27 de Março de 2011 - Domingo III da Quaresma

Uma sede maior

Durante o êxodo, após atravessarem o «Mar Vermelho» (Êxodo 15, 4), o principal problema dos israelitas era a falta de água. A sua primeira etapa foi um deserto, o deserto de Sur, onde caminharam durante três dias sem encontrar água, e quando finalmente encontraram uma fonte, em Mara, a água não era potável, era amarga. Mas Deus indicou a Moisés um pedaço de madeira, que devia lançar à água, "e a água tornou-se doce" (Êxodo 15, 22-25).

Nesta passagem, que é anterior à que hoje lemos, os Hebreus representam a Igreja, novo Povo de Deus, que prossegue o seu caminho terrestre conduzida por Deus, apesar das fraquezas dos seus filhos. Também a nós Deus não desiste de conduzir e orientar, apesar das nossas resistências!

A seguir, faltou o alimento, e Deus enviou codornizes e o maná, com que o povo se pôde alimentar (Êxodo 16). Mais adiante, em Refidim, o povo estava tão desesperado por água, que voltaram a duvidar de Deus, e quase apedrejaram Moisés, furiosos por tê-los conduzido a um local deserto, como se lê hoje na lª leitura (Êxodo 17, 3-7).


Centro Alleti, Jesus e a samaritana, Igreja de Nossa Senhora do Poço, Jali Eddib, Líbano

Mas a grande falta que o povo comete nao é contra Moisés, é contra Deus: já não acreditam que Deus os possa conduzir no deserto, e perguntam: «O Senhor está ou não no meio de nós?» Tremenda dúvida, tremenda ingratidão! Deus, porém, pacientemente aceitou o desafio, e disse a Moisés que batesse numa rocha com a sua vara, e logo brotou água para o povo beber.

Segundo o autor sagrado, Moisés chamou àquele lugar Massa, que vem de um verbo que significa pôr à prova, e Meriba, que vem de uma raiz que significa contestar. Mas como é possível "pôr à prova" ou "contestar" o Senhor, que dá o pão do céu e a água do rochedo ao seu povo no deserto, mostrando assim o seu domínio sobre todas as adversidades?

Esta leitura do Êxodo prepara-nos para acompanhar o diálogo entre Jesus e a samaritana,junto ao poço de Jacob. Para entender este episódio, é preciso voltar de novo à história da salvação de Israel. Jacob é uma grande figura da história bíblica, é o antepassado comum das Doze Tribos. Foram os seus filhos que deram origem a cada uma das Doze Tribos de Israel.

Mas o Evangelho de S. João, como salienta Bento XVI na la parte do seu livro Jesus de Nazaré, apresenta Jesus como "um novo e mais importante Jacob" (p.305). Quando Jesus chamou os seus primeiros discípulos, um deles foi Natanael, a quem recordou o sonho de Jacob, que se conta no livro do Génesis. Como não se lê muitas vezes este passo, gostaria de o recordar:

"Jacob partindo de Bersebeia, tomou o caminho de Harã. Ao anoitecer, procurou um sítio onde passar a noite; procurou uma pedra que lhe servisse de travesseiro para descansar a cabeça, e adormeceu. E teve um sonho: viu uma escada que ia da terra até ao céu, e os anjos de Deus subiam e desciam porela. No cimo das escadas estava o Senhor, que lhe disse: «Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão e do teu pai, Isaac. Essa terra em que estás deitado é tua. Dar-ta-ei a ti e aos teus descendentes. Porque terás tantos descendentes como o pó da terra; hão-de cobrir a Terra do Oriente ao Ocidente, e do Norte ao Sul. E todas as nações da Terra serão abençoadas por intermédio de ti e deles" (Génesis 28,1-14).

Ora Jesus prediz a Natanael que os discípulos hão-de ver o céu abrir-se, e os anjos de Deus subirem e descerem sobre Ele (João 1, 51), o que significa que em Jesus se cumpre o que tinha sido anunciado a Jacob: sendo o Messias de Israel, Jesus é também o "Filho do homem", que reúne o céu e a terra no seu Reino. Ele é o único Mediador, que dá acesso ao Pai.

E agora, junto ao poço de Jacob, a samaritana mostra a sua gratidão por, tantos séculos antes, Jacob ter mandado fazer este poço, que, na fronteira do deserto, matou a sede a tanta gente.

"Mas no homem - escreve Bento XVI há uma sede maior; não lhe basta a água da fonte, porque procura uma vida que está para além da esfera biológica".

Jesus anuncia à samaritana esta sede que existe em nós, a sede de uma vida para além da vida biológica, para além da vida puramente terrena ou material. Existirá então uma água que possa saciar esta sede?

Sim, esta água, simbolizada pela água do poço de Jacob, é o próprio Deus, é o Espírito de Deus, que "que sacia a sede mais profunda do homem, e lhe dá a vida total, pela qual anela sem a conhecer" (p. 306).

E a samaritana entendeu, e acreditou que Jesus é a fonte desta água, que se tornará em cada um "uma nascente que jorra para a vida eterna".

Esta mulher percebeu que a sua vida tinha ganho subitamente um novo sentido, uma nova alegria, e foi a correr contar aos homens e mulheres da sua terra que tinha encontrado o Messias.

Mas depois, também eles conheceram Jesus pessoalmente, e puderam dizer: "Nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é o Salvador do mundo".

Nesta 3ª semana da Quaresma, vamos assumir mais confiadamente a nossa missão de apóstolos e evangelizadores.

Não podemos dar a fé às outras pessoas, mas podemos falar de Jesus com verdade, a partir do que já vivemos, para que elas próprias façam essa mesma experiência, e encontrem em Jesus Cristo o sentido pleno da vida, a fonte de água viva que jorra para a vida terrena.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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