10 de Julho de 2011 - Domingo XV do Tempo Comum

A boa terra e a água do Espírito Santo

O Evangelho de hoje fala-nos de um semeador e de uma semente. "Saiu o semeador a semear". Como explica S. Jerónimo, este semeador é o próprio Jesus Cristo, que semeia no coração dos homens a sua palavra, que é também a palavra do Pai.

Ao comparar a sua palavra a uma semente, Jesus ensina-nos, em primeiro lugar, que a sua palavra é muito poderosa, contém um dinamismo e uma força própria, um potencial imenso, que não depende de nós; mas, em segundo lugar, ensina-nos que este dinamismo poderoso requer a nossa correspondência. O germinar da semente e sobretudo a qualidade e a abundância dos frutos dependem da terra em que é acolhida, que é o coração de cada um de nós.

Há quatro tipos de terra, segundo a parábola de Jesus: a que está logo a beira do caminho, a que está cheia de pedras, a que está cheia de espinhos, e por fim a terra boa. Só na terra boa é que a semente dá frutos, e pode dá-los com muita abundância, como diz Jesus: trinta, sessenta ou cem por um!


Jerome Nadal, (Ed.) Evangelicae Historiae Imagines (1595), A Parábola do Semeador (porm.)

No famoso Sermão da Sexagésima, pregado pelo Padre António Vieira, na Capela Real, em Março de 1665, num Domingo da Sexagésima, (como se chama, no rito romano «mais antigo» o penúltimo domingo antes da Quaresma), encontra-se a seguinte explicação:

"Os espinhos, as pedras, o caminho e a terra boa em que o trigo caiu, são os diversos corações dos homens. Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados, com riquezas, com delícias; e nestes afoga-se a palavra de Deus. As pedras são os corações duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra de Deus, e se nasce, não cria raízes. Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do Mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam, e todas passam; e nestes é pisada a palavra de Deus, porque a desatendem ou a desprezam. Finalmente, a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração; e nestes prende e frutifica a palavra divina, com tanta fecundidade e abundância, que se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum".

Ao longo dos tempos, no seu esforço por fazer a terra produzir o máximo possível, os homens conseguiram muitas vezes desbravar terrenos que pareciam totalmente inóspitos para a agricultura, limpando-os de pedras, de espinhos, de matagal, tornando-os terra boa para lhes dar o alimento necessário.

Hoje a agricultura vive momentos muito difíceis, mas o esforço feito por inúmeras gerações de agricultores, permite-nos alimentar a esperança de que até a terra cheia de pedras ou cheia de espinhos, como às vezes é o coração do homem, se pode transformar em terra boa.

Mas, às vezes, "vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração". O Diabo rouba à alma o seu tesouro precioso, e pode ser muito difícil recuperá-lo! Outras vezes, são as dificuldades que acompanham quem quer ser coerente com a sua fé, ou as críticas, as incompreensões e até as perseguições, que abalam a fidelidade do cristão.

E em muitos casos, talvez os mais numerosos, são "os cuidados deste mundo e a sedução da riqueza", como diz Jesus, que "sufocám a palavra, que assim não dá fruto". Quantas pessoas, absorvidas pelas preocupações ou pelas ambições da vida, mesmo quando legítimas, se esquecem de Deus, ou até O negam ou desprezam! Mas então que sentido pode ter a vida e os seus trabalhos?

Que para todos chegue, como diz uma antiga oração, "o espaço da verdadeira penitência", a hora da perfeita conversão. Que toda a terra do mundo se converta em terra boa, arável, fértil, acolhedora da semente divina.

Mas há momentos em que mesmo a melhor terra não consegue produzir, por falta de água, como acontece actualmente em vários países do mundo, devido à terrível seca que os afecta.

Também os nossos corações podem tornar-se áridos, se nos faltar a água do Espírito Santo. O Espírito é "a água viva que brota de Cristo crucificado, como da sua fonte, e jorra em nós para a vida eterna", diz o Catecismo da Igreja Católica (n. 694).

Na «Sequência do Espírito Santo», que cantamos no Domingo de Pentecostes, pedimos a dado momento: "Riga quod est aridum, Regai o que está seco..." O Espírito Santo não permite que a nossa fé estiole e seque. Quando alguém sentir uma certa aridez, reze ao Espírito Santo!

S. Paulo, na 2ª leitura de hoje, da Carta aos Romanos, diz que já "possuímos as primícias do Espírito". As primícias são os primeiros frutos da colheita que se oferecem a Deus em sacrifício, abençoando assim toda a colheita. Mas também podem significar, como parece ser aqui o caso, um penhor ou garantia do que está para vir.

Nesse sentido, peçamos a graça de recebermos ainda com mais abundância os dons do Espírito Santo, para vermos e ouvirmos Jesus Cristo com grande fé e a mor, com um fascín io sempre maior, e produzirmos mais frutos, e assim darmos a Deus, já neste mundo, toda a glória, pelo infinito poder com que nos criou, e pelo infinito amor com que, em Jesus, nos salvou.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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