17 de Julho de 2011 - Domingo XV do Tempo Comum

O bem prevalecerá

A 1ª leitura e o Evangelho levantam um problema que sempre inquietou o homem: porquê o mal?

Na primeira parábola do Evangelho de hoje, os servidores do Dono do campo, angustiados por verem naquela seara tanto joio misturado com o bom trigo, perguntam: " «Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? De onde vem então o joio?» "

E o Dono do campo respondeu sem hesitar: "«Foi um inimigo que fez isso» ". E já no início da parábola, esta explicação tinha sido antecipada: "Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora".

Semear joio no meio do trigo era uma forma de vingança que, na Antiguidade, qualquer pessoa podia facilmente sofrer de um seu inimigo.

Pela calada da noite ou ao entardecer, como se vê no quadro de um conhecido pintor do séc. XIX, James Tissot que hoje reproduzimos, vinha esse homem sem escrúpulos e lançava punhados de semente venenosa nos sulcos ainda frescos onde acabara de ser semeado o trigo.


James Tissot, O inimigo semeia joio (1886)

Depois, já em casa, com os discípulos, Jesus explicou que e o inimigo que semeou joio no campo de Deus "é o Diabo". Ele é o grande adversário do Reino de Deus e da obra de Cristo, é o grande inimigo da Igreja, cuja acção procura destruir ou impedir, semeando a divisão, o cisma, a heresia, e, pior que tudo, o mau exemplo e o escândalo que resulta dos pecados dos próprios cristãos.

Mas imaginemos que Jesus, depois desta explicação, retomava a linguagem da parábola, e propunha a seguinte questão aos seus discípulos: «Imaginem agora que chegou o tempo da ceifa. Nessa altura, quando avaliaram tudo o que tinham colhido, qual era mais abundante? O joio ou o trigo?

O trigo, seguramente! E assim continua a ser, apesar de todo o mal que existe no mundo, desta seara que é o campo de Deus, resultam, mediante o esforço do homem e com a ajuda de Deus inúmeras boas obras, sempre superiores aos numerosos males que também existem no mundo.

Na liturgia da Missa, sobretudo no Rito Romano, reflecte-se esta visão serenamente positiva da vitória do bem sobre o mal. Se não fosse assim, não teríamos nada para oferecer a Deus! Mas temos para oferecer a Deus o nosso trabalho, as nossas lutas, o nosso amor, e muitas vezes a nossa contrição sincera.. Estas boas obras, estes bons frutos do campo de Deus trabalhado pelos homens, estão representados no pão e no vinho, que pedimos a Deus que se digne aceitar e abençoar, como se diz na Oração Eucarística I ou Cânon Romano:

" A vós, portanto, Pai clementíssimo, nós Vos pedimos e rogamos humildemente por Jesus Cristo, vosso Filho e nosso Senhor, que aceiteis e abençoeis estes dons, estas dádivas, estes sacrifícios santos e imaculados" .

Pelas mãos do sacerdote, a Igreja oferece a Deus "sacrifícios santos e imaculados", isto é, o pão e o vinho, que vão ser consagrados. E por quem os oferece, desde logo, mesmo antes de serem consagrados? Prossegue a oração (que continuo a citar numa tradução um pouco mais literal do que a do Missal):

" Antes de tudo, nós vo-los oferecemos pela vossa Igreja Santa e Católica: para que vos digneis pacificá-la, protegê-la, uni-la e governá-la por toda a terra: em união com o vosso servo, o nosso Papa N., com o nosso Bispo N. e todos os que são fiéis à verdade, e professam a fé católica e apostólica".

É esta a primeira intenção da grande oração eucarística e consecratória da Igreja: que Deus pacifique e governe a Igreja, em comunhão com o Papa e os Bispos, na unidade da fé verdadeira.

Finalmente, em nome de todos, e antes de passar à narrativa da Instituição, ou seja, à Consagração, o sacerdote conclui:

"Nós vos pedimos, ó Deus, que vos digneis, em tudo, tornar esta oblação abençoada, aprovada, válida, digna e agradável a Vós:
para que se torne para nós o Corpo e o Sangue de vosso dilectíssimo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo" .

Será ouvido este novo pedido? Sim, esta oração, feita em Cristo e no seu Espírito, é infalivelmente escutada, e assim, apesar de todo o mal, uma vez mais o bem prevalecerá, e o sacrifício de Cristo tornar-se-á presente no altar, trazendo consigo um imenso caudal de graças para o mundo inteiro, e em particular para todos os que nele quiserem participar com fé e amor.

Com a sincera amizade em Cristo
do Prior de Santa Maria de Belém
Cón. José Manuel dos Santos Ferreira

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