29 de Maio de 2011 - Domingo VI da Páscoa

«Glorifica o teu Filho»

Quando se pergunta aos adultos e jovens que vão ser baptizados: «Que pedes à Igreja de Deus?», Cada um responde: «A fé». A seguir pergunta-se: «E para que te serve fé?». Respondem então: «Para alcançar a vida eterna».

E se perguntássemos ainda: «E que é a vida eterna?», po~eriam responder com as palavras de Jesus que ouvimos no Evangelho de r. hoje: "É esta a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e Aquele que enviaste, Jesus Cristo".

A vida eterna, a vida sem fim, que também é sinónimo de vida plena, e que não começa só depois da morte, mas começa já hoje, quando temos fé, consiste em conhecer a Deus e o seu Enviado, o Filho feito homem, Jesus Cristo.

Sem este conhecimento não há vida verdadeira, ou há só uma vida breve, frágil, no fundo incompreensível. Por falta de empenho nosso, criou-se no mundo a mentalidade de que se pode viver sem Deus, e não há problema. De facto, pode viver-se sem Deus, mas isso só pode ser fonte de inquietação ou, pelo menos, só pode ser (ou só deveria ser) ocasião de interrogação, de busca honesta e muitas vezes sofrida e dolorosa, e nunca de uma apatia indiferente.

Há muitas pessoas que não têm fé e são pessoas boas, e algumas são mesmo excelentes pessoas, com manifestas virtudes e qualidades humanas, que me merecem o maior respeito.


Cristo Pantocrator

Mas é inegável que um indiferentismo fácil, um descartar ignorante e rude da fé, fruto do desconhecimento, ou de uma catequese frouxa, ou da falta de testemunho dos cristãos, pode estar ligado ao crescimento do mal no mundo, e em particular ao aumento de crimes e violências de toda a espécie que hoje caracteriza nossa sociedade.

Muitas pessoas cometem crimes, fraudes, roubos, abusos, violências cruéis sobre outras pessoas, etc., etc., porque esperam talvez poder fugir à justiça humana e também por não consideram sequer a hipótese de que poderão ter de prestar contas um dia diante da justiça divina.

E com isto não pretendo dizer que Deus deva sobretudo ser visto como Juiz, ou seja preciso sobretudo como Juiz, para alertar as consciências e para as atemorizar.

É verdade que o santo temor de Deus nos leva a não O querer ofender, e a não pôr em risco, por falta graves, a nossa salvação eterna. Mas Deus é sobretudo necessário ao homem como supremo inspirador, como fonte de vida, como doador de vida eterna, de vida plena! Sem Deus, tudo se fecha sobre si próprio, tudo se esgota!

"Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido". Assim se lê no famoso romance Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski. Mas é bom notar que esta frase de Ivan Karamazov não é dita com tristeza, é dita com frieza. Não é um desabafo, é um diagnóstico. O mundo está despedaçado, está estilhaçado, reconhecem os dois irmãos, vamos reconstrui-lo. Mas com que fundamento? Não há fundamento.

Para reconstruir o mundo não chegam claramente medidas avulsas nem mesmo as chamadas «reformas estruturais». Podem ser necessárias e até indispensáveis para os Estados, mas não são suficientes, não tenhamos ilusões, para renovar as sociedades.

O nosso mundo não terá fundamento, e não terá reconstrução possível, enquanto não se fundar de novo em Deus, na sua Palavra, na definitiva revelação que fez de Si mesmo Naquele que enviou, Jesus Cristo, o Filho, que é o seu Verbo, a sua Palavra eterna, que um dia se revestiu da nossa carne mortal, o Verbo encarnado.

Mas que podem então fazer os que não têm fé? Há uma coisa, seguramente, que todos poderão fazer: não cair na arrogância. Não fechar o coração. Não achar normal viver «como se Deus não existisse». Pelo contrário, aceitar na prática Deus como uma realidade.

É o que significa a frase latina que um dia Bento XVI usou: "Viver no mundo veluti si Deus daretur". Esta frase aparece num Discurso de Bento XVI à Pontifícia Universidade Lateranense, em 21 de Outubro de 2006; e o Santo Padre já a tinha dito, ainda como Cardeal, num extraordinário discurso que fez no Mosteiro de Santa Escolástica, em Subiaco, na véspera da morte de João Paulo II, sobre a crise da cultura na Europa.

Quem não crê é convidado a admitir que Deus pode ser uma realidade. "Veluti si Deus daretur..." É o contrário de viver «etsi Deus non daretur», «como se Deus não existisse». Significa: viver admitindo a possibilidade de Deus! E portanto, implica escolher os caminhos que aproximarão o mais possível d'Ele, que é o fim para o qual tudo se encaminha, como diz S. Paulo (cf. 1 Coríntios, 15, 24).

Oxalá que todos os que já crêem e também os que ainda procuram, possam fazer suas estas palavra de Santo Anselmo de Aosta: "Que eu Te procure desejando-Te, que eu Te deseje procurando-Te, que Te encontre amando-Te, que Te ame reencontrando-Te" (Proslogion, 1).

E quanto a nós, que, por graça, somos crentes e discípulos do Senhor, pedimos que se cumpra sempre mais este pedido de Jesus, na sua "Oração Sacerdotal": "Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho, para que o teu Filho Te glorifique, e, pelo poder que Lhe deste sobre toda a criatura, Ele dê a vida eterna a todos os que Lhe confiaste". Ámen.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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