8 de Maio de 2011 - Domingo III da Páscoa

Para continuar a caminhar

O episódio dos discípulos de Emaús mostra-nos dois homens que caminhavam cegos, em sentido espiritual, como muitas vezes os seres humanos podem andar, isto é, fechados à luz de Deus, e por isso incapazes de perceber o sentido da vida e dos seus acontecimentos, bons ou maus.

Os dois caminhantes estavam amargurados com a recente morte de Jesus, e tinham deixado nascer a dúvida e o desânimo nos seus corações. Por isso voltavam, cheios de tristeza, à sua pequena aldeia natal, Emaús.

E quando, a certa altura, um caminhante desconhecido - que não era outro senão o próprio Jesus - começou a caminhar ao lado deles, foram capazes de Lhe contar com sincera emoção tudo o que tinha acontecido em Jerusalém nos últimos dias. Mas, mesmo depois, continuaram cegos, "os seus olhos estavam impedidos de O reconhecerem".


Jacopo PONTORMO, A Ceia de Emaús (1525)

Tudo começou a mudar, quando o próprio Jesus, depois de os repreender pela sua lentidão de espírito, lhes foi explicando, "em todas as Escrituras, o que Lhe dizia respeito". Nessa altura, o íntimo daqueles homens deixou de estar gelado e triste. Parecia que um novo fogo - um novo entusiasmo - tinha começado a arder nos seus corações. Já percebiam tudo melhor. Já tudo fazia mais sentido. Mas nem mesmo assim reconheceram Jesus.

Porém, pouco depois, quando já iam caindo sobre a terra as sombras da noite, convidaram aquele desconhecido para ficar com eles e partilhar com eles a refeição. E foi então que os seus olhos se abriram. S. Lucas salienta mesmo que não se limitaram a convidá-lo, mas tiveram de insistir, pedindo-Lhe que ficasse, porque Ele mesmo "fez menção de ir para diante".

Comentando este gesto dos dois discípulos, o Papa S. Gregório Magno, (numa homilia pronunciada sobre este texto, na Basílica de S. Pedro, em 17 de Abril de 591), faz esta sugestiva observação: "Deste exemplo podemos concluir que não basta convidar os peregrinos a entrar em nossa casa, mas que é preciso persuadi-los e trazê-los connosco".

Foi, portanto, a sua hospitalidade para com um estranho, - por mais íntimo e familiar que já tivesse passado a ser para eles-que definitivamente os preparou para o reconhecimento de Jesus vivo.

Comenta S. Gregório: "Era preciso pô-los à prova, para ver se aqueles que não O amavam ainda como Deus, eram capazes ao menos de O amar como um estranho". E continua: "Aqueles que tinham a Verdade como companheira de viagem não podiam estar longe da caridade... Como a um peregrino, ofereceram-Lhe hospitalidade. Prepararam a mesa, serviram os alimentos e reconheceram, pelo modo de partir o pão, o Deus que não tinham reconhecido pela explicação da Sagrada Escritura".

Na verdade, foi "ao partir o pão" que O reconheceram. Foi esse gesto inconfundível de Jesus que lhe abriu os olhos. E, nessa altura, já não podiam desistir. Voltar atrás, nunca mais! Decidiram então continuar a partilhar a sua vida com os outros discípulos do Senhor. Regressaram a Jerusalém, "e encontraram reunidos os Onze e os que estavam com eles, que diziam: «Na verdade, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». E eles contaram o que tinha acontecido no caminho e como O tinham reconhecido ao partir o pão".

Os dois discípulos sentiam-se absolvidos da sua infidelidade, da sua falta de confiança, do seu desânimo. Mas o próprio S. Pedro, a quem Jesus aparecera pessoalmente, tinha sido absolvido das suas negações, e doravante poderia confirmarosseus irmãos, como Jesus Ihetinha anunciado (Lucas 21, 31-34).

S. Gregório Magno faz este interessante comentário: "Ouvindo os preceitos de Deus não foram iluminados: mas cumprindo-os, conheceram a luz. Porque está escrito: «Não são aqueles que entendem a lei que são justos aos olhos de Deus, mas aqueles que a praticam.. (Romanos 2, 13). Todo aquele, pois, que quiser ter a inteligência do que entendeu, deve prontamente realizá-lo. Assim, o Senhor não Se fez reconhecer enquanto falava, mas dignou-se dar-Se a conhecer, quando O serviam" (Homilia 23).

O Evangelho de hoje, que é um texto de grande beleza, admiravelmente escrito por S. Lucas, ensina-nos, portanto, que não só a fé leva à caridade, mas também a caridade conduz à fé.

E ensina-nos ainda que a caridade, na sua expressão mais básica, consiste em partilhar: antes de mais, o pão, ou os bens materiais, mas igualmente os bens espirituais - como a esperança, a fé ou a alegria - com quem estiver mais necessitado, tanto de uns como dos outros. E ensina-nos sobretudo a não nos isolarmos, a não nos fecharmos em nós mesmos, mas a procurarmos sempre a comunhão dos irmãos, a comunhão da Igreja.

É importante sentirmo-nos a caminhar com outros e ao lado de outros, e não só com conhecidos e amigos, mas também com os que possam parecer desconhecidos, mas que, na Igreja, também sentimos como irmãos, porque a todos Jesus quer continuar a explicar as Escrituras, e com todos quer partilhar o seu Pão, que é hoje o Pão da Eucaristia, o seu próprio Corpo, sustento dos peregrinos que somos todos nós, e dos que não querem desistir nem voltar para trás, mas continuar a caminhar na luz e na alegria da sua Ressurreição.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Arquivo