3 de Abril de 2011 - Domingo IV da Quaresma

Em tempo de crise

Jesus, um dia, encontrou um cego de nascença, e desejou manifestar nele as obras de Deus. Então, ungiu com lodo os olhos do cego - numa clara evocação da criação do homem por Deus, tal como a apresenta o capítulo 2 do livro do Génesis - e a seguir, numa evidente profecia da nova criação que se inicia em nós com o Baptismo, mandou-o lavar-se à piscina de Siloé.

"Ele foi, lavou-se e ficou a ver", diz S. João. Jesus é Luz que dá a vista aos cegos, só Ele pode libertar da escuridão os que ainda vivem mergulhados nas trevas.

Também nós nascemos cegos, em sentido espiritual. Mas passámos a ver, quando Jesus nos iluminou com a sua luz. A nossa cegueira espiritual foi curada pelo banho do baptismo que recebemos na santa Igreja, e então deixámos de ser cegos, passámos a ver. E, tal como o cego de nascença, quer fôssemos crianças, no dia do nosso baptismo, quer já adultos, começámos então uma longa caminhada.


Jerôme Nadal, Evangelicae Historiae Imagines, A cura do cego de nascença (1593)

O cego de nascença, curado por Jesus, não viu logo tudo, não entendeu tudo de um momento para o outro. Primeiro, parecia ainda um pouco fechado em si próprio, quando respondeu aos judeus que o interrogavam: "«O que sei, é que eu era cego, mas agora vejo»".

Mas depois, e apesar da perseguição que já estava a começar a sofrer, assumiu claramente a defesa de Jesus, dizendo: " «Se Ele não viesse de Deus, nada podia fazer» ". Há um crescendo de fé e de compreensão do mistério de Jesus por parte deste homem. A sua fé amadurece e purifica-se, e o seu amor por Jesus aumenta a cada instante. No final, já depois de ter sido expulso da sinagoga, reconhecerá que Jesus é o Messias, e, prostrando-se diante d'Ele, professa a sua fé com grande clareza: "Eu creio, Senhor".

Acontecerá o mesmo connosco? A nossa fé aumenta em cada dia? Reconhecemos que a nossa vida cristã é um caminho de fé que começou um dia, mas não pode parar, tem de avançar em cada dia? Enfrentamos as dificuldades e as incompreensões como oportunidades para crescer ainda mais na fé?

Na próxima Vigília Pascal, milhares de jovens e adultos, em todo o mundo, serão baptizados, isto é, serão iluminados, os seus olhos vão abrir-se plenamente para a luz de Deus. Mas a iniciação cristã, tanto para eles como para nós, tem de continuar a vida inteira. A vida de todos os cristãos é uma caminhada de aprofundamento da fé, desde o primeiro ao último instante da nossa vida. E a Igreja procura dar a todos os meios de formação permanente proporcionados às necessidades e às capacidades de cada um.

Mas não basta acreditar, é preciso viver de acordo com a fé. Pelo facto de acreditarmos em Jesus, temos também de viver como filhos da luz. S. Paulo diz-nos hoje na 2ª leitura: "Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, porque o fruto da luz é a bondade, ajustiça e a verdade".

E poderíamos ainda perguntar: em tempo de crise económica, procuramos também cultivar as virtudes humanas? E aqui poderíamos lembrar, não só as quatro grandes virtudes morais ou cardeais - prudência, justiça, fortaleza, temperança - mas ainda muitas outras que as desenvolvem e aplicam, como a autoconfiança, a benevolência, a boa disposição de espírito, a serenidade, a coragem, o desapego, o sentido de responsabilidade, a determinação, a disciplina, a generosidade, a solidariedade, a honestidade, a humildade, a misericórdia, a paciência, etc.

Precisamos de nos ajudar uns aos outros, nesse esforço por viver na nossa vida corrente uma grande qualidade humana e divina. Com amizade fraterna, devemos ser, uns para os outros. esse apelo constante a uma vida mais rica de virtudes humanas e também a uma vida mais santa, à qual todos somos chamados.

Há pessoas que podem estar presas a pecados passados, faltas antigas mas nunca confessadas, nunca absolvidas. Muitas consciências tornaram-se tolerantes com o mal, mas o mal continuará sempre a pesar nas consciências, por mais que se queira esquecê-lo ou justificá-lo.

Também pode haver outras faltas mais leves, mas que igualmente ofendem a Deus, e tornam­se rotina, e por isso entravam ou dificultam a caminhada. A única saída, nos dois casos, é recorrer ao sacramento do Perdão, à Confissão sacramental.

Alguém me contou que, numa reunião, foi dito que não se deveria andar a «incomodar» os sacerdotes com a confissão frequente; bastava confessar-se quando houvesse pecado mortal. Mas a Igreja, pelo contrário, em numerosos documentos, recomenda a Confissão frequente, ao serviço da "da pedagogia da conversão que nasce da Eucaristia", como escreveu ainda recentemente Bento XVI, na Exortação Apostólica Sacramentum caritatis (n. 21).

Deveríamos portanto ser «apóstolos» da Confissão, e tentar trazer pelo menos um amigo à Confissão, até à Páscoa! E cada um confessar­se com grande sentido de penitência e desejo de santidade e vida nova.

Neste 4º Domingo da Quaresma, renovamos o propósito de continuar a caminhar em direcção à Páscoa, e o desejo de que ninguém desista nem banalize este caminho de penitência, por causa do ambiente pessimista ou relativista que nos envolve, mas que todos nos esforcemos, e nos apoiemos mutuamente, para podermos celebrar com amor o mistério da morte de Jesus Cristo e contemplar finalmente a luz intensa da sua gloriosa ressurreição.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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