6 de Fevereiro de 2011 - 4º Domingo do Tempo Comum antes da Quaresma

Como uma cidade situada sobre um monte

A maior parte das pessoas vive como se a vida fosse uma coisa banal, que simplesmente se vive e se goza, mas a vida, a vida humana, é a coisa mais extraordinária que se pode imaginar, porque nós não apenas vivemos, como todos os animais e todos os outros seres vivos, mas sabemos que vivemos e para que vivemos.

Agradecemos muito a Deus ter nascido e estarmos neste mundo, porque a vida é um dom precioso, e por meio dela podemos conhecer Deus, amá-Lo e servi-Lo, e também melhorar o mundo e servir eficazmente os outros.


Jerónimo Nadal, Ilustração de Evangelicae Historiae Imagines (1595)(porm.)

Poderíamos pensar, no entanto, se estamos a fazer todo o bem que poderíamos fazer. A nossa existência faz a diferença? O facto de cada um de nós existir, de ser quem é ou de procurar ser como deveria ser, influencia o mundo para melhor?

No Evangelho de hoje, que aparece na continuação da proclamação das bem-aventuranças e como sua concretização, Jesus diz-nos: "Vós sois o sal da terra. (...) Vós sois a luz do mundo". É necessário ouvir estas palavras de Jesus como se fosse a primeira vez, com toda a sua força e espantosa novidade, tomá-las absolutamente a sério e assumir a grande responsabilidade e a missão que elas nos confiam.

Bastantes vezes o mundo é dominado, não pela luz, mas pelas sombras, pela noite do pensamento, pelo cepticismo, pelo relativismo, de onde resultaram, entre muitas outras, as seguintes situações:

Nunca como hoje tantas vidas inocentes foram suprimidas com suporte legal, sem terem sequer a hipótese de nascer e vir ao mundo. E nunca como hoje se valorizou tanto o gozo sem responsabilidade, e por isso nunca como hoje houve tantos laços quebrados, tantas situações de infidelidade, tantas situações de infelicidade.

E o que está por detrás é uma mentalidade puramente utilitarista, que já não conhece a diferença entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, mas apenas o que dá jeito, ou parece ser útil em determinado momento.

Seria necessária uma revolução pacífica nas mentalidades, uma mudança profunda ao nível das grandes opções de vida.

Para isso, cada um de nós tem de ser luz, e mesmo que se sinta uma luz fraquinha, não se preocupe, porque, no meio da escuridão, mesmo uma luz fraca e débil já mostra o caminho, e ajuda a fugir dos obstáculos ou a evitar as covas ou os buracos da estrada onde pudesse haver o perigo de cair.

Às vezes podemos ficar muito deprimidos com o rumo que parecem levar as nossas sociedades, não só nem principalmente no plano material, onde será sempre mais fácil encontrar soluções, mas também, e sobretudo, no plano ético, com a aprovação de leis que contrariam desde logo a pura razão, a simples lei natural.

Esta escalada de leis que, nos países europeus, contrariam a lei natural, poderá ainda agravar-se; é provável que venha a haver no futuro mais países em que, depois do aborto, seja legalizada a eutanásia, ou em que seja reconhecido o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Recentemente, em França, e de acordo com uma sentença do Conselho Constitucional francês, do passado dia 28 de Janeiro, manteve-se o princípio de que o casamento ainda é a união de um homem e uma mulher. Mas é mais que certo que em breve aparecerá no Parlamento a proposta de reconhecimento do «casamento» entre pessoas do mesmo sexo, e é de prever que o Conselho Constitucional não irá censurar esta lei, mas a aprovará, já que quase se comprometeu a fazê-lo.

Apesar de tudo, esta proliferação de leis que contrariam a essência das coisas, não vai durar sempre, porque é previsível que possa acontecer uma das seguintes situações: a) os cidadãos cansam-se do relativismo jurídico dominante e, através do voto, substituem os legisladores; b) as próprias sociedades se desagregam e implodem; c) as poderosas migrações de outros povos acabam por engolir os povos europeus, que estão profundamente envelhecidos, cépticos, laicizados, mergulhados no relativismo, "sem Deus e sem esperança".

Acredito, ou antes, espero, em todo o caso, que estas duas últimas situações não se venham a dar, sobretudo por duas razões:

1º, porque existe a Igreja, unida ao Papa e presente no mundo inteiro, que se pode perseguir, mas que não se pode silenciar, do mesmo modo que "não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte", como diz Jesus no Evangelho; e

2º, porque há muitos cristãos que. apesar das dificuldades, actuam no mundo - tal como pede Jesus - como o sal, que preserva da corrupção e dá gosto aos alimentos, e também, como o sal, de uma forma discreta, sem chamar a atenção, apenas com as suas virtudes humanas. com o seu modo de estar, com a sua forma de viver e de pensar, com seu estilo de trabalhar e de intervir nas mais diversas situações.

Mas é evidente que continuam a ser luz, que não se coloca "debaixo do alqueire", e quando têm de falar, falam; quando tem de discordar, discordam; quando têm de intervir, intervêm. E podem sempre promover todo o tipo de iniciativas, para renovar o tecido humano e cristão da sociedade. E é preciso que o façam cada vez mais, e cada vez mais eficazmente.

O objectivo final que procuramos, o fim último que nos move e nos atrai não é, porém, apenas a promulgação de leis mais justas e com elas a mudança do mundo, mas a glória de Deus, o reconhecimento agradecido por parte de todos do seu poder e do seu amor, como nos diz o próprio Jesus, no Evangelho.

E por isso pedimos hoje que as trevas não nos dominem, e a nossa luz brilhe diante dos homens, para que, vendo as nossas obras, que esperamos sejam coerentes com a nossa fé, glorifiquem o Pai que está nos Céus.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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