9 de Janeiro de 2011 - Domingo do Baptismo do Senhor

Saímos da massa anónima

O Baptismo de Jesus é chamado pelos cristãos orientais não apenas epifania, nome que se aplica especialmente ao encontro de Jesus com os Magos do Oriente, e que significa manifestação, mas também teofania, que significa manifestação de Deus.

No Baptismo de Jesus no Jordão começamos a conhecer como Deus é em Si mesmo e como Se dignou manifestar-Se aos homens: Trindade consubstancial e indivisível, comunhão de Três Pessoas divinas que são um só e único Deus: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

E por isso o Baptismo de Jesus é também chamado "iluminação". No Baptismo de Jesus somos iluminados, começa a fazer-se luz no nosso espírito sobre Deus Uno e Trino.


o Baptismo de Jesus (ícone oriental)

Ao mesmo tempo, o Baptismo no Jordão é iluminação sobre o próprio Jesus, que podia parecer apenas mais um no meio da multidão que descia às águas, mas o próprio João Baptista, como conta S. Mateus, distingue-O imediatamente entre todos, e reconhece-O como o Messias, e por isso diz-Lhe com sincera humildade: "Eu é que preciso de ser baptizado por Ti e Tu vens ter comigo?»

Também a voz do Pai e a descida do Espírito Santo em figura de pomba isolam, identificam e singularizam Jesus entre todos os homens, como a luz de um projector que subitamente incide, num palco com muitas personagens, sobre um protagonista único, que é aquele sobre quem, a partir desse momento, é preciso concentrar todas as atenções.

Assim é Jesus, de quem o Pai diz: "«Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência»". O título de «filho de Deus», no antigo Israel, costumava dar-se aos reis no dia da sua entronização, mas aqui é completamente diferente: Jesus é o Filho muito amado, a um título exclusivo, único e singular, embora destinado a ser o princípio e a fonte da filiação divina para todos os homens.

O Baptismo de Jesus é também iluminação sobre nós mesmos. Afinal, quem é que nós somos? É tão difícil, por vezes, responder a esta pergunta!

No pórtico do oráculo de Delfos, na antiga Grécia, estava escrito este conselho: "Conhece-te a ti mesmo", sobre o qual Sócrates, como relata Platão, construiu todo o seu pensamento. Conta-se que um dia o oráculo deste templo de Delfos proclamou Sócrates como o homem mais sábio na Grécia, ao que Sócrates teria respondido com a célebre frase: "Só sei que nada sei".

Na verdade, só nos conhecemos perfeitamente a nós mesmos, quando deixamos que aconteça para nós a divina Teofania, quando aceitamos a revelação de Deus, quando acolhemos a identificação de Jesus feita pelo Pai, porque, a partirdeentão,é Ele que revela o homem ao próprio homem.

Mas é preciso estarmos atentos, para não cair nunca numa tentação terrível, em que caem voluntariamente certos escritores e até alguns teólogos (?): ocultar de novo Jesus no meio da multidão dos homens "vulgares», esvaziá-Lo do que tem de único - a sua filiação eterna, a sua Divindade - o que, além de ser injusto e falso, é muito mau para nós, porque teria como resultado privar-nos da condição de filhos adoptivos, que recebemos no nosso próprio baptismo, e mergulhar-nos irremediavelmente na massa anónima, onde não há luz nem esperança.

Mas nós já saímos da massa anónima e informe, já somos filhos de Deus!

Após o seu Baptismo e depois do longo jejum de quarenta dias no deserto, Jesus iniciou a sua vida pública, e à sua volta juntou-se um grupo de pessoas, cuja vida se tornou diferente. Jesus começou a ser o seu Senhor, começou a reinar nos seus corações. Não foi fácil, nem foi de repente, mas foi acontecendo cada vez mais profundamente.

E também em nós esta mudança pode já hoje começar e ir acontecendo, a partir do que aconteceu no Baptismo de Jesus, como diz, de um modo muito belo, a antífona do Magnificat das Primeiras Vésperas desta festa:

"O Salvador quis ser baptizado para restaurar o homem velho, restaurando pela água a natureza humana corrompida, e revestindo-a com a sua veste incorruptível".

Que também em nós, acabado o Natal, neste tempo depois da Epifania, Jesus vá actuando, nos vá mudando, purificando e convertendo, para nos despojar do homem velho e nos revestir do homem novo que Ele próprio é.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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