10 de Abril de 2011 - Domingo V da Quaresma

Ressurreição espiritual

A ressurreição de Lázaro, relatada pelo Evangelho de S. João, não é só um sinal e uma prova do poder divino de Jesus, é também um anúncio e uma figura da nossa ressurreição espiritual, que já começou a acontecer desde que recebemos a graça de Cristo, no Baptismo.

Ao voltar à vida pelo poder de Jesus, Lázaro representa todos aqueles que, pelo baptismo, já ressuscitaram - ou vão ressuscitar ­ para a vida nova de filhos de Deus.


Duccio di Buoninsegna, A ressurreição de Lázaro (1308-1311)

Mas antes, Lázaro, que jaz no túmulo, atado de pés e mãos, representa o homem privado da vida sobrenatural e agrilhoado pelas cadeias do pecado, esperando que chegue o Libertador. Como diz Santo Agostinho, "Lázaro, morto há quatro dias e encerrado no sepulcro, é o símbolo de um grande pecador" (Homilia 49 sobre o Evangelho de S. João). Muitas pessoas permanecem presas, ligadas, quase escravizadas pelos seus erros e pecados. Quem as poderá libertar?

No Evangelho, S. João diz que Jesus "bradou com voz forte: «Lázaro, sai para fora»". Comentando esta passagem, disse Santo Agostinho: "Como é difícil que se levante aquele está oprimido pelo peso de maus hábitos! E, no entanto, Lázaro levanta-se. Uma graça oculta interiormente, vivificou-o, e, ao som da voz poderosa, ele levanta-se. Que aconteceu? Foi Jesus que, com voz forte. bradou: «Lázaro, sai para fora»".

Santo Agostinho continua: "Quando confessas o teu pecado, vens para fora. Que significa vir para fora, senão manifestar-se, como quem sai de um esconderijo? Para que reconheças a tua culpa, Deus chama-te com um forte brado, isto é, com uma graça extraordinária. E assim como Lázaro saiu ainda atado, como um réu confesso mas ainda não absolvido, para que fosse liberto dos seus pecados, o Senhor disse aos servos: «Desligai-o e deixai-o ir». Que significa «Desligai-o e deixai-o ir»? O mesmo que Jesus disse noutro momento: "O que desligardes na terra será desligado nos céus" (cf. Mateus 16, 19).

É uma graça enorme poder ouvir o que o sacerdote diz na Confissão, ao mesmo tempo que traça sobre nós o sinal da Cruz: : «Eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo». Preparemo-nos, pois, para a Confissão e Comunhão pascal, para que a Páscoa, já tão próxima, nos traga uma verdadeira ressurreição espiritual!

Hoje ouvimos também, na 1ª leitura, aquela impressionante profecia de Ezequiel, que o povo da Antiga Aliança escutava como uma mensagem de conforto e de esperança, numa situação de grande sofrimento e de prova.

No tempo de Jesus, muita gente ouvia esse texto como um anúncio de que, com a vinda do Messias, todos os justos ressuscitariam, para participar na alegria do novo Reino. Mas a profecia de Ezequiel pode aplicar­se a muitas situações de morte que se verificam na existência humana. A morte dos nossos familiares e amigos é sempre dolorosa; mas também há casos de outras mortes, em sentido moral, por causa de uma ofensa recebida, ou de uma deslealdade por parte de alguém em quem se tinha posto toda a confiança; há vidas destruídas pela droga, pela corrupção ou pelo roubo; há fracassos conjugais e fracassos profissionais; há ainda muitas outras situações dolorosas, quando se é vítima de invejas, de maledicências, de injustiças.

Só o Espírito de Deus, como dizia o profeta, tem o poder de vencer estas situações de morte; só "o Espírito d'Aquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos", como diz S. Paulo, tem o poder de reanimar esses "ossos ressequidos", que às vezes são os seres humanos.

Voltando ao Evangelho, e interpretando-o agora em sentido literal, vemos que na casa de Marta e de Maria, havia muitos amigos que tinham vindo para as consolar pela morte do irmão, mas, apesar da sinceridade dos seus sentimentos, que podiam aqueles amigos fazer diante do mistério da morte, que nos ultrapassa totalmente? Era preciso mandar chamar Jesus, como fizeram as duas irmãs de Lázaro.

E também hoje precisamos de chamar por Jesus, e até, em certos momentos, talvez seja preciso invocá-Lo como fazem aquelas pessoas que ficam sepultadas debaixo dos escombros de uma avalanche ou de um tremor de terra, e que procuram, com os seus gritos ou gemidos, chamar a atenção das equipas de socorro. Muitos são ouvidos, e salvam-se, mas outros já estão tão fracos, que ninguém os ouve, e acabam por morrer.

Mas Jesus ouvirá sempre, mesmo os gemidos mais débeis daqueles que chamam por Ele, e virá salvar-nos. E a todos dirá, como disse a Marta: "Eu sou a ressurreição e a vida. Quem acredita em Mim, ainda que tenha morrido, viverá".

Mesmo que alguma vez nos sintamos como mortos, ou sem forças, ou sem alegria, ou sem ânimo, aproximemo-nos d'Ele, e Jesus dar-nos-á o seu perdão, uma nova esperança, uma vida nova, já neste mundo, e um dia a vida eterna numa alma glorificada e num corpo ressuscitado, à semelhança do próprio Jesus, ressuscitado de entre os mortos para nunca mais morrer.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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