13 de Fevereiro de 2011 - Domingo VI do Tempo Comum antes da Quaresma

O sim e o não

Sabiam que o Papa Bento XVI cita 9 vezes São Jerónimo, na sua Exortação Apostólica Verbum Domini (A Palavra do Senhor)? Depois do Sínodo sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, que teve lugar em Outubro de 2008, Bento XVI dirigiu recentemente a toda a Igreja esta Exortação Apostólica, que quis promulgar e assinar, não num dia qualquer, mas no dia 30 de Setembro memória de São Jerónimo.

Bento XVI diz que S. Jerónimo era um "grande «enamorado» da Palavra de Deus", o que é um grande elogio, cita diversas passagens das suas obras, e sublinha com toda ajustiça que S. Jerónimo "dedicou a sua vida ao estudo da Bíblia, tendo dado à Igreja a tradução latina chamada Vulgata".


Beato Angélico, A Transfiguração (1440-1441)
[Jesus com Moisés e Elias - a Lei e os Profetas]

Seria muito bom, portanto, nesta Paróquia em que S. Jerónimo está tão presente, aprofundarmos a leitura dos livros da Sagrada Escritura com a ajuda dos comentários deste grande estudioso da Palavra de Deus. Poderíamos ter periodicamente - por exemplo de 15 em 15 dias - um encontro de estudo sobre um determinado livro bíblico, recorrendo aos comentários de S. Jerónimo. Que vos parece?

Afinal, há tantos católicos que conhecem tão mal a Bíblia, e nada melhor, para ultrapassar esta situação, do que ter um grande mestre...

Entretanto, poderíamos começar já hoje, socorrendo-nos de alguns dos comentários que S. Jerónimo faz ao texto do Evangelho de S. Mateus que se lê neste domingo (5, 17-37). Estamos ainda no Sermão da Montanha, e Jesus diz: logo a começar: "Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim revogar, mas completar".

De facto, Jesus não veio revogar, uma vez que, como comenta S. Jerónimo, Jesus veio dar cumprimento ao que os Profetas tinham anunciado a seu respeito. No entanto, como existiam na Lei do Antigo Testamento alguns preceitos ainda um tanto rudes ou imperfeitos, devido à debilidade do povo, Jesus veio completá-los ou aperfeiçoá-los: por exemplo, suprimiu a ira vingativa e exclui a «lei de Talião» («olho por olho e dente por dente»). Ao mesmo tempo, porém, Jesus foi ainda mais exigente, e incluiu e condenou a concupiscência, isto é, os maus desejos ocultos na mente (Mt 5,29), que a Lei antiga não tinha em conta.

Vamos agora focar mais de perto alguns destes ensinamentos inovadores de Jesus, começando por um dos mais exigentes: "Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento" (5, 22). É curioso que em alguns manuscritos se acrescenta: «sem causa», mas S. Jerónimo nota que nos textos fidedignos não há esse acrescento, pelo que nunca se justifica a ira ou a cólera. "Pois, se Jesus nos manda apresentar a outra face, e amar os nossos inimigos e rezar pelos que nos perseguem (Mateus 5, 39-44; Lucas 6, 27-29), exclui-se toda a ocasião de ira". E lembra o que se diz na Carta de S. Tiago: "A ira do homem não realiza ajustiça de Deus" (1,20).

Jesus diz depois: "Quem chamar imbecil a seu irmão (...)". No original aparece uma palavra aramaica: "Quem chamar a seu irmão Raqa". Esta palavra significa «oco e vazio», como se chamássemos a alguém: «cabeça oca», «sem cérebro». Se temos que prestar contas, no dia do Juízo, de uma palavra fútil (Mateus 12,36), quanto mais de um insulto! De resto, observa S. Jerónimo, como poderíamos dirigir esse insulto a um "irmão", que tem o mesmo Pai que nós? Se acredita em Deus e conhece Jesus, o "Messias de Deus", com que fundamento lhe poderemos dirigir a injúria de imbecilidade?

O Evangelho continua: "e quem lhe chamar louco será submetido à geena de fogo". De facto, quem chama "louco" a alguém que partilha a mesma fé em Deus "é religiosamente um ímpio", ajuíza S. Jerónimo.

"Portanto, se fores apresentar a tua oferta ao altar e ali te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti (...)" (5, 23). Jesus não diz: 'se tens alguma coisa contra o teu irmão', mas sim: "se o teu irmão tem alguma coisa contra ti", para percebermos que não nos devemos esquivar a essa reconciliação, mesmo que nos custe mais. Portanto, conclui S. Jerónimo, enquanto não pedirmos desculpa, "não sei se será coerente apresentarmos a Deus as nossas ofertas".

E Jesus continua um pouco depois: "Ouvistes que foi dito: 'Não cometerás adultério'. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que olhar para uma mulher com maus desejos já cometeu adultério com ela no seu coração" (5, 28). Este é um dos passos em que mais claramente Jesus supera a mentalidade farisaica, na qual só contava o que se via, só eram relevantes as acções exteriores. Jesus quer ir mais longe, "à raiz dos actos, ao coração, onde o homem escolhe entre o puro e o impuro" (Catecismo da Igreja Católica, n.1968).

Também no caso do adultério, e de tantos outros pecados, o seu início está, evidentemente, no coração do homem, isto é, no consentimento da vontade. É logo a esse nível que se pode fazer de alguém objecto de um desejo ilícito, e portanto desde logo pecar gravemente.

Depois Jesus diz: "Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e lança-o para longe (etc.)". S. Jerónimo interpreta os olhos ou as mãos que é melhor arrancar ou cortar, como imagem daqueles relacionamentos com outras pessoas que podem ser um impedimento "para contemplar a luz verdadeira". É evidente que não se pode, a pretexto de agradar a alguém, perder a amizade de Deus, e muito mesmo correr o risco de nos perdermos "por toda a eternidade".

Sobre o matrimónio e o divórcio falaremos numa outra ocasião.

Sobre o juramento, S. Jerónimo esclarece que "o Salvador não proíbe jurar por Deus", mas sim, como era costume entre os Judeus, "pelo céu e pela terra, ou pela cidade de Jerusalém, ou pela própria cabeça".

Jurar é tomar Deus como testemunha da verdade do que dizemos, e por isso não faz sentido dizer que se jura tomando como testemunhas, em vez de Deus, quaisquer outras realidades ou criaturas. (Como aquelas pessoas que dizem: «Juro pela minha saúde; juro pelos meus filhos...»). Entre os cristãos, porém, nem devia haver juramentos, conclui S. Jerónimo, "porque toda a palavra de um fiel é como um juramento". Assim devia ser!

O passo de hoje termina com este apelo de Jesus: "A vossa linguagem deve ser: 'Sim, sim; não, não'. O que passa disto vem do Maligno". Quer dizer: se pensamos sim, dizemos sim. se pensamos não, dizemos não. Não dizemos uma coisa e pensamos outra. E assim todos podem confiar na nossa sinceridade.

Por outro lado, também não dizemos que sim a tudo. Também a muitas coisas dizemos não. E não é por teimosia nem por preconceito, mas por amor à verdade, por amor a Deus! Vamos pedir a Deus que nos ajude a perceber bem o sim que importa dizer ou o não que muitas vezes teremos fazer ouvir, e que nos dê a graça de sermos sempre e em tudo coerentes com a nossa fé.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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