13 de Março de 2011 - Domingo I da Quaresma

Acompanhar Jesus, imitar Jesus

Iniciamos a Quaresma acompanhando Jesus, que Se prepara, por um longo jejum de quarenta dias e quarenta noites no deserto, para iniciar a sua vida pública, e no final admite que o Diabo O desafie com propostas aparentemente sedutoras, mas que representariam um desvirtuamento total da missão que Lhe tinha sido confiada pelo Pai.

Jesus jejua longamente para mostrar a sua total dependência do Pai, e depois deixa-Se tentar pelo Diabo, para que não houvesse a mais pequena dúvida de que a sua vontade humana aderia totalmente à vontade do Pai e ao seu plano salvador.


James Tissot, Jesus tentado no deserto (1886-1894)

Ao mesmo tempo, Jesus, conhecendo a nossa fraqueza, quis preparar-nos para a luta, que acontecerá inevitavelmente ao longo da nossa vida; quis ensinar-nos como devemos proceder; nesses momentos em que nós próprios possamos ser tentados a desviar-nos da nossa vocação cristã, da nossa condição de filhos de Deus.

Esta cedência a uma tentação subtil mas sempre falsa, sempre mentirosa, acontece desde o início da história humana, como nos dizia, com o seu estilo tão expressivo e belo, a primeira leitura, do livro do Génesis. Logo desde o início da sua caminhada na Terra, os homens, simbolizados por Adão e Eva, cederam ao tentador e duvidaram de Deus, negaram-No, desobedeceram-Lhe.

A esta primeira negação, que, por ser a primeira, nos afectou e desequilibrou profundamente, como ensina a Sagrada Escritura, seguiram-se muitas outras, e todas formam um caudal de males e pecados, que às vezes parece que inunda o mundo inteiro, como aquelas terríveis ondas gigantes que destroem e arrasam tudo à sua frente, como de novo agora aconteceu ao largo da costa nordeste do Japão. Não haverá modo de resistir a este «tsunami» de mal e de pecado que provoca tantos males no coração dos homens?

Sim, é a união com Jesus Cristo, como nos diz S. Paulo na 2ª leitura: "Assim como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, todos se tornarão justos".

E para isso, durante a Quaresma, queremos imitar Jesus, particularmente no seu jejum, na sua oração e na firmeza da sua rejeição do espírito do mal.

Antes de mais, necessitamos de viver uma escuta constante, silenciosa e fiel da Palavra de Deus, acolhida na oração pessoal e na liturgia da Igreja. O tempo da Quaresma deverá ser para todos um tempo de oração mais intensa, alimentada pela leitura da Sagrada Escritura, em especial dos Santos Evangelhos. Proponho que cada um leia diariamente uma passagem dos Evangelhos ou outro texto do Novo Testamento, durante alguns minutos, e leve à sua oração aquilo que leu.

E já que acaba de ser publicado o 2° volume do livro Jesus de Nazaré, de Bento XVI, convido todos a lê-lo! Segundo o comentário do Cardeal Marc Ouellet, que o apresentou em Roma, "Jesus de Nazaré é mais do que um livro, é um testemunho comovente, fascinante, libertador". Para o Cardeal canadiano, o propósito do Papa foi encontrar o "Jesus real, (...) o «Jesus dos Evangelhos.., escutado em comunhão com os discípulos de Jesus de qualquer tempo".

E queria convidar-vos a fazermos uma leitura deste livro em grupo, para melhor podermos apreciar e compreender a sua profunda riqueza: estes encontros de leitura serão às segundas-feiras, às 21h30, numa sala do Secretariado Paroquial, começando em 21 de Março e terminando em 18 de Abril (ou quando chegarmos aofim...).

Também o exemplo do jejum de 40 dias que Jesus fez nos convida a imitá-Lo. Actualmente, o jejum só é obrigatório para todos (a partir dos 18 anos e até aos 60), em 4ª Feira de Cinzas e em 6ª Feira Santa. Mas seria bom fazê-lo durante toda a Quaresma (à excepção dos domingos)!

A forma tradicional e mais rigorosa de jejum consiste numa única refeição completa por dia (almoço ou jantar), e um pequeno-almoço mais simples. (Pode tomar-se alguma coisa antes de deitar). Mas há outras formas mais suaves ou alternativas de jejum, e que também têm valor: abster-se dos alimentos (ou bebidas) de que se gosta mais; ou ainda não comer nada (não «petiscar») ao longo do dia entre o almoço e o jantar.

Nas últimas décadas, criou-se uma mentalidade de um certo desprezo pelo jejum, mas como podemos admiti-lo, se o próprio Jesus o praticou "quarenta dias e quarenta noites"?

Relativamente às sextas-feiras, são dias de abstinência para todos (a partir dos 14 anos), e todos sabemos que a prática de sempre foi a abstinência de carne, que seria bom manter (embora, segundo as normas da Conferência Episcopal, possa ser substituída por uma outra «alimentação simples e pobre»).

E também os mais novos podem fazer o seu «jejum» - por exemplo abdicar das guloseimas - e a sua «abstinência», na medida das suas capacidades!

Há tempos li uma referência a um Bispo chinês, o Cardeal Ignatius Kung, que foi libertado em 1985, depois de 30 anos na prisão, e que ficou surpreendido ao saber que a abstinência das sextas-feiras tinha mudado. É evidente que não pensou que se tenha tratado de uma mudança positiva. Durante a sua prisão, que foi uma Quaresma contínua, julgou que as mortificações dos seus irmãos o tinham apoiado. Na realidade, foi ao contrário.

Como propósito unificador de toda a Quaresma, proponho a cada um que faça diariamente um tempo de adoração a Jesus Cristo na Eucaristia, presente no Sacrário, e se possível participe todos os dias na Missa. Quem vier aos Jerónimos de manhã, estará a sair às 10hOO, ou se vier à noite estará em casa às oito. Mas não faltam outros horários na cidade de Lisboa...

Se formos generosos no jejum e na oração, o nosso coração terá mais espaço para os outros, a nossa partilha será mais efectiva, a nossa amizade será mais sincera, e o nosso amor fraterno terá as dimensões do próprio Coração de Jesus, de onde provém um anti-tsunami, isto é, um caudal transbordante de amor e misericórdia, à escala do mundo, para salvar todos os homens.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Arquivo