27 de Fevereiro de 2011 - Domingo VIII do Tempo Comum antes da Quaresma

A grande prioridade

Na nossa vida pode haver outros "senhores" que rivalizam com Deus, e por isso, no Evangelho de hoje, continuando o Sermão da Montanha, Jesus ensina-nos que é impossível servir a Deus com um coração dividido.

Quais podem ser os "rivais" de Deus? Podem ser muitos, e Jesus dá apenas um exemplo: "Não podeis servir a Deus e ao dinheiro", no original "mammona", uma palavra semítica (S. Jerónimo diz que é siríaca) que significa dinheiro ou riqueza, geralmente com conotações negativas, por ser dinheiro acumulado de maneira rápida e desonesta, e também mal gasto em luxos e prazeres.

Depois, Jesus acrescenta: "Por isso vos digo: "Não vos preocupeis, quanto à vossa vida, com o que haveis de comer, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir". Estas palavras de Jesus pressupõem uma situação de uma certa prosperidade económica, como a que existia nesse tempo na Galileia, e não uma situação de carência ou de fome, em que é preciso lutar pela sobrevivência. Como é evidente, Jesus não está a falar para os que estão a morrer de fome!


Pietro Annigoni, S. José e Jesus
(Igreja de S. Lourenço - Florença)

Jesus também não está a pensar naquelas pessoas que vivem do seu trabalho, graças ao qual asseguram o seu sustento e o da sua família. Ele próprio, durante muitos anos, primeiro na companhia de S. José e depois sozinho, trabalhou para comer e para sustentar a sua casa de Nazaré, onde tinha ao seu cuidado Nossa Senhora, sua Mãe.

Jesus sabia o que custa a vida, e como às vezes é preciso lutar com grande esforço para sobreviver ou para assegurar as condições de uma vida digna. Sabendo isto, o que Jesus pede aos seus discípulos no Evangelho de hoje é, antes de mais, uma grande confiança na providência de Deus.

Jesus convida-nos a olhar para a natureza e aprender as suas lições. Apesar dos seus limites ou até dos seus perigos, como chuvas torrenciais, aluviões, deslizamentos de terras, furacões, terramotos, etc., que fazem parte do estatuto de um mundo em transformação, conseguimos perceber como Deus ama e preserva a sua criação.

E percebemos que há criaturas de que Deus parece cuidar com especial atenção, mas também que, se é assim, muito mais fará connosco, que somos seus filhos!

Daí o convite de Jesus: "«Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; o vosso Pai celeste as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas?»"

Como explica S. Jerónimo, "se as aves, que não têm problemas nem preocupações, que hoje são e amanhã não serão, cuja alma é mortal e que, quando deixarem de existir nunca mais existirão, são alimentadas pela Providência de Deus, quanto mais os homens, a quem se promete a eternidade, são regidos pelo arbítrio de Deus!"

E Jesus insiste: "«Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam; mas Eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles»". "E, na verdade - comenta S. Jerónimo - há alguma seda, alguma púrpura real, algum tecido bordado que se possa comparar com as flores? Existe alguma coisa tão vermelha como a rosa? Ou tão branca como o lírio?"

Mas há uma grande prioridade que deve ser conscientemente procurada e estabelecida na nossa vida: "«Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo»".

Está aqui o ponto mais alto do ensinamento de Jesus neste passo do Evangelho.

O objectivo final de toda a nossa vida e de toda a nossa actividade deve ser o bem maior, o Reino de Deus: Deus presente na vida, Deus conhecido, Deus amado, Deus obedecido pelos homens. Jesus manda-nos procurá-lo, buscá-lo, desejá-lo ardentemente.

Sem ele não há justiça, e não se consegue estabelecer de modo satisfatório e digno a convivência entre os homens.

Quando falta esta procura do Reino de Deus, e até se procura e promove o seu contrário, as sociedades adoecem.

Um dos principais biógrafos de João Paulo II, o escritor americano George Weigel argumenta no seu livro O Cubo e a Catedral (Alêtheia Editores) que a ligação da Europa com o secularismo tacanho e limitado provocou uma crise civilizacional e moral que está a corroer a alma europeia e não consegue criar um futuro para a Europa.

Por sua vez, no seu discurso ao "Mundo da Cultura" no Centro Cultural de Belém, em 12 de Maio de 2010, o Papa Bento XVI quis deixar bem claro que "a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas".

Daí o inspirado convite do Santo Padre, que queremos certamente fazer chegar a outros e antes de mais secundar com a nossa oração: "Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza".

E para que seja retomada por todos esta busca das "coisas últimas", que são também as primeiras, pedimos que se cumpra no nosso país e no mundo inteiro a invocação final do Santo Padre nesse discurso:

"Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza". Ámen.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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