5 de Junho de 2011 - Ascensão do Senhor

A capacidade de contemplar

Depois da ressurreição, Jesus permaneceu com os Apóstolos quarenta dias, que empregou, como diz S. Leão Magno (Papa entre 440 e 461), "para nossa instrução" (Sermão I da Ascensão do Senhor, n. 1).

Muitas coisas aconteceram nestes dias, como realça o mesmo S. Leão Magno: "Neles foi afastado o medo da morte cruel, e manifestou-se a imortalidade não apenas da alma, mas também a do corpo. Nestes dias, mediante o sopro do Senhor, todos os apóstolos receberam o Espírito Santo; neste dias foi confiado ao bem­aventurado apóstolo Pedro, mais que a todos os outros, o cuidado das ovelhas do Senhor, depois de ter recebido as chaves do reino. Durante esses dias, o Senhor juntou-se como terceiro companheiro a dois discípulos que iam pela estrada, e, para dissipar todas as trevas das nossas dúvidas, repreendeu a lentidão de espírito desses homens cheios de medo e pavor (...) "(n. 2).

Mas, terminados estes dias, "dispostos segundo um plano sagrado e utilizados para nossa instrução", era conveniente que Jesus Cristo subisse ao Céu, como ensina S. Tomás de Aquino: "Ainda que o Seu corpo ressuscitado já tivesse a glória essencial, a Ascensão ao Céu iria conferir-lhe um aumento da glória de que gozava, pela dignidade do lugar a que ascendia" (cf. Suma Teológica III, q. 57, a.1).


ícone Oriental, A Ascensão do Senhor

Nesse momento, os discípulos sentiram certamente a saudade de já não verem mais Jesus neste mundo. Mas a sua tristeza foi momentânea, e foi logo superada por uma alegria muito maior. Jesus recebeu a plena glória, que, com toda a justiça, Lhe foi dada pela sua vitória, e por isso, mesmo deixando de O ver como até então, só podiam alegrar-se, como também nós só podemos alegrar-nos!

Um outro motivo de alegria decorre de os Apóstolos verem a nossa pobre humanidade já glorificada na própria humanidade gloriosa de Jesus, como observa ainda S. Leão Magno:

"Na verdade, era grande e inefável o motivo de sua alegria: diante daquela santa multidão, contemplavam a natureza humana que subia a uma dignidade superior à de todas as criaturas celestes, ultrapassando até mesmo as hierarquias dos anjos e a altura sublime dos arcanjos. Deste modo, a natureza foi recebida junto do Eterno Pai, que a associou ao trono da sua glória, depois de tê-la unido, na pessoa do Filho, à sua própria natureza divina" (ibid.)

Como vivemos rodeados de problemas e preocupações, e até, em termos sociais e económicos, mergulhados numa profunda crise, poderíamos pensar que tudo isto poderá ser muito belo, mas não tem nada que ver com a nossa vida. Mas não é verdade, tem tudo a ver!

Precisamos de ter a capacidade de nos maravilharmos com aqueles "grandes sacramentos" que se confirmaram nos quarenta dias até à Ascensão do Senhor com aqueles "grandes mistérios que se revelaram" nesses dias, como diz ainda S. Leão Magno, para darmos um contributo diferente e mais eficaz à sociedade e ao mundo em que vivemos.

Se formos mais contemplativos, também seremos, de modo mais eficaz, homens e mulheres de acção. O que falta muitas vezes a quem tem o poder de gerir ou de governar, não é a capacidade de agir, é a capacidade de contemplar, a capacidade de ver para além do imediato, de olhar, com olhos iluminados, o que nos transcende.

No séc. V, S. Leão Magno viveu num tempo de profunda crise social e política, mas, iluminado pela sua profunda fé, soube agir com grande coragem em momentos decisivos, tanto da vida da Igreja como da sociedade. Um exemplo, entre muitos, foi a sua atitude, quando Átila, rei dos hunos, que a si mesmo chamava de "Flagelo de Deus", invadiu a Itália, em 452,e depois de já ter invadido Milão, se preparava para descer para Roma. A pedido do imperador, do Senado e do povo, S. Leao Magno, foi corajosamente ao seu encontro, perto de Mântua, e foi tão persuasivo, que conseguiu que Átila retrocedesse, e já não prosseguisse para Roma, que certamente iria saquear e talvez destruir.

Como podermos combater as "tendências destruidoras" que há no nosso tempo, às que Bento XVI se referiu ao falar aos jovens das escolas católicas britânicas, designada mente "a avidez e o egoísmo, bem como todos os demais pecados"? Como poderemos ajudar a alargar as perspectivas demasiado limitadas com que muitos olham para o mundo, para vida e para o homem?

Somente alargando o horizonte do nosso olhar, não permitindo que se torne puramente terreno e materialista, mas tendo-o sempre fixo em Jesus crucificado, ressuscitado e elevado à direita do Pai.

Como expressão deste olhar contemplativo e fascinado, deixo-vos agora, depois dos textos que citei, do séc. V, do séc. XIII e do séc. XXI, o texto de um belo hino de um autor anónimo do séc. X (que é o hino de Laudes do Ofício Divino e tem em latim o título de Optátus votis ómnium):

Implorado pela oração de todos,
nasceu o dia sagrado,
em que Cristo Deus, esperança do mundo,
subiu aos céus altíssimos.

Com a sua vitória no grande combate,
triunfando sobre o príncipe deste mundo,
manifesta diante do rosto do Pai a glória da nossa carne humana vencedora.

Mostra-se numa nuvem luminosa,
e devolve a esperança aos crentes,
abrindo as portas do paraíso
que os nossos pais tinham fechado.

Oh que grande alegria para todos!
O Filho da Virgem,
depois dos insultos, dos escarros, da cruz,
é conduzido à morada do Pai.

Demos graças Àquele que, vencendo, nos salvou.
Demos-Lhe graças
porque conduziu o nosso corpo
à sublime morada do Céu!

Que seja para nós uma glória eterna,
em comunhão com todos os eleitos do Céu:
por eles Se entregou;
e a nós não nos abandonou.

Agora, Senhor, Tu que subiste ao Céu,
eleva para Ti o nosso coração.
E envia-nos do céu o Espírito,
que é teu e do Pai. Ámen.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

Arquivo