2 de Janeiro de 2011 - Domingo da Epifania do Senhor

De onde vimos, para onde vamos

Ninguém sabe muito bem de onde vieram os Magos, nem quando chegaram até junto de Jesus. Ainda terão visto o Menino na gruta? Tudo indica que não, uma vez que S. Mateus observa que "entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d'Ele, adoraram-No".


Basílica de Santo Apolinário o Novo, Ravena, Os Magos (mosaico) (c.526)

A opinião mais comum é a de que chegaram doze dias depois do Natal, isto é, em 6 de Janeiro, data tradicional da festa da Epifania, mas também há quem situe a sua visita dois anos depois! Quase a título de curiosidade, refiro que um santo ortodoxo do séc. XVIII, S. Nicodemos, na sequência de outros autores antigos, pensa que a estrela apareceu no próprio dia do nascimento de Jesus, e que os Magos, vindos de muito longe, apenas chegaram a Jerusalém dois anos depois.

Mas esta opinião é contestada por aqueles que observam que nessa altura, a Sagrada Família estaria em Nazaré, e não em Belém. A isto Nicodemos replica que Maria e José iam todos os anos, por alturas de Março ou Abril, a Jerusalém, para a festa da Páscoa, e que era possível que igualmente visitassem Belém. E aí os encontraram os Magos. Dessa vez, porém, quando tudo terminou, não regressaram a Nazaré, mas, mediatamente após a partida dos Magos, partiram eles próprios, em fuga, para o Egipto.

Esta datação explicaria talvez melhor que Herodes tenha mandado "matar em Belém e no seu território todos os meninos de dois anos ou menos, conforme o tempo que os Magos lhe tinham indicado", como relata ainda S. Mateus. Mas nenhuma solução é totalmente evidente. Cada leitor poderá escolher a que lhe parecer melhor...

E qual a mensagem que este texto tão belo nos quer transmitir? Entre muitos outros aspectos, gostaria de me fixar apenas num ponto muito interessante que S. Jerónimo sublinha no seu comentário a S. Mateus: os judeus souberam do nascimento de Cristo através de uns gentios!

Foi graças à questão colocada pelos Magos, que os sacerdotes e escribas do povo se recordaram do que tinha sido profetizado pelo profeta Miqueias (5,1): "E tu, Belém, terra de Judá, (...) de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo". Provavelmente, nunca tinham tomado a sério esta profecia. E mesmo depois continuaram sem lhe dar importância, permaneceram indiferentes, não foram à sua procura, quando era ainda um Menino, e quando, já homem, Ele mesmo veio ao seu encontro, não acolheram o Messias, antes O rejeitaram, condenaram e mataram!

E a partir daqui pensei que também nós podemos ter à nossa guarda verdades decisivas mas esquecidas, mensagens preciosas mas inactivas, que não transformam a vida nem ajudam a melhorar o mundo.

Devemos estar muito atentos às questões que os outros nos levantam - por exemplo, os filhos aos pais para «sacudirmos o pó aos nossos códices», isto é, para tornarmos operativo o que lemos, o que aprendemos, o que nos foi transmitido, talvez há muitos anos, mas que conserva toda a força de uma verdade luminosa e transformadora. E a partir destas verdades de sempre, encontramos respostas para as questões de hoje, respostas actuais.

E não me refiro às questões concretas da economia ou da política enquanto tais - matérias sobre as quais pode haver muitas opiniões e muitas soluções alternativas, sobre as quais cada um é livre de decidir - mas às grandes questões humanas e existenciais que têm a ver com o sentido da vida e o seu fim: quem somos, de onde vimos, para onde vamos.

Para estas perguntas há resposta na Palavra de Deus, na revelação divina. A Palavra de Deus é fonte de luz e sabedoria, traz-nos a verdade que precisamos de conhecer em relação à nossa salvação, e traz-nos também a alegria, no meio das provas e das lutas desta vida.

Mas, para conhecermos esta verdade, precisamos, como os Magos, de sair da nossa rotina, do nosso comodismo. Precisamos de pôr os pés ao caminho e vir à casa da Igreja, onde Jesus está.

Precisamos também de estudar, de ler, e também de pedir conselho, de ter direcção espiritual, ou pelo menos um confessor habitual, que nos conheça e possa ajudar.

Quanto aos Magos, depois de verem e adorarem o Menino, "abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra".

Com o ouro, talvez inconscientemente, reconheciam a realeza do Messias, com o incenso a sua divindade, e com a mirra a sua humanidade.

E estes dons, comenta S. Jerónimo, não ficaram sem resposta da parte de Deus. Logo depois, souberam o caminho que deviam seguir: "avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho".

Ao contrário dos Magos, que se perderam nas brumas do tempo e nunca mais viram Jesus, nós podemos vê-Lo muitas vezes na luz da fé, ouvi-Lo, conversar com Ele, participar no seu sacrifício, recebê-Lo como alimento, na comunhão.

Peçamos a graça de voltarmos sempre de novo à sua presença, ao seu encontro. E peçamos a intercessão de Maria, Nossa Senhora para este renovado encontro com Cristo, sabendo bem que "a Jesus sempre se vai e se «torna a ir» por Maria" (Caminho. n.495).

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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