15 de Maio de 2011 - Domingo IV da Páscoa

O Redentor

Um dia, como nos conta S. João no Evangelho de hoje, Jesus disse de Si mesmo: "Eu sou a porta". Que significam estas palavras?

Para as entender, queria voltar convosco à noite de Natal de 1999: sozinho, à frente de todos, caminhando já com grande dificuldade, mas com uma grande esperança no coração, o Papa, o Beato João Paulo II, depois de ter rezado em silêncio, de joelhos, atravessou a Porta Santa da Basílica de S. Pedro e inaugurou o Grande Jubileu do Ano 2000. Neste momento, o Santo Padre deve ter pensado nestas palavras de Jesus que hoje ouvimos: "Eu sou a porta". E deve ter sentido, como nós sentimos, que é preciso passar por Jesus para entrarmos na vida, para sermos salvos.

Quando Jesus diz: "Eu sou a porta", ensina­nos que só Ele é o Salvador, enviado pelo Pai. Na vida humana há muitos caminhos, alguns muito perigosos, e muitos deles que não levam a lado nenhum, mas há um único acesso para a vida de comunhão com Deus: é Jesus Cristo, caminho único e absoluto de salvação.


Andrea dei Sarto, O Redentor (c. 1520)

É este o ensinamento do próprio Jesus no Evangelho de S. João: "Quem entrar por Mim, será salvo". É preciso passar por Jesus, para termos a vida. E Jesus di-lo ainda mais claramente um pouco depois: "«Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância»". Jesus é a fonte de uma vida abundante, de uma vida plena. Jesus quer dar-nos esta vida, mas será que a desejamos, será que a aceitamos?

Na 1ª leitura, dos Actos dos Apóstolos, aparece-nos uma grande multidão de pessoas, que, através da pregação de S. Pedro, tomam conhecimento de que Jesus ressuscitou. Imediatamente sentem a dor de terem sido cúmplices na morte de Jesus, o que significa que, não apenas os chefes do povo, mas também muitos outros Judeus se sentiram responsáveis pela condenação injusta do Senhor. Mas, ao contrário dos chefes, estes homens entristeceram-se profundamente com a consciência do que tinham feito, e perguntaram a S. Pedro e aos outros apóstolos: "«Que havemos de fazer, irmãos?»" E S. Pedro respondeu serenamente: "«Convertei-vos, e peça cada um de vós o Baptismo em nome de Jesus Cristo»".

Também a estes homens, como a nós, se aplica o que diz o mesmo S. Pedro na sua 1ª Carta: "Pelas suas chagas fomos curados". O Baptismo que receberam aplicou-lhes a eficácia da redenção de Cristo, toda a força salvífica das suas chagas, isto é, do seu sacrifício e da sua morte redentora.

Quanto a nós, temos consciência de que não colaborámos directamente - a não ser pelos nossos pecados ­na Paixão do Senhor. Mas talvez não tenhamos correspondido sempre ao seu amor. Por isso, é necessário que também nós hoje perguntemos: "«Que havemos de fazer?» É necessário que cada um de nós pergunte, diante de Jesus ressuscitado: "Que hei-de fazer?»

Para muitos, Jesus ressuscitado pode reservar surpresas, pedidos inesperados, ou chamamentos que talvez já lá estivessem no fundo do coração, mas que só um dia, quando Deus o quer, se tornam nítidos, claros, evidentes. Isso aconteceu com o jovem Karol Wojtyla. Sempre tinha sido um jovem profundamente crente, e muitos dos seus amigos já tinham pensado que seria normal que entrasse no Seminário para vir a ser sacerdote, mas a decisão só aconteceu mais tarde, como ele próprio relata no livro autobiográfico Dom e mistério: com 22 anos, em plena guerra mundial, consciente das grandes dificuldades que a Igreja então enfrentava, tomou definitivamente a decisão de entrar no Seminário de Cracóvia, que funcionava clandestinamente (p. 21).

No Início deste livro, reflecte-se o pedido feito ao Papa por um jornalista: «Santo Padre, conte-nos a história da sua vocação..." E João Paulo II respondeu: "A história da minha vocação sacerdotal?! É sobretudo Deus que a conhece. Na sua dimensão mais profunda, cada vocação sacerdotal é um grande mistério, é um dom que ultrapassa infinitamente o homem. Experimenta-o claramente cada um de nós, sacerdotes, durante toda a vida. Perante a grandeza deste dom, sentimo-nos bem indignos dele" (p. 9).

Toda a Igreja é chamada a pedir hoje, Domingo do Bom Pastor, que este dom seja dado a mais jovens, e seja correspondido! Que aqueles que Deus chama, amadureçam, como o jovem Karol, a consciência deste dom e, no momento certo, respondam sim a Deus, um sim definitivo. para toda a vida.

Entrar pela porta, que é Jesus, e permanecer atento às surpresas e aos pedidos de Deus não é exclusivo de alguns, é para todos os cristãos, sacerdotes, religiosos e leigos. Cada dia renovamos o desejo de não ficar de fora. mas de entrar e permanecer no amor de Jesus.

Gostaríamos também que muitas outras pessoas sentissem este desejo, e isso, numa certa medida, depende de nós. Por que é que muitas pessoas não querem entrar pela porta que é Jesus? A alguns apetece-nos perguntar: Por que é que esperam? Venham. entrem. avancem! Que o próprio Jesus a todos atraia e chame, e nos torne disponíveis para mostrar o caminho, já que nós próprios queremos continuara caminhar por este caminho seguro, o único que leva à vida, o único que conduz ao Pai.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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