30 de Janeiro de 2011 - 4º Domingo do Tempo Comum antes da Quaresma

Discípulos e multidões

Jesus subiu ao monte, e sentou-se, com um grupo de discípulos à sua volta. É provável que, um pouco mais longe, muitas outras pessoas - S. Mateus fala inicialmente de "multidões" - tenham ficado também a escutar o Senhor. Não sabemos em que monte - podia até ser uma colina tudo isto aconteceu, mas podemos chamar-lhe simplesmente o «Monte das Bem-aventuranças». Como escreveu um teólogo luterano do séc. XIX (Franz Delitzsch), "o Monte das Bem-aventuranças é o Sinal do Novo Testamento".

E quando inicia o seu ensinamento, há uma palavra que surge repetidamente nos lábios de Jesus: «Bem-aventurados...». Esta palavra, segundo o relato de S. Mateus, repete-se oito vezes, e depois ainda uma última vez, quando Jesus se refere àqueles dos seus discípulos que serão incompreendidos e perseguidos por causa da fé. Pensando neles, Jesus diz uma vez mais: "Bem-aventurados... "


J. Tissot, O sermão das bem-aventuranças (1886-1896)

A palavra "bem-aventurado" significa "feliz". Em grego, língua em que os Evangelhos foram escritos, diz-se: makários, e em latim: beatus. E como a bem-aventurança é algo muito mais elevado e incomparavelmente melhor do que a simples felicidade, em algumas línguas, como o alemão e o inglês, traduz-se habitualmente makários por "abençoado" (em inglês: «blessed», em alemão: «selig»). Mas não é bem a mesma coisa, e "feliz" foi o que Jesus disse, e é assim que devemos procurar entender o seu ensinamento.

As bem-aventuranças de Jesus aparecem no termo de uma longa tradição bíblica. Já era costume, no Antigo Testamento, declarar felizes, aqueles que viviam de acordo com a sabedoria de Deus. Só para dar um exemplo, no Salmo 1, o primeiro dos 150 salmos da Sagrada Escritura, que começa, na tradução latina, com as famosas palavras: "Beatus vir...", diz-se solenemente: "Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se senta na roda dos maldizentes; antes se compraz na lei do Senhor, e nela medita de dia e noite".

Um outro exemplo ainda: o Salmo 33 convida: "Saboreai e vede como o Senhor é bom: feliz o homem que n'Ele se refugia". (Quem quiser ler outros exemplos, pode ler Jeremias 17,7-8; Provérbios 3, 13; Eclesiástico/Ben-Sirá 31, 8).

E quem são os destinatários das bem-aventuranças de Jesus? Em alguns casos são as últimas pessoas que nós pensaríamos que se pudessem considerar felizes... Mas Jesus, depois de cada bem-aventurança, acrescentou uma breve justificação. E quando a compreendemos, vemos claramente que Jesus tinha razão!

Os pobres em espírito, isto é, aqueles que têm espírito de pobreza, são felizes, porque, mesmo que possuam riquezas, não se deixam escravizar por elas, mas sabem servir-se delas, de acordo com as exigências do Evangelho.

Os humildes são felizes, porque estão disponíveis para colaborar no plano de Deus, como a Virgem Maria, que aceitou fazer-se Serva, para que o Filho de Deus pudesse fazer-se homem.

Os que choram são felizes, porque sabem que não estão sozinhos no seu sofrimento, e que Deus não desperdiça nenhuma das suas lágrimas.

Os misericordiosos são felizes, porque sabem perdoar, e o seu coração bate ao ritmo do coração de Deus Pai.

Os puros de coração são felizes, porque não transformam os outros em coisas, para os 'gozar' ou 'explorar', mas olham-nos e vêem-nos com o olhar do próprio Deus.

Os que têm fome e sede de justiça são felizes, porque não se resignam, não se habituam ao mal: sabem que Deus nos chama a sermos santos, e só isso, no fundo, vale a pena nesta vida.

Os que sofrem perseguição por amor de Jesus Cristo são felizes, porque, por seu amor, não se importam de perder tudo o que têm, a honra, os bens materiais e até a própria vida: no Céu, espera-os uma felicidade sem fim.

Cada uma das bem-aventuranças vale por si; mas, se as juntarmos todas, dão-nos o rosto de Jesus Cristo. "As bem-aventuranças retratam o rosto de Jesus Cristo" diz-nos o Catecismo da Igreja Católica (n.1717).

Bento XVI desenvolve esta ideia no 1º volume do seu livro Jesus de Nazaré: "Quem lê o texto com atenção, nota que as bem-aventuranças são como que uma biografia oculta de Jesus, um retrato da sua figura" (p. 111). Ele é o verdadeiro pobre de espírito, o aflito, o manso, Aquele que tem fome e sede de justiça, o misericordioso, o puro de coração, o pacificador; Ele sofre perseguição por causa da justiça.

As bem-aventuranças definem também os traços essenciais do rosto e da vida de cada cristão. Convidam-nos a purificar o coração dos seus maus instintos e a procurar o amor de Deus acima de tudo.

E ensinam-nos que a verdadeira felicidade "não reside, nem na riqueza ou bem-estar, nem na glória humana ou no poder, nem em qualquer obra humana, por mais útil que seja, como as ciências, as técnicas e as artes, nem em qualquer outra criatura, mas só em Deus, fonte de todo o bem e de todo o amor" (Catecismo da Igreja Católica, n.1723).

As bem-aventuranças não são uma exigência ilógica, são um caminho para sermos felizes. E se é isso mesmo que queremos de facto não há ninguém que não queira ser feliz entremos por esse caminho, passo a passo, "amparados pela graça do Espírito Santo" (Catecismo da Igreja Católica, n. 1724). É uma escolha que terá de ser renovada em cada dia, e que será muitas vezes posta à prova.

Mas, se lhe formos fiéis, daremos muitos frutos na Igreja, e sobretudo deixaremos que se instale em nós o "Reino dos Céus", isto é, que Deus exerça em nós o seu domínio, para já hoje nos fazer felizes e um dia nos dar em recompensa a felicidade eterna.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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