já realizados, na mensagem que pede que seja transmitida a João Baptista: "Ide contar a João o que vedes e ouvis: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres".

Mesmo que possamos ter em alguns momentos razões para estarmos tristes, temos sempre este motivo fortíssimo de alegria: já chegou a nós a Boa Nova de Jesus. Já vemos, já ouvimos, já andamos, já começámos a ressuscitar!

As esperanças pequenas muitas vezes podem falhar. Mas as grandes esperanças estão-se a cumprir. "Ide contar a João o que vistes e ouvistes", diz Jesus aos enviados de João Baptista.

E daí vem uma grande alegria, que está em nós e ninguém nos pode roubar. Pode haver crises, pode haver desemprego, de repente pode acontecer um tornado que arrasa casas, aparecem mais dificuldades... Estas são as fragilidades e imperfeições inevitáveis da nossa condição humana e do mundo em que vivemos. Mas "os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres"!

Se formos amigos dos nossos amigos, encontraremos maneiras de os ajudar a conhecer Jesus Cristo, em especial na oração, na Confissão, na Missa e na Comunhão.

São estas as fontes da nossa alegria, que nunca secam. São estes os alimentos disponíveis para todos, e que nos fortalecem na nossa caminhada. Temos que pensar que há muita gente com fome e com sede destes dons divinos.

A partilha de alimentos promovida pelo Banco Alimentar (e muitas outras iniciativas como a do Natal mais perto) são um extraordinário exercício de solidariedade, mas temos de pensar que também há em muitos a fome de verdade e de sentido, ou o desejo de um amor que lance as suas pontes para além da morte. No coração do homem há as grandes esperanças que só Jesus pode cumprir.

Ver chegar já dentro em breve o Natal traz-nos por isso uma grande emoção, porque foi aí que finalmente tudo começou a acontecer. E a sua graça volta hoje a ser-nos dada, enchendo de alegria e de nova esperança a nossa vida.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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